{"id":545,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=tentar-o-gol-de-cabeca"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"tentar-o-gol-de-cabeca","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=tentar-o-gol-de-cabeca","title":{"rendered":"Tentar o gol de cabe\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>Neste bate-papo de arquibancada, suscitado pelo seu livro Passe de letra \u2013 que ter\u00e1 noite de aut\u00f3grafos quarta-feira, a partir das 19h, na livraria Pref\u00e1cio, em Botafogo \u2013 Fl\u00e1vio Carneiro fala de quest\u00f5es ligadas \u00e0 literatura e ao futebol.<\/em><\/p>\n<p><strong>Por que n\u00e3o h\u00e1 no Brasil um grande romance sobre futebol?<\/strong><\/p>\n<p>Porque nenhum autor quis se aventurar a fazer algo de maior f\u00f4lego. Normalmente um romance d\u00e1 mais trabalho, exige mais tempo e envolvimento do escritor. Ent\u00e3o um autor pode de repente dizer: vou escrever um conto sobre futebol. E ent\u00e3o escreve, como fizeram v\u00e1rios, como o Rubem Fonseca e o S\u00e9rgio Sant&#8217;Anna. Mas da\u00ed a dizer: vou escrever um romance sobre futebol \u00e9 outra coisa. Veja, ali\u00e1s, que nenhum escritor (dos que eu me lembre, pelo menos) escreveu um livro inteiro de contos sobre futebol, mas apenas contos esparsos.<\/p>\n<p><strong>A narrativa curta se presta melhor para falar de futebol? <\/strong><\/p>\n<p>Nunca pensei nisso, mas pode ser. Talvez o conto se preste mais a captar o instante, o recorte, o detalhe que faz do futebol algo apaixonante. Num romance isso talvez se perca, a n\u00e3o ser que se trate de um romance que conte v\u00e1rias hist\u00f3rias dentro de uma hist\u00f3ria maior. Quem sabe \u00e9 por isso que tenhamos mais contos do que romances falando de futebol. Mas em literatura, como em futebol, nada \u00e9 definitivo. Da\u00ed a possibilidade de surgirem n\u00e3o apenas grandes contos como tamb\u00e9m grandes romances e poemas falando do tema.<\/p>\n<p><strong>Fora da fic\u00e7\u00e3o, t\u00eam surgido no Brasil livros de ensaios, biografias, cole\u00e7\u00f5es sobre clubes&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente n\u00e3o tenho acompanhado os lan\u00e7amentos nessa \u00e1rea. Quer dizer, vejo as not\u00edcias, leio as resenhas, mas n\u00e3o tenho lido os livros. N\u00e3o porque n\u00e3o queira, mas porque minha vida profissional me exige o tempo todo outras leituras e essas, que seriam de puro prazer, acabam sendo adiadas. Mas ouvi falar muito bem do livro do Wisnick, Veneno rem\u00e9dio, do qual li apenas o artigo que deu origem ao livro, com o mesmo t\u00edtulo, e gostei.<\/p>\n<p><strong>Dos grandes cronistas de futebol brasileiros, quem voc\u00ea destacaria e por qu\u00ea? Dos atuais, algum lhe agrada? <\/strong><\/p>\n<p>Os dois da minha prefer\u00eancia s\u00e3o o Nelson Rodrigues e o Jo\u00e3o Saldanha. Ambos conseguiam algo dif\u00edcil pra quem escreve: agradar ao mesmo tempo a dois tipos de leitor. As cr\u00f4nicas do Nelson e do Saldanha agradavam ao leitor comum, que queria apenas saber o que eles pensaram desse ou daquele jogo, e tamb\u00e9m a um outro leitor, digamos, mais intelectualizado, que poderia tirar dessas cr\u00f4nicas um outro tipo de prazer, o de se deliciar com as tiradas geniais de Nelson \u2013 um grande frasista \u2013 ou com a fina ironia do Saldanha. Dos cronistas di\u00e1rios de jornal, conhe\u00e7o poucos, na verdade. Agora, gosto muito das cr\u00f4nicas do Verissimo tratando de futebol, acho que ele consegue a mesma fa\u00e7anha do Saldanha e do Nelson, a de escrever um texto simples, divertido, e ao mesmo tempo sofisticado do ponto de vista liter\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Do mesmo jeito que voc\u00ea perguntou no seu livro a escritores, quais as manias do Fl\u00e1vio Carneiro como torcedor? <\/strong><\/p>\n<p>Na televis\u00e3o, n\u00e3o gosto de ver jogo j\u00e1 come\u00e7ado. Gosto de me sentar na frente da televis\u00e3o uns 15 minutos antes de come\u00e7ar. Perde muito da gra\u00e7a quando chego em casa, ligo a TV e a bola j\u00e1 est\u00e1 rolando, parece que fica faltando alguma coisa. No est\u00e1dio, n\u00e3o gosto de ficar atr\u00e1s do gol. Agora, isso s\u00e3o, digamos, prefer\u00eancias est\u00e9ticas ou seja l\u00e1 como se chame. Manias mesmo acho que tenho duas. Uma \u00e9 n\u00e3o vestir nenhuma roupa que tenha preto ou branco na v\u00e9spera de jogo decisivo do Botafogo. S\u00f3 no dia eu visto. Outra \u00e9 n\u00e3o falar com ningu\u00e9m no telefone nesses momentos: antes de o jogo come\u00e7ar, durante o jogo ou no intervalo. Tem gente que acha exagero, bastaria n\u00e3o falar durante o jogo, por que n\u00e3o atender antes ou no intervalo? S\u00f3 eu sei.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea o futebol praticado no Brasil hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Olha, todo mundo diz que o futebol praticado no Brasil hoje \u00e9 feio, sem qualidade e tudo mais, que h\u00e1 jogadas bisonhas e tal. Mas vejo isso tamb\u00e9m no futebol de outros pa\u00edses. N\u00e3o acompanho muito os jogos de outros pa\u00edses, mas quando vejo confesso que n\u00e3o noto grandes diferen\u00e7as em termos de qualidade. S\u00e3o jogos mais corridos, com mais velocidade e for\u00e7a, mas continuo achando que as jogadas mais inventivas acabam surgindo por aqui mesmo, apesar de todos os problemas conhecidos, como a incompet\u00eancia dos administradores, a corrup\u00e7\u00e3o etc. Apesar disso est\u00e3o sempre surgindo jogadores que d\u00e1 gosto ver jogar, como o Maicosuel, do Botafogo, por exemplo. Ele errou aquele p\u00eanalti contra o Americano e ca\u00edram de pau em cima dele: que n\u00e3o era um jogador s\u00e9rio, que aquilo era humilhar o advers\u00e1rio, que ele era um peladeiro, coisas assim. Eu mesmo mandei ele para aquele lugar quando vi a bola bater na trave. Mas vendo depois, com calma, sem paix\u00e3o, foi uma jogada memor\u00e1vel, de constar em qualquer antologia do futebol. E o fato mesmo de n\u00e3o ter entrado, de ter quase sido gol, tornou a jogada ainda mais bonita. Duvido que ele tentasse isso na Europa, duