{"id":558,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=presente-para-os-leitores"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"presente-para-os-leitores","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=presente-para-os-leitores","title":{"rendered":"Presente para os leitores"},"content":{"rendered":"<p><em>Em sua bela colet\u00e2nea de resenhas<\/em>, No pa\u00eds do presente: fic\u00e7\u00e3o brasileira no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI (Editora Rocco), <em>rec\u00e9m-lan\u00e7ada, Fl\u00e1vio Carneiro faz um precioso apanhado e d\u00e1 dicas de leitura.<\/em><\/p>\n<p><b>Na apresenta\u00e7\u00e3o de <em>No pa\u00eds do presente<\/em>, voc\u00ea revela que a sua id\u00e9ia foi elaborar um mapeamento da prosa ficcional brasileira a partir de 2000. Qual foi o grande desafio desse trabalho? <\/b><\/p>\n<p>Acredito que o grande desafio tenha sido o de selecionar as obras que considerei mais significativas para a composi\u00e7\u00e3o desse mapeamento. Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil &#8211; na vida e na literatura &#8211; optar. H\u00e1 muitos livros bons no panorama da fic\u00e7\u00e3o brasileira atual, e muita propaganda enganosa tamb\u00e9m. Procurei ser o mais criterioso poss\u00edvel, evitando apelos de qualquer outra ordem que n\u00e3o fosse a da qualidade e da representatividade liter\u00e1rias. Ainda assim, estou ciente de ter cometido uma ou outra injusti\u00e7a.<\/p>\n<p><b>O subt\u00edtulo do livro \u00e9 Fic\u00e7\u00e3o Brasileira no In\u00edcio do S\u00e9culo XXI. Acima de tudo, o que essa fic\u00e7\u00e3o tem de mais atraente, para voc\u00ea, Fl\u00e1vio?<\/b><\/p>\n<p>A diversidade. Sei que n\u00e3o h\u00e1 nenhum per\u00edodo liter\u00e1rio homog\u00eaneo &#8211; basta pensarmos na multiplicidade de vozes do romantismo ou do modernismo, por exemplo -, por\u00e9m, o que marca a atualidade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 propriamente confronto, mas conviv\u00eancia das mais variadas vertentes, ainda que algumas em tens\u00e3o com outras (em tens\u00e3o, n\u00e3o em conflito). Alguns acham isso uma pobreza, saudosos dos tempos combativos das vanguardas. Eu acho, pelo contr\u00e1rio, uma grande riqueza saber que n\u00e3o h\u00e1 mais patrulhas, que o escritor pode seguir seu pr\u00f3prio caminho, sem precisar ser contra ou a favor de determinada corrente. Da\u00ed achar um retrocesso essa insist\u00eancia (ainda que para efeitos meramente midi\u00e1ticos) na id\u00e9ia de gera\u00e7\u00e3o, grupo, etc.<\/p>\n<p><b>Tamb\u00e9m na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, voc\u00ea escreve: &#8220;E o que dizer da fic\u00e7\u00e3o brasileira produzida nos primeiros anos do s\u00e9culo XXI? Em primeiro lugar, \u00e9 bom lembrar que falar do presente \u00e9 tarefa delicada. Se a hist\u00f3ria tradicional nos ensinou que \u00e9 preciso ter certo distanciamento do fato para analis\u00e1-lo com imparcialidade, os novos historiadores t\u00eam defendido id\u00e9ia contr\u00e1ria: \u00e9 preciso ler o contempor\u00e2neo de dentro mesmo do contempor\u00e2neo. O que \u00e9 mais delicado nessa hist\u00f3ria de falar do presente? <\/b><\/p>\n<p>Falar do presente significa aceitar a incerteza. Ali\u00e1s, se pensarmos bem, sempre convivemos com a incerteza, mesmo quando falamos do passado. De todo modo, quando falamos de algo ocorrido h\u00e1 vinte ou trinta anos, temos pelo menos a ilus\u00e3o de que falamos sobre alguma coisa j\u00e1 estabelecida. Essa ilus\u00e3o nos fornece, a princ\u00edpio, um solo mais firme. Falar de algo que ainda est\u00e1 se processando, que muda a cada dia, requer outra postura, que a hist\u00f3ria tradicional (a geral e a liter\u00e1ria) evitava e que, a meu ver, \u00e9 fascinante. Voc\u00ea \u00e9 obrigado a conviver com a d\u00favida. Grande parte dos cr\u00edticos foge disso, porque acredita que n\u00e3o se pode saber ao certo se determinada obra tem ou n\u00e3o valor, se vai ficar ou n\u00e3o para a posteridade. Acho isso uma bobagem. O cr\u00edtico n\u00e3o tem que olhar sempre para tr\u00e1s, tem que assumir riscos, falar do presente no meio mesmo do presente. Nesse movimento acredito que o cr\u00edtico se aproxima do ficcionista. Porque, ent\u00e3o, um e outro est\u00e3o lidando com o imponder\u00e1vel, amparados cada qual por sua forma\u00e7\u00e3o, sua t\u00e9cnica, seu olhar sobre o mundo, e sujeitos, ambos, a cair no abismo a cada passo.<\/p>\n<p><b>Por falar em abismos e d\u00favidas, um pensamento seu publicado no livro: &#8220;(&#8230;) se \u00e9 certo que conviver com a incerteza pode nos levar ao caos, tamb\u00e9m \u00e9 justo dizer que pode nos livrar da ilus\u00e3o de que h\u00e1 verdades absolutas e de que todo gesto humano deve ser devidamente catalogado, depois de dissecado plenamente. Quem lida com literatura sabe que s\u00f3 h\u00e1 verdades relativas e \u00e9 imbu\u00eddo desse pensamento que se deve voltar os olhos para o presente, sem a pretens\u00e3o de dar explica\u00e7\u00f5es definitivas ou cair na armadilha de tentar estabelecer futuros c\u00e2nones&#8221;. Em que outros aspectos a incerteza \u00e9 um alimento essencial para o escritor?<\/b><\/p>\n<p>A incerteza acompanha o escritor desde o in\u00edcio, desde aquele momento inicial, em que ele teve o vislumbre de uma id\u00e9ia (um personagem, um cen\u00e1rio, uma cena, uma fala qualquer, uma palavra meio sem sentido lan\u00e7ada no papel). Por mais racional e met\u00f3dico que ele seja, n\u00e3o poder\u00e1 jamais ter certeza do que vai sair dali, daquele primeiro impulso. Depois vai segurando as r\u00e9deas, dando um contorno que lhe parece bom, dando forma \u00e0 sua hist\u00f3ria, at\u00e9 colocar nela um ponto final. Mas a\u00ed come\u00e7a outra incerteza: como seu livro ser\u00e1 lido? Imposs\u00edvel saber. Ele ter\u00e1 que conviver com essa impossibilidade, a de saber como sua hist\u00f3ria foi ou est\u00e1 sendo lida por seus contempor\u00e2neos. E tamb\u00e9m, claro, jamais poder\u00e1 saber como ser\u00e1 lido no futuro (ali\u00e1s, n\u00e3o pode nem ter certeza de que realmente ser\u00e1 lido no futuro). Longe, no entanto, de ser um problema, essa incerteza \u00e9 a mat\u00e9ria-prima do escritor. Acredito que os bons escritores sabem convert\u00ea-la em papel e tinta, criando hist\u00f3rias que ser\u00e3o, por sua vez, geradoras de novas incertezas, agora no pensamento e na imagina\u00e7\u00e3o do leitor.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea de novo: &#8220;Ao contr\u00e1rio do que rezam os antigos manuais, a instabilidade deve ser entendida n\u00e3o como advers\u00e1rio, mas como aliada. Borges escreveu, certa feita, que nada se edifica sobre a pedra, e sim sobre a areia, mas \u00e9 nosso dever edificar como se a areia fosse pedra. Falar do presente \u00e9 justamente isso&#8221;. Em que aspectos a edifica\u00e7\u00e3o nessa areia com pele de pedra \u00e9 essencial? <\/b><\/p>\n<p>Acho que, no exerc\u00edcio da cr\u00edtica, \u00e9 preciso criar alguns pontos de apoio, para que a instabilidade tamb\u00e9m n\u00e3o seja total, excessiva, impedindo, assim, a pr\u00f3pria exist\u00eancia da leitura. Acredito ser poss\u00edvel, e recomend\u00e1vel, estabelecer certos crit\u00e9rios, certos par\u00e2metros norteadores para o contato com o texto liter\u00e1rio, sobretudo com aquele que acabou de sair da gr\u00e1fica. Sem esquecer que o solo em que pisa \u00e9 arenoso, o cr\u00edtico pode ir inventando para si pr\u00f3prio lugares mais seguros e com eles seguir caminho.<\/p>\n<p><b>At\u00e9 o final do ano voc\u00ea est\u00e1 lan\u00e7ando um romance, pela Rocco, mas voc\u00ea disse que prefere n\u00e3o falar nele por enquanto, certo? Falar num romance que ainda n\u00e3o saiu d\u00e1 frieza na surpresa?<\/b><\/p>\n<p>Posso falar um pouco do romance sim, sem problemas. \u00c9 que quando te disse isso estava muito envolvido ainda com este livro de cr\u00edtica. O romance vai se chamar A CONFISS\u00c3O e \u00e9 narrado por um homem que seq\u00fcestra uma mulher de madrugada e a leva para uma casa isolada, numa praia deserta. L\u00e1, ele a tranq\u00fciliza, dizendo que n\u00e3o lhe far\u00e1 mal, apenas quer que ela ou\u00e7a uma longa hist\u00f3ria que ele tem para lhe contar. O romance \u00e9 essa hist\u00f3ria. No final, o leitor fica sabendo por que o homem escolheu aquela mulher, e n\u00e3o outra, para ouvir sua narrativa.<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, mais do que tudo, o que esquenta um livro na cabe\u00e7a, no cora\u00e7\u00e3o, na expectativa do leitor?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 pra saber. Olha, querer responder com exatid\u00e3o a essa pergunta \u00e9 quase uma viol\u00eancia. O que encanta a uns aborrece a outros, e o mesmo leitor muda tanto que, no momento exato em que acabasse de responder \u00e0 sua pergunta, talvez a resposta j\u00e1 tivesse se tornado ultrapassada pela chegada de novos desejos de leitura. Isso \u00e9 fascinante, para quem escreve e para quem l\u00ea, saber que nunca somos iguais a ningu\u00e9m, nem a n\u00f3s mesmos, e que carregamos essa natureza inst\u00e1vel para tudo aquilo que lemos e escrevemos.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m na apresenta\u00e7\u00e3o de <em>No pa\u00eds do presente, <\/em>voc\u00ea adverte o leitor de que nem todos os livros selecionados est\u00e3o isentos de ressalvas. &#8220;N\u00e3o se trata propriamente de uma antologia, algo como &#8216;a melhor fic\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI.&#8217; Tampouco se pode dizer que o crit\u00e9rio norteador dessa escolha tenha sido unicamente o da representatividade, excluindo a qualidade&#8221;, voc\u00ea explica. E depois acrescenta: &#8220;Busquei um meio-termo, de modo que as obras selecionadas fossem, ao mesmo tempo, representativas da diversidade de nossa produ\u00e7\u00e3o atual e apresentassem boa qualidade liter\u00e1ria, ainda que, em alguns casos, com um ou outro pequeno problema&#8221;. Tem livros que te puxam como leitor, e tem livros que (mesmo quando ainda n\u00e3o nasceram), te puxam como escritor. O que mais te puxa para dentro de um livro, Fl\u00e1vio? <\/strong><\/p>\n<p>Gosto de muita coisa, em se tratando de literatura. O que mais me atrai, no entanto, s\u00e3o hist\u00f3rias nas quais prevalece a fantasia, a imagina\u00e7\u00e3o. Se pudesse, passaria mais tempo lendo fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, fic\u00e7\u00e3o policial (em que imagina\u00e7\u00e3o e racioc\u00ednio l\u00f3gico se aliam). Uma vez um autor de que gosto muito (e estou sempre citando), Italo Calvino, disse que estava cansado de escrever os livros que as pessoas queriam ler (no caso, seus primeiros romances, de fei\u00e7\u00e3o neorealista) e que, daquele momento em diante, iria escrever os livros que ele gostaria de ler. Concordo plenamente com essa estrat\u00e9gia: escrever aquilo que voc\u00ea gostaria de ler. Talvez por isso meus livros de fic\u00e7\u00e3o &#8211; os infanto-juvenis e os outros &#8211; caminhem ora para o fant\u00e1stico, ora para o policial. Considero que um livro meu est\u00e1 pronto para ir para a editora quando percebo que \u00e9 um livro que eu gostaria de ler, quer dizer, que eu gostaria de ver numa livraria, folhear, ler o comecinho e dizer comigo mesmo: esse parece bom, vou levar (e n\u00e3o largar antes do fim, \u00e9 l\u00f3gico).<\/p>\n<p><strong>Por outro lado, quando est\u00e1 lendo, ou escrevendo, o que faz voc\u00ea ter vontade de desistir de um livro?<\/strong><\/p>\n<p>Quando estou lendo, tenho vontade de abandonar o livro quando percebo que a voz do autor est\u00e1 soando alta demais. Faz um barulho insuport\u00e1vel quando o autor resolve meter sua voz em meio \u00e0s dos personagens. Chamo a isso de &#8220;voz intrusa.&#8221; S\u00e3o aqueles coment\u00e1rios no meio da hist\u00f3ria, aquelas mensagens, aqueles rasgos de falsa sabedoria. Isso realmente me irrita. O autor deve respeitar a autonomia de seus personagens e, sobretudo, a do leitor. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 criar a hist\u00f3ria, s\u00f3 isso (o que j\u00e1 \u00e9 muito, sem d\u00favida). Acho detest\u00e1vel, e perigos\u00edssimo, algu\u00e9m usar a fic\u00e7\u00e3o para passar ideologia, por mais politicamente correta que seja, ou para esbanjar erudi\u00e7\u00e3o. Quanto a abandonar um livro que estou escrevendo, j\u00e1 aconteceu algumas vezes. Esse mesmo, <em>A confiss\u00e3o, <\/em> comecei a escrever antes do romance policial <em>O campeonato<\/em>. Abandonei porque estava ficando um pouco pesado demais (achei que, se eu ganhasse aquele livro de presente, iria gostar de ler o comecinho mas depois iria me cansar e deixar pra l\u00e1). Preferi partir para outra hist\u00f3ria, que me desse mais prazer (de escrever e ler). H\u00e1 v\u00e1rios motivos para se abandonar um livro que se est\u00e1 escrevendo. \u00c0s vezes a gente o retoma, como foi o caso de <em>A confiss\u00e3o,<\/em> \u00e0s vezes n\u00e3o. Faz parte. O escritor precisa aprender a rasgar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Em <em>No pa\u00eds do presente, <\/em>al\u00e9m de comentar livros de algumas revela\u00e7\u00f5es da literatura brasileira, voc\u00ea analisa obras de autores consagrados (dentre eles, Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Verissimo, Antonio Torres, Chico Buarque, Rubem Fonseca&#8230;), e lembra que seria pouco produtivo separar os novos dos consagrados, para valorizar ainda mais o di\u00e1logo do novo com o antigo. Consagrado ou n\u00e3o, o que mais costuma te dar vontade de fazer uma resenha, de fazer a cr\u00edtica de um livro?<\/strong><\/p>\n<p>Isso varia muito. \u00c0s vezes me d\u00e1 vontade de resenhar porque \u00e9 um autor de que gosto, do qual j\u00e1 li outros livros. \u00c0s vezes \u00e9 porque se trata do segundo livro de um autor jovem, de cujo primeiro livro gostei (muito ou apenas um pouco) e quero ver como se saiu numa segunda aventura. \u00c0s vezes me atrai o g\u00eanero do livro, ou o primeiro par\u00e1grafo. \u00c0s vezes fico curioso porque li uma cr\u00edtica positiva do livro, escrita por algu\u00e9m que respeito, e d\u00e1 vontade de conferir. E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p><strong>Mais uma vez voc\u00ea: &#8220;Estudar a produ\u00e7\u00e3o ficcional no Brasil que entra pelo s\u00e9culo XXI implica saber que a fic\u00e7\u00e3o produzida atualmente pelos escritores mais experientes se alimenta da mesma fonte em que bebem os iniciantes: a linguagem da televis\u00e3o, da publicidade, do cinema, da Internet, ou da pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, n\u00e3o s\u00f3 brasileira&#8221;. Todos bebem na mesma fonte, mas cada um a digere de um modo diferente, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, voc\u00ea tem raz\u00e3o, sempre \u00e9 assim. Caso contr\u00e1rio, todos escreveriam sobre a seca do nordeste, por exemplo, do mesmo jeito, e a\u00ed n\u00e3o ter\u00edamos diferen\u00e7a entre Jorge Amado e Graciliano Ramos.<\/p>\n<p><strong>Novo trecho de <em>No pa\u00eds do presente: <\/em>&#8220;Talvez seja importante dizer que este livro n\u00e3o tem nem o desejo de, nem a compet\u00eancia para, se transformar em c\u00e2none, de modo que deve ser tomado apenas como um apanhado de sugest\u00f5es de autores e obras. Caber\u00e1 ao leitor, em \u00faltima inst\u00e2ncia, eleger ou n\u00e3o como suas as leituras que foram minhas, e que, acredito, possam de algum modo servir ao interessado em saber a quantas anda nossa fic\u00e7\u00e3o hoje&#8221;. Mais do que um livro de saber, voc\u00ea fez um livro de prazer. Ent\u00e3o, entre o saber e o prazer, afinal, a quantas anda a fic\u00e7\u00e3o brasileira hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Fico muito feliz em saber que voc\u00ea achou isso, que \u00e9 um livro de prazer. Quanto \u00e0 segunda pergunta, \u00e9 dif\u00edcil responder em poucas linhas. A id\u00e9ia \u00e9 que o pr\u00f3prio leitor tire suas conclus\u00f5es, ap\u00f3s ter lido o ensaio introdut\u00f3rio e as 65 resenhas que comp\u00f5em o livro. De todo modo, acredito que a fic\u00e7\u00e3o brasileira produzida hoje \u00e9 de alta qualidade, seja pela presen\u00e7a de novos e talentosos autores, seja pela performance cada vez mais apurada de alguns mestres.<\/p>\n<p><strong>Na primeira resenha analisada, voc\u00ea fala sobre o di\u00e1logo de linguagens presente no romance, e escreve: &#8220;\u00c9 da ambig\u00fcidade que se alimenta a narrativa contempor\u00e2nea&#8221;. Em que sentido a ambig\u00fcidade mais alimenta o seu trabalho de autor?