{"id":514,"date":"2026-09-22T00:29:09","date_gmt":"2026-09-22T00:29:09","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?outro_trabalho=paginas-de-espelho-notas-sobre-o-duplo-em-sergio-santanna"},"modified":"2026-09-22T00:29:09","modified_gmt":"2026-09-22T00:29:09","slug":"paginas-de-espelho-notas-sobre-o-duplo-em-sergio-santanna","status":"publish","type":"outro_trabalho","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?outro_trabalho=paginas-de-espelho-notas-sobre-o-duplo-em-sergio-santanna","title":{"rendered":"P\u00e1ginas de espelho: notas sobre o duplo em S\u00e9rgio Sant\u2019Anna"},"content":{"rendered":"<p>Na obra do escritor que sobe ao palco neste livro \u2013 justa homenagem \u2013, o duplo ocupa lugar fundamental. Dos muitos contos, novelas, romances (alguns dos quais citados aqui, mais adiante) em que se d\u00e1 essa presen\u00e7a, gostaria de destacar O voo da madrugada, de 2003. Comecemos por uma breve divaga\u00e7\u00e3o sobre como, no conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao volume, o duplo se articula com o fant\u00e1stico. Se definir com precis\u00e3o um g\u00eanero liter\u00e1rio \u00e9 algo dif\u00edcil (alguns dir\u00e3o que se trata de um exerc\u00edcio no reino do imponder\u00e1vel), em se tratando do fant\u00e1stico a tarefa \u00e9 um pouco mais complicada, em especial porque implica definir um conceito no seu cruzamento com outro, igualmente complexo, o de realidade, ou, ainda, realidade e imagina\u00e7\u00e3o, mediadas (ou criadas, dependendo de como as vejamos) pela linguagem, particularmente a liter\u00e1ria ou, recortando mais ainda, a da prosa de fic\u00e7\u00e3o. Das v\u00e1rias possibilidades te\u00f3ricas de trabalhar o conceito, a que mais se ajusta ao que pretendo anotar aqui \u2013 a respeito do duplo em S\u00e9rgio Sant\u2019Anna \u2013 ainda \u00e9 a cl\u00e1ssica formula\u00e7\u00e3o de Todorov, em Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura fant\u00e1stica (2004). Para Todorov, o fant\u00e1stico s\u00f3 existe na incerteza. Diante de um evento sobrenatural, o leitor hesita entre acreditar ou n\u00e3o no que lhe est\u00e1 sendo contado. Num mundo real, num planeta redondo, com leis pr\u00f3prias regendo a natureza e em que n\u00e3o h\u00e1 vampiros ou duendes ou zumbis, ocorre um evento que n\u00e3o pode ser explicado pela ci\u00eancia. O leitor, ent\u00e3o, pode entender aquilo de duas formas. Ou est\u00e1 diante de um evento imagin\u00e1rio e, assim, o mundo continua a ser como \u00e9, com suas leis pr\u00f3prias, ou aquilo de fato ocorreu, \u00e9 t\u00e3o real quanto um copo d\u2019\u00e1gua ou uma folha em branco sobre a mesa do escritor, e ent\u00e3o esse leitor h\u00e1 de crer que o mundo n\u00e3o \u00e9 exatamente o que pensava. Quando a op\u00e7\u00e3o \u00e9 pela primeira explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para o acontecimento sobrenatural, estamos no campo do estranho, do que existe mas \u00e9 raro de acontecer e n\u00e3o contraria a natureza tal qual a conhecemos. Se a op\u00e7\u00e3o \u00e9 pela segunda, adentra-se o espa\u00e7o do maravilhoso. Num ou noutro caso, sa\u00edmos do fant\u00e1stico. Segundo Todorov: \u201cCheguei quase a acreditar\u201d: eis a f\u00f3rmula que resume o esp\u00edrito do fant\u00e1stico. A f\u00e9 absoluta como a incredulidade total nos levam para fora do fant\u00e1stico; \u00e9 a hesita\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e1 vida (&#8230;) A hesita\u00e7\u00e3o do leitor \u00e9 pois a primeira condi\u00e7\u00e3o do fant\u00e1stico (2004, p. 36 e 37. Grifos do autor). \u00c9 preciso entender que n\u00e3o se trata, aqui, do leitor real, este ou aquele, com suas cren\u00e7as ou convic\u00e7\u00f5es v\u00e1rias, mas uma \u201c\u2019fun\u00e7\u00e3o\u2019 de leitor, impl\u00edcita no texto (do mesmo modo que nele acha-se impl\u00edcita a no\u00e7\u00e3o do narrador)\u201d (p. 37). A hesita\u00e7\u00e3o em torno da exist\u00eancia ou n\u00e3o do