{"id":548,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=entrevista-com-flavio-carneiro-2"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"entrevista-com-flavio-carneiro-2","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=entrevista-com-flavio-carneiro-2","title":{"rendered":"Entrevista com Fl\u00e1vio Carneiro"},"content":{"rendered":"<p><em>H\u00e1 quase 30 anos morando no Rio de Janeiro, o goianiense Fl\u00e1vio Carneiro j\u00e1 n\u00e3o se acostuma facilmente com a capital goiana. O tempo seco difere da umidade de Teres\u00f3polis, cidade carioca em que vive. Fl\u00e1vio, hoje cr\u00edtico liter\u00e1rio, p\u00f3s-doutor, professor universit\u00e1rio e escritor consagrado, saiu de Goi\u00e2nia aos 18 anos mais para viver novas experi\u00eancias do que para fazer o curso de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde hoje \u00e9 professor. <\/em><\/p>\n<p><em>Em entrevista ao suplemento Escola, o escritor relembra o primeiro incentivo vindo do pai e da m\u00e3e com a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e a encaderna\u00e7\u00e3o amadora de pequenas hist\u00f3rias reescritas por ele. Independente da faculdade, ele confessa que foi a vontade de ser escritor que o levou ao Rio de Janeiro. O jovem goiano se transformou em um escritor que habita diversas \u00e1reas da literatura. Ele j\u00e1 escreveu para crian\u00e7as, jovens e adultos e \u00e9 autor de novelas, romances e contos. Para o pr\u00f3ximo ano, revela que pretende lan\u00e7ar um livro de cr\u00f4nicas sobre o futebol.<\/em><\/p>\n<p><strong>Quando morava ainda em Goi\u00e2nia, voc\u00ea j\u00e1 escrevia?<\/strong><\/p>\n<p>Eu escrevia, mas n\u00e3o tinha publicado nada. Eu tinha ganhado um pr\u00eamio no Gremi de Inhumas, [Fl\u00e1vio foi selecionado em primeiro lugar na categoria Literatura (Contos) do 16\u00ba Festival das Artes Gremi]. Era um concurso importante no final dos anos 70. Muitos autores que hoje est\u00e3o publicando aqui foram premiados por ele. Foi uma motiva\u00e7\u00e3o. Eu j\u00e1 tinha alguma coisa pronta, mas n\u00e3o tinha nada publicado. Fui fazer faculdade de Letras na UERJ. Em 86 publiquei meu primeiro livro, chamado &#8220;Acorda, Rita&#8221;. Fiz o mestrado, o doutorado. Fui seguindo a carreira acad\u00eamica paralelamente \u00e0 carreira de escritor. Comecei a publicar tamb\u00e9m para adultos, livro de contos, dois romances, livro de ensaios.<\/p>\n<p><strong>Em Goi\u00e1s, voc\u00ea teve incentivo para ser escritor? <\/strong><\/p>\n<p>Eu tive muito incentivo por parte dos meus pais, mas era um incentivo indireto, o que \u00e9 uma coisa curiosa. Eles n\u00e3o tinham livros em casa. Meus pais nasceram em fazenda, vieram para Goi\u00e2nia j\u00e1 com 20 e poucos anos. Minha m\u00e3e era professora prim\u00e1ria e meu pai sempre foi um grande contador de hist\u00f3rias. At\u00e9 hoje ele \u00e9. Ent\u00e3o, mesmo n\u00e3o tendo livros por perto, eu sempre tive apoio. Eu gostava de ouvir as hist\u00f3rias do meu pai e de reescrev\u00ea-las, assim como as hist\u00f3rias que eu ouvia na escola. Na minha cabe\u00e7a, eu achava que eu era o autor [risos]. Meu pai e minha m\u00e3e incentivavam muito isso. O contato com os livros foi um pouco por minha conta. Eu me lembro que meu pai era professor de datilografia, ele era muito orgulhoso porque tinha um m\u00e9todo para &#8220;bater&#8221; m\u00e1quina r\u00e1pido. Ele datilografou as minhas primeiras hist\u00f3rias. N\u00f3s faz\u00edamos uma encaderna\u00e7\u00e3o como se fosse um livrinho. Minha m\u00e3e ajudava. Na \u00e9poca, eu n\u00e3o pensava que fosse um tipo de incentivo. Era s\u00f3 uma brincadeira, mas passado muito tempo eu acho que veio parte da\u00ed. Sem d\u00favida, nas escolas que estudei, eu tive sorte de ter bons professores de reda\u00e7\u00e3o. No Rio, eu tamb\u00e9m tive muita sorte de pegar um grupo de colegas na Faculdade de Letras que gostavam muito de escrever e at\u00e9 hoje ainda lidam com isso.