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, o texto liter\u00e1rio deve ser sempre um artefato fabricador de ambig\u00fcidades. \u00c9 essa, para mim, a fun\u00e7\u00e3o da literatura. N\u00e3o a de ensinar, n\u00e3o a de provocar revolu\u00e7\u00f5es, mas a de dar alimento para a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Em uma an\u00e1lise que faz de um livro do Luis Fernando Verissimo, voc\u00ea diz assim: &#8220;O ensa\u00edsta e escritor argentino Ricardo Piglia afirmou certa vez que entende a cr\u00edtica como uma variante do g\u00eanero policial. Segundo Piglia, o cr\u00edtico \u00e9 como um detetive que tenta decifrar um enigma, ainda que n\u00e3o haja enigma. \u00c9 um aventureiro que se move entre os textos em busca de um segredo que, \u00e0s vezes, n\u00e3o existe. Nesse sentido, o prazer da cr\u00edtica &#8211; ou, de um modo geral, da leitura &#8211; estaria n\u00e3o exatamente num objetivo final, o de desvendar o mist\u00e9rio, mas nas pr\u00f3prias conjecturas, nas formula\u00e7\u00f5es poss\u00edveis&#8221;. Ser\u00e1 que o mais saboroso de um mist\u00e9rio \u00e9 procurar por ele?<\/strong><\/p>\n<p>Encontrar a solu\u00e7\u00e3o de um mist\u00e9rio tamb\u00e9m \u00e9 prazeroso, sem d\u00favida, mas eu quis chamar a aten\u00e7\u00e3o, ao citar o Piglia, para o fato de que algumas pessoas tendem a confundir literatura com pedagogia ou, na pior das hip\u00f3teses, com livros de auto-ajuda, quando na verdade literatura \u00e9 outra coisa. N\u00e3o h\u00e1 uma &#8220;mensagem&#8221; a ser buscada no texto, pelo menos no bom texto liter\u00e1rio. Portanto, o cr\u00edtico que busca encontrar a verdade, a interpreta\u00e7\u00e3o absoluta, \u00fanica, est\u00e1 equivocado desde o princ\u00edpio e sua leitura ser\u00e1 o que eu chamaria de leitura de conte\u00fado, que \u00e9 aquela que sai destrinchando o texto \u00e0 procura do que &#8220;o autor quis dizer&#8221;, do recado ide\u00f3logico, do ensinamento ou seja l\u00e1 o que for. N\u00e3o h\u00e1 forma mais eficaz de assassinar uma fic\u00e7\u00e3o do que obrig\u00e1-la a dizer a verdade. \u00c9 uma esp\u00e9cie de tortura, n\u00e3o \u00e9? Cabe ao cr\u00edtico, a meu ver, ficar atento ao processo, ao modo como o autor vai construindo pouco a pouco a sua frase, montando seu castelo (firme e ao mesmo tempo sempre prestes a desmoronar), ao jeito como arruma na hist\u00f3ria o que vem antes, no meio e depois, \u00e0 precis\u00e3o (ou n\u00e3o) com que vai desenhando seus personagens, etc. Nesse sentido, o cr\u00edtico \u00e9 o detetive de Piglia, ou algu\u00e9m que faz jus \u00e0s palavras de Borges, em um de seus evangelhos ap\u00f3crifos: &#8220;Busca pelo agrado de buscar, n\u00e3o pelo de encontrar&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 mais misterioso na literatura para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>A capacidade que tem de nos pegar e n\u00e3o largar mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua bela colet\u00e2nea de resenhas, No pa\u00eds do presente: fic\u00e7\u00e3o brasileira no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI (Editora Rocco), rec\u00e9m-lan\u00e7ada, Fl\u00e1vio Carneiro faz um precioso apanhado e d\u00e1 dicas de leitura. Na apresenta\u00e7\u00e3o de No pa\u00eds do presente, voc\u00ea revela que a sua id\u00e9ia foi elaborar um mapeamento da prosa ficcional brasileira a partir de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","class_list":["post-558","entrevista","type-entrevista","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/558\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}