evento sobrenatural narrado n\u00e3o diz respeito, portanto, ao leitor de carne e osso, mas a marcas textuais. . S\u00e3o essas marcas que vemos espalhadas por todo o conto \u201cO voo da madrugada\u201d, que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, a come\u00e7ar pela op\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Sant\u2019Anna por um narrador em primeira pessoa. Se um narrador em primeira pessoa \u00e9 sempre suspeito, por sua parcialidade, mais ainda quando se trata de um homem que, poucas horas antes do acontecimento sobrenatural (o primeiro deles, o segundo vir\u00e1 no final do conto) toma dois comprimidos para dormir, das amostras que carregava consigo (\u00e9 auditor de um laborat\u00f3rio farmac\u00eautico, em viagem de trabalho). Tenso, insone, hospedado no Hotel Viajante (fica a cargo do leitor inserir no conjunto dessas anota\u00e7\u00f5es alguma interpreta\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel para o nome do hotel), ele desce, atravessa a portaria e vai viver \u2013 por poucos minutos, nos arredores do hotel, numa zona de prostitui\u00e7\u00e3o (de crian\u00e7as inclusive) \u2013 uma experi\u00eancia que, n\u00e3o podendo ser chamada de traum\u00e1tica, estaria a caminho disso. J\u00e1 no aeroporto, madrugada ainda, prestes a embarcar num voo n\u00e3o previsto em sua agenda \u2013 a pressa (a ang\u00fastia) de sair do hotel e da cidade o levaram a buscar um voo especial \u2013, \u00e9 interpelado por uma velha vendedora de caf\u00e9 (levava a cafeteira no ombro e \u00e9 descrita pelo narrador como algu\u00e9m que lembraria, se estiv\u00e9ssemos num conto de fadas, uma feiticeira ou algo do tipo), que lhe diz: \u201cO senhor n\u00e3o tem medo de viajar com eles?\u201d, complementando, pouco depois: \u201cNingu\u00e9m sabe o que viaja com eles, meu filho\u201d (p.16). Eles: os cad\u00e1veres de um acidente a\u00e9reo, acontecido poucos dias antes. O voo especial levava no bagageiro os restos mortais e, na cabine, alguns poucos parentes das v\u00edtimas. Outras marcas textuais v\u00e3o construindo aos poucos o efeito de hesita\u00e7\u00e3o a que se refere Todorov, dentre elas o fato de, j\u00e1 a bordo, o narrador saborear um vinho de razo\u00e1vel qualidade (o consumo de \u00e1lcool pouco antes do advento do sobrenatural: elemento comum aos narradores de fic\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas). Quando, ent\u00e3o, j\u00e1 pela metade do conto, surge a mulher misteriosa, jovem, vestida de preto, elegante e bonita, que desponta do nada e vai sentar-se ao lado do narrador, com quem vive um id\u00edlio breve e quase rom\u00e2ntico, sumindo nas brumas do sono do homem pouco depois, a ambiguidade j\u00e1 est\u00e1 montada meticulosamente. \u00c9 o pr\u00f3prio narrador, ali\u00e1s, que num gesto metaficcional, caracter\u00edstico da obra de S\u00e9rgio Sant\u2019Anna, anuncia ao leitor o que ele talvez n\u00e3o tivesse percebido ainda: Mas quem era ela: o inconceb\u00edvel? Uma das mortas do acidente que subiu da morgue improvisada no avi\u00e3o e veio estar comigo? (&#8230;) o que dizer, ent\u00e3o, aos mais desconfiados, entre os quais me julgo com direito a incluir-me? Que n\u00e3o passou tudo de um sonho? E os que gostam de interpretar os sonhos segundo os c\u00e2nones, apontar\u00e3o que aquela jovem mulher n\u00e3o foi mais do que a manifesta\u00e7\u00e3o do meu abandono; dos meus desejos recalcados no Hotel Viajante e sua pecaminosa periferia. Al\u00e9m disso, a peculiaridade daquele voo, a vizinhan\u00e7a dos mortos, teria se insinuado no sonho, talvez com alguma contribui\u00e7\u00e3o da preta velha no aeroporto (&#8230;) Uma alucina\u00e7\u00e3o, dir\u00e3o os c\u00e9ticos, levando em conta, ainda mais, que misturara aos comprimidos tomados no hotel o vinho servido a bordo. Sim, uma alucina\u00e7\u00e3o, tudo \u00e9 poss\u00edvel, talvez naquele est\u00e1gio intermedi\u00e1rio entre a vig\u00edlia e o sono (&#8230;) Um fantasma \u2013 e de carne e osso \u2013, rir\u00e3o os escarnecedores, e, diante do que vivi em seguida, serei capaz de rir com eles, embora por motivos muito outros. (p. 24 e 25) O gesto autorreferente, do autor com a pr\u00f3pria escrita, do narrador com a pr\u00f3pria narra\u00e7\u00e3o, quebra o que seria o \u201cefeito do fant\u00e1stico\u201d (ainda Todorov) e, ao mesmo tempo, abre uma outra porta de leitura. A hesita\u00e7\u00e3o do leitor em torno do acontecimento sobrenatural, a que se refere Todorov e que seria a condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do g\u00eanero, surge no conto de S\u00e9rgio Sant\u2019Anna n\u00e3o apenas como marca do fant\u00e1stico, mas como deixa para a entrada do duplo. . Pelo elemento sobrenatural \u2013 o surgimento (e tudo o que se segue a ele) da mulher no voo da madrugada \u2013 ou pela hesita\u00e7\u00e3o criada pelo texto em torno desse mesmo elemento (teria acontecido ou n\u00e3o?), o tema do duplo come\u00e7a a surgir no texto como uma for\u00e7a que conduzir\u00e1 o relato at\u00e9 o final. Ou, na verdade, talvez nesse momento o leitor apenas se d\u00ea conta de que o duplo, sutilmente, j\u00e1 caminhava em sil\u00eancio pelo texto desde o in\u00edcio e s\u00f3 agora, pela emers\u00e3o do sobrenatural, tenha dado as caras de forma mais evidente, servindo como estrat\u00e9gia para que o autor, ardilosamente, pudesse preparar o desfecho do seu conto, em que o narrador vai se encontrar consigo mesmo, no pr\u00f3prio quarto, como se fosse um outro que estivesse em casa, enquanto esse eu (quem?) viajava para uma cidade distante. A estrat\u00e9gia, ent\u00e3o, seria a de encaminhar o leitor para um evento sobrenatural, fazendo-o acreditar que, como nas hist\u00f3rias tradicionais do g\u00eanero, estaria ali o cl\u00edmax do conto e sua raz\u00e3o de ser \u2013 como se todo o conto tivesse sido escrito para terminar no encontro do narrador com a mulher misteriosa, fantasma \u2013 e de repente, numa reviravolta, o conto partisse para uma segunda parte, esta sim a que de fato interessa e que, a contrapelo, obnubilada pelo autor, j\u00e1 estaria se anunciando desde as primeiras p\u00e1ginas. A se acreditar nessa estrat\u00e9gia, n\u00e3o seria por acaso que o narrador interrompe vez ou outra sua narrativa para divaga\u00e7\u00f5es como essa: \u201cos sentimentos humanos s\u00e3o sempre partidos no m\u00ednimo em dois, e, se h\u00e1 homens dignos, s\u00e3o apenas seres que conseguem vedar seus compartimentos secretos\u201d (p. 14). Ou ainda, assim que o avi\u00e3o al\u00e7a voo: \u201cComprazia-me que o avi\u00e3o fosse diminutos pontos luminosos e piscantes no espa\u00e7o e chegava a dividir-me em dois, para, na fantasia, igual a um menino, contempl\u00e1-lo do solo, imaginando-me em seu bojo.\u201d (p. 17) Divaga\u00e7\u00f5es, refor\u00e7o, que surgem na narrativa antes do evento sobrenatural. Quando finalmente desembarca em S\u00e3o Paulo, o narrador procura pela mulher no sagu\u00e3o do aeroporto, na sala de espera especial para os parentes (transformada em sala de vel\u00f3rio), consulta no guich\u00ea da empresa a\u00e9rea a lista de passageiros (mais tarde ir\u00e1 a reda\u00e7\u00f5es de jornais verificar obitu\u00e1rios, fotos, qualquer pista que o levasse a rever a jovem daquela madrugada). Em v\u00e3o. Toma um t\u00e1xi e retorna ao seu apartamento, num velho pr\u00e9dio que d\u00e1 fundos para outros. No apartamento \u00e0s escuras, sente uma presen\u00e7a. E eis que o conto caminha para o ep\u00edlogo, quando o narrador v\u00ea a si mesmo, com um sorriso ir\u00f4nico (talvez):<\/p><\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-514","outro_trabalho","type-outro_trabalho","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/outro_trabalho\/514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/outro_trabalho"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/outro_trabalho"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}