<\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7a de Estado foi imprescind\u00edvel para a carreira de escritor? <\/strong><\/p>\n<p>Muita gente nunca saiu da pr\u00f3pria cidade e criou uma carreira liter\u00e1ria, e outros sa\u00edram e voltaram. Tem o poeta Manuel de Barros, que mora em Mato Grosso, em uma cidade pequena. Tem tamb\u00e9m o Raduan Nassar, grande nome que passou praticamente a vida inteira no s\u00edtio, agora nem escreve mais. Hoje em dia, inclusive, \u00e9 comum o escritor nem sair tanto, pela internet mant\u00e9m o contato. \u00c9 dif\u00edcil saber se isso foi realmente fundamental. Eu acho, sem d\u00favida, que conheci uma experi\u00eancia de vida que talvez eu n\u00e3o tivesse, porque eu fui [para o Rio] sem conhecer ningu\u00e9m, como aventura. Por isso eu passei no vestibular de uma escola p\u00fablica, para n\u00e3o ter gasto. Fui morar na casa do estudante, tamb\u00e9m n\u00e3o paguei moradia. Fui com a cara e a coragem mesmo. Em uma \u00e9poca em que o Rio ainda n\u00e3o era a cidade violenta que \u00e9 hoje. Fiquei muito encantado com tudo e guardo at\u00e9 hoje lembran\u00e7as muito boas dessa \u00e9poca. Ent\u00e3o, da parte de forma\u00e7\u00e3o do ser humano, no meu caso, foi muito importante. Tamb\u00e9m pelo contato com outras formas de cultura que talvez eu n\u00e3o tivesse aqui. Um contato maior com escritores, com cinema, com teatro. \u00c9 um centro cultural maior.<\/p>\n<p><strong>Quanto aos escritores, quais s\u00e3o as suas refer\u00eancias? <\/strong><\/p>\n<p>Cada vez que essa pergunta \u00e9 feita, as refer\u00eancias mudam, porque \u00e0s vezes voc\u00ea est\u00e1 lendo um autor e fala dele. Ent\u00e3o a resposta \u00e9 variada. Autores que sempre me lembro deles&#8230; Machado de Assis \u00e9 uma grande refer\u00eancia para o p\u00fablico brasileiro, tanto como romancista quanto como ensa\u00edsta. Na \u00e1rea de fic\u00e7\u00e3o tem o Graciliano Ramos, outro autor que eu considero um mestre na economia de linguagem. Dos mais recentes, o Rubem Fonseca, com quem eu dialoguei em um romance policial meu publicado em 2000. Estrangeiros, eu gosto muito do argentino Jorge Lu\u00eds Borges, outro argentino que \u00e9 o [J\u00falio] Cort\u00e1zar e o italiano \u00cdtalo Calvino. Todos eles t\u00eam um apego muito forte ao imagin\u00e1rio. Talvez o Graciliano Ramos seja o que mais se prendeu ao retrato de um determinado lugar, mas esses outros t\u00eam em comum isso: a fantasia, o ato de criar lugares imagin\u00e1rios. O que me interessa muito como leitor \u00e9 esse aspecto da aventura que a narrativa traz. Eu nunca fiquei envolvido com documento, com aspecto social, com a miss\u00e3o da literatura. Para mim, isso nunca foi uma coisa priorit\u00e1ria. Sempre achei que esses s\u00e3o trabalhos que o cidad\u00e3o faz. O escritor deve estar antenado com outros tipos, com a sua mat\u00e9ria-prima que \u00e9 a linguagem, a fantasia. Hoje eu tenho contato com muitos autores que s\u00e3o da minha gera\u00e7\u00e3o. Luiz Ruffato, Adriana Lisboa, com quem eu fui casado, Adriana Lunardi&#8230; S\u00e3o muitos autores. Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, que eu conhe\u00e7o pessoalmente e tamb\u00e9m admiro muito.