{"id":551,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=entrevista-com-flavio-carneiro-3"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"entrevista-com-flavio-carneiro-3","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=entrevista-com-flavio-carneiro-3","title":{"rendered":"Entrevista com Fl\u00e1vio Carneiro"},"content":{"rendered":"<p><em>Ficcionista, ensa\u00edsta e professor de literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o goiano Fl\u00e1vio Carneiro \u00e9 figura referencial no que diz respeito ao estudo da literatura contempor\u00e2nea. Sua contribui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 freq\u00fcente nos suplementos liter\u00e1rios de diversos jornais e em revistas especializadas.<\/em><\/p>\n<p><em>Em &#8220;No pa\u00eds do presente&#8221;, Fl\u00e1vio elege e explica o termo &#8220;p\u00f3s-ut\u00f3pico&#8221; (usado originalmente por Haroldo de Campos) para designar a literatura produzida a partir da d\u00e9cada de 80 &#8211; per\u00edodo carente do &#8220;princ\u00edpio-esperan\u00e7a&#8221;, isto \u00e9, de um posicionamento contr\u00e1rio a certa postura ideol\u00f3gica. Ao contr\u00e1rio dos modernistas, que se opunham \u00e0 aristocracia e \u00e0 &#8220;mesmice burguesa&#8221;, ou da gera\u00e7\u00e3o seguinte, que combatia o atraso pol\u00edtico, a opress\u00e3o e as desigualdades sociais, \u00e0 literatura p\u00f3s-ut\u00f3pica cabe a revis\u00e3o cr\u00edtica da utopia, bem como uma postura multifacetada que se at\u00e9m ao presente em vez de tecer objetivos que almejem \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do futuro. <\/em><\/p>\n<p><em>No plano ficcional, Fl\u00e1vio desenvolveu a modalidade policial e o romance fant\u00e1stico, al\u00e9m de ter publicado cinco livros infanto-juvenis e escrito dois roteiros cinematogr\u00e1ficos.<\/em><\/p>\n<p><em>Saiba mais sobre o autor em www.flaviocarneiro.com<\/em><\/p>\n<p><strong>Como se deu a forma\u00e7\u00e3o do Fl\u00e1vio escritor?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que o in\u00edcio de tudo teve a ver com meus pais, mas de uma forma curiosa. Eles nasceram em cidades pequenas, no interior de Goi\u00e1s, e s\u00f3 se mudaram para Goi\u00e2nia j\u00e1 adultos. N\u00e3o tinham muito gosto por livros, nossa casa nunca teve uma biblioteca ou mesmo uma estante repleta de livros. Mas meu pai era, ainda \u00e9, um grande contador de hist\u00f3rias, desses que a gente quase n\u00e3o encontra mais. E minha m\u00e3e chegou a ser professora prim\u00e1ria por um bom tempo. Eles n\u00e3o liam muito mas me incentivavam bastante. Meu pai dava aula de datilografia e datilografou meus primeiros ensaios de hist\u00f3rias (a professora contava a hist\u00f3ria na aula e a reescrevia em casa, inventando um pouco), que depois minha m\u00e3e e eu transform\u00e1vamos em pequenos livrinhos costurados a m\u00e3o.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o veio vindo com a pr\u00e1tica mesmo, tanto da leitura quanto da escrita. No in\u00edcio escrevia poemas, como todo adolescente que se preze. Acho que por volta dos 15, 16 anos escrevi meu primeiro conto, falando de um rio que passava perto da minha casa, em Goi\u00e2nia.<\/p>\n<p>Me mudei pro Rio de Janeiro com 18 anos, fiz Letras (na UERJ mesmo, onde hoje dou aula), dei sorte de cair numa turma que adorava ler e escrever. Ali\u00e1s, uma coisa importante na minha forma\u00e7\u00e3o como escritor: gostava muito de escrever cartas. Para minha fam\u00edlia, namorada, amigos l\u00e1 em Goi\u00e2nia mas tamb\u00e9m para amigos do Rio mesmo. Era uma pr\u00e1tica que n\u00e3o se tem mais, e que acho muito interessante pra quem est\u00e1 come\u00e7ando. Escrevi inclusive uma novela juvenil, recentemente, na forma de cartas, publicada em 2006 pela SM: <em>Prezado Ronaldo<\/em>, contando a hist\u00f3ria de um garoto de 12 anos, centroavante do infantil do S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, que vive dividido entre os sonhos de ser jogador profissional e escritor, e escreve uma s\u00e9rie de cartas para seu \u00eddolo, o Ronaldo Fen\u00f4meno.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea atua na literatura em v\u00e1rias frentes: prosa de fic\u00e7\u00e3o, literatura infanto-juvenil e cr\u00edtica liter\u00e1ria. Tem predile\u00e7\u00e3o por algum desses g\u00eaneros?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Quer dizer, das tr\u00eas formas a que menos me d\u00e1 prazer \u00e9 a cr\u00edtica. Acho que \u00e9 uma escrita cercada demais de realidade. Por isso, ali\u00e1s, quando escrevo cr\u00edtica, procuro dar ao texto um tom mais liter\u00e1rio, quem sabe pra compensar. Cheguei a radicalizar um pouco isso num artigo chamado &#8220;Sonhos de Quixote&#8221;, que est\u00e1 no meu site.<\/p>\n<p><strong>Cinco de seus livros s\u00e3o destinados ao p\u00fablico infanto-juvenil. H\u00e1 a\u00ed uma preocupa\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o do leitor? Que acha do fen\u00f4meno editorial Harry Potter?<\/strong><\/p>\n<p>Quem escreve sempre est\u00e1 pensando num leitor, claro. Eu me preocupo muito sim com a forma\u00e7\u00e3o do leitor, mas essa preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente de forma mais expl\u00edcita nas minhas a\u00e7\u00f5es como professor e cr\u00edtico. Quando escrevo fic\u00e7\u00e3o, essa preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 priorit\u00e1ria. \u00c9, na verdade, uma conseq\u00fc\u00eancia. Acho que o livro est\u00e1 pronto quando olho pra ele e digo: acho que eu gostaria de ler isso se fosse um leitor. Quer dizer, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o sim com a forma\u00e7\u00e3o do leitor, mas de modo diferente, enviesado.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho uma opini\u00e3o muito clara sobre o fen\u00f4meno Harry Potter n\u00e3o. Tenho mais clareza sobre o fen\u00f4meno Paulo Coelho. Escrevi um artigo que iria se chamar justamente &#8220;Por que n\u00e3o gosto de Paulo Coelho&#8221;. Depois mudei o t\u00edtulo para &#8220;A fic\u00e7\u00e3o falsa&#8221; &#8211; tamb\u00e9m est\u00e1 no site (desculpe ficar citando a mim mesmo mas acho mais pr\u00e1tico indicar logo os escritos do que ficar tentando resumir as id\u00e9ias aqui). Mas se voc\u00ea for ler o artigo, lembre-se depois da leitura de que n\u00e3o acho Harry Potter fic\u00e7\u00e3o falsa n\u00e3o, apenas n\u00e3o pensei muito sobre o assunto (e gostei do primeiro livro da s\u00e9rie, o \u00fanico que li).<\/p>\n<p><strong>Em seu \u00faltimo romance &#8220;A confiss\u00e3o&#8221;, voc\u00ea desenvolve a tem\u00e1tica do fant\u00e1stico, pouco explorada em nossa literatura. H\u00e1 algum autor que lhe sirva como refer\u00eancia nesse g\u00eanero espec\u00edfico? <\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns. Os cl\u00e1ssicos: Maupassant, Borges, Cort\u00e1zar, Calvino. Dos brasileiros li muito Murilo Rubi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 outros autores que considere influ\u00eancias ou refer\u00eancias, de maneira geral?<\/strong><\/p>\n<p>Certamente, mas \u00e9 muito dif\u00edcil definir isso de influ\u00eancias, todas as leituras de algum modo te influenciam. Posso dizer que minhas predile\u00e7\u00f5es, al\u00e9m dos citados, s\u00e3o Machado, Poe, Rubem Fonseca, Paul Auster, entre outros.<\/p>\n<p><strong>Durante o processo criativo, voc\u00ea elabora pesquisas, resumos, ou vai criando \u00e0 medida que escreve?<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisa depende da hist\u00f3ria. Pesquisei muito sobre geografia para escrever <em>A dist\u00e2ncia das coisas<\/em>, meu pr\u00f3ximo romance (catalogado como juvenil), que vai ser lan\u00e7ado agora em fevereiro. O narrador, um garoto de 14 anos, \u00e9 apaixonado por geografia e tive que correr atr\u00e1s da sua paix\u00e3o para poder cri\u00e1-lo melhor.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m de lecionar, voc\u00ea vem produzindo vasto material cr\u00edtico acerca de literatura, especialmente contempor\u00e2nea. H\u00e1 influ\u00eancia da atividade te\u00f3rica sobre a cria\u00e7\u00e3o ficcional? Como se d\u00e1 a articula\u00e7\u00e3o dessas pr\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje \u00e9 tranq\u00fcilo. Na \u00e9poca da faculdade foi um pouco complicado, porque eu n\u00e3o estava ainda formado enquanto escritor (ainda n\u00e3o estou, claro, mas na naquela \u00e9poca era bem menos experiente), ficava um pouco inseguro (bem mais do que hoje) e nessas horas voc\u00ea lidar com muita informa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica pode confundir um pouco. Agora n\u00e3o, sobretudo porque busco, tanto na cr\u00edtica quanto na fic\u00e7\u00e3o, investir bastante na fantasia, na imagina\u00e7\u00e3o, e isso de certa forma diminui a dist\u00e2ncia que possa haver entre uma atividade e outra.<\/p>\n<p><strong>Em &#8220;O pa\u00eds do presente: fic\u00e7\u00e3o brasileira no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI&#8221;, voc\u00ea compila resenhas publicadas de 2000 a 2004. Quais foram os crit\u00e9rios dessa sele\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Fica um pouco dif\u00edcil reproduzir aqui os crit\u00e9rios, isso est\u00e1 mais explicado l\u00e1 no livro. Selecionei as obras que pudessem ser as mais significativas das diversas tend\u00eancias atuais e, ao mesmo tempo, tivessem alguma qualidade, mesmo com algumas ressalvas. Procurei tamb\u00e9m mesclar autores novos e experientes, fugindo da id\u00e9ia de fazer apenas um panorama dos novos autores, porque achei mais produtivo falar de livros e autores que est\u00e3o publicando agora, independente de terem come\u00e7ado h\u00e1 pouco tempo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>In\u00fameros escritores v\u00eam recorrendo aos blogs e aos sites e revistas especializados para publicar seus trabalhos. Na sua opini\u00e3o, qual a contribui\u00e7\u00e3o da internet na cena liter\u00e1ria contempor\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n<p>Toda linguagem nova, se for forte &#8211; como \u00e9 a internet &#8211; influencia de algum modo a vida cultural e, por extens\u00e3o, a literatura. Acredito que os <em>blogs<\/em> instauram sobretudo um novo modo de se escrever di\u00e1rios. O di\u00e1rio agora \u00e9 p\u00fablico e em grande parte liter\u00e1rio ou de divulga\u00e7\u00e3o cultural. Todo di\u00e1rio \u00e9 fingido, como dizia Barthes, mas o do <em>blog<\/em> \u00e9 de um fingimento diferente, porque feito j\u00e1 para ser p\u00fablico, publicado. Acho interessante isso.<\/p>\n<p>E acredito que a internet instaura &#8211; ou de certa forma espelha &#8211; um novo modo de se lidar com a passagem de tempo. Como dizia o D\u00e9cio Pignatari, j\u00e1 nos anos 70, estamos vivendo uma mudan\u00e7a na velocidade da mudan\u00e7a. A partir dessa nova configura\u00e7\u00e3o da passagem do tempo, sem d\u00favida \u00e9 preciso repensar, por exemplo, os conceitos de c\u00e2none, tradi\u00e7\u00e3o, ruptura etc.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea escreveu dois roteiros para o cinema. Como foi essa experi\u00eancia e como a pr\u00e1tica com a prosa de fic\u00e7\u00e3o auxiliou nesta nova atividade?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre quis escrever para cinema. Dei aula na Comunica\u00e7\u00e3o da PUC (Rio) durante sete anos e sempre falei das rela\u00e7\u00f5es entre cinema e literatura. A primeira oportunidade veio com o diretor Adolfo Lachtermacher, que queria fazer um curta sobre o que se passou na noite seguinte \u00e0 final da copa de 50, entre Brasil e Uruguai. Ele vinha pesquisando o tema havia anos, mas ainda n\u00e3o tinha a hist\u00f3ria, e me convidou pra escrever. O t\u00edtulo \u00e9 <em>A noite do capit\u00e3o<\/em> e o filme, j\u00e1 rodado, est\u00e1 na fase de finaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois veio o convite do diretor Andr\u00e9 Sturm, de S\u00e3o Paulo, feito primeiramente \u00e0 minha esposa na \u00e9poca, a escritora Adriana Lisboa, e depois estendido a mim tamb\u00e9m. Eu e Adriana escrevemos juntos o roteiro do longa <em>Bodas de papel<\/em> e foi uma experi\u00eancia muito rica. Por ser uma escrita em parceria com ela, que tem um estilo bem diferente do meu, e por ser para cinema.<\/p>\n<p>Por sermos dois escritores, tivemos a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pegar pesado demais no liter\u00e1rio, para o roteiro n\u00e3o parecer um romance e sim o mapa, o guia de um filmesim. Ao mesmo tempo, quer\u00edamos que o filme tivesse algo de liter\u00e1rio, n\u00e3o muito mas que lembrasse tamb\u00e9m literatura. Da\u00ed que o fio condutor da trama tem a ver a hist\u00f3ria dos tr\u00eas pr\u00edncipes de Serendip, de onde o Horace Walpole cunhou a palavra inglesa &#8220;serendipty&#8221;. Ou seja, h\u00e1 uma base liter\u00e1ria guiando o roteiro. H\u00e1 tamb\u00e9m certo lirismo.<\/p>\n<p>Quem escreve para cinema pensa imagens. Essa foi a novidade pra mim, em termos pr\u00e1ticos (a teoria j\u00e1 conhecia como professor), saber que a palavra viria acompanhada de som e imagem e que, portanto, j\u00e1 n\u00e3o era a mesma palavra posta no papel.<\/p>\n<p><strong>Quais os pr\u00f3ximos projetos?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, h\u00e1 aquelas atividades de sempre, de todo ano: a oficina do conto, na Esta\u00e7\u00e3o das Letras, as aulas na gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da UERJ, as palestras, participa\u00e7\u00e3o em encontros liter\u00e1rios, as colabora\u00e7\u00f5es em jornais etc.<\/p>\n<p>Agora, para 2008 aguardo o lan\u00e7amento do <em>A dist\u00e2ncia das coisas<\/em> e dos dois filmes (o longa estr\u00e9ia em mar\u00e7o). Tamb\u00e9m pretendo terminar de escrever um novo romance, que completar\u00e1 a trilogia que j\u00e1 conta com <em>O campeonato<\/em> e <em>A confiss\u00e3o<\/em>. Talvez consiga termin\u00e1-lo at\u00e9 o final do ano.<\/p>\n<p>E pretendo tamb\u00e9m reunir em livro as cr\u00f4nicas sobre futebol que venho escrevendo pro Rascunho, de Curitiba, mas isso pra 2009, quando devo relan\u00e7ar tamb\u00e9m meu primeiro livro de contos, <em>Da matriz ao beco e depois<\/em>, publicado em 1994 pela Rocco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ficcionista, ensa\u00edsta e professor de literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o goiano Fl\u00e1vio Carneiro \u00e9 figura referencial no que diz respeito ao estudo da literatura contempor\u00e2nea. Sua contribui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 freq\u00fcente nos suplementos liter\u00e1rios de diversos jornais e em revistas especializadas. 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