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 o processo de produ\u00e7\u00e3o no momento em que voc\u00ea escreve um livro? <\/strong><\/p>\n<p>Eu tenho uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande em n\u00e3o passar nenhuma mensagem, n\u00e3o ocupar o lugar do leitor. Existe o espa\u00e7o do autor, que \u00e9 uma viv\u00eancia muito solit\u00e1ria, ele est\u00e1 cercado de fantasmas, autores que leu e com quem conviveu. Mas ele, materialmente, est\u00e1 sozinho. Depois que o livro \u00e9 publicado, que ele vai para a rua, o livro \u00e9 do leitor. Se voc\u00ea quer continuar sendo pai do livro o tempo inteiro, voc\u00ea come\u00e7a a colocar no livro o modo como voc\u00ea quer ser lido. Isso eu acho errado. Voc\u00ea tem de se desvencilhar do livro e deixar espa\u00e7o para que o leitor o complemente. \u00c9 minha preocupa\u00e7\u00e3o, quando eu sinto que eu estou dando certa interpreta\u00e7\u00e3o, que aquilo pode ser lido como mensagem, eu dou um jeito de desfazer e abrir portas para a imagina\u00e7\u00e3o do leitor.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea passeia por v\u00e1rias \u00e1reas da literatura. Quando come\u00e7a a escrever, voc\u00ea j\u00e1 sabe qual tipo de texto ser\u00e1 produzido? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c0s vezes a id\u00e9ia vem de um fato do dia-a-dia, eu vi na rua alguma coisa ou lembrei de um epis\u00f3dio qualquer. A hist\u00f3ria j\u00e1 vem com uma cara para crian\u00e7a ou para adulto. Eu imaginei o homem que seq\u00fcestra uma mulher, ele a prende numa cadeira e vai contar uma hist\u00f3ria. Para mim, \u00e9 dif\u00edcil pensar nisso para crian\u00e7as. Em uma outra, h\u00e1 uma cidade imagin\u00e1ria e uma menina de 12 anos que vai buscar o significado dessa cidade. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria pede um formato.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem alguma preocupa\u00e7\u00e3o quando escreve para crian\u00e7as? <\/strong><\/p>\n<p>Qualquer preocupa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea tenha que n\u00e3o seja com a palavra, com a mat\u00e9ria-prima, com o fato de criar um mundo imagin\u00e1rio, vai lhe levar para o campo da Pedagogia, que \u00e9 o que eu n\u00e3o quero. Tenho de me preocupar o tempo inteiro em n\u00e3o ser o cr\u00edtico, em ser o ficcionista. A \u00fanica maneira que eu vejo de fazer isso \u00e9 abrir as portas todas para o leitor e n\u00e3o querer ensinar nada. Vou lan\u00e7ar um livro aqui em Goi\u00e2nia, em outubro, chamado &#8220;A Dist\u00e2ncia das Coisas&#8221;, que \u00e9 a hist\u00f3ria de um garoto de 14 anos. \u00c9 um livro juvenil, mas que fala da morte de pai e m\u00e3e, de mentira. Uma s\u00e9rie de temas que seriam pesados. Eu procurei n\u00e3o tirar nenhuma conclus\u00e3o disso, n\u00e3o falar &#8220;voc\u00ea deve gostar da sua m\u00e3e, do seu pai&#8221;&#8230; E eu espero que o professor respeite esse car\u00e1ter n\u00e3o-pedag\u00f3gico quando o livro for para a sala de aula.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quase 30 anos morando no Rio de Janeiro, o goianiense Fl\u00e1vio Carneiro j\u00e1 n\u00e3o se acostuma facilmente com a capital goiana. O tempo seco difere da umidade de Teres\u00f3polis, cidade carioca em que vive. Fl\u00e1vio, hoje cr\u00edtico liter\u00e1rio, p\u00f3s-doutor, professor universit\u00e1rio e escritor consagrado, saiu de Goi\u00e2nia aos 18 anos mais para viver novas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","class_list":["post-548","entrevista","type-entrevista","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/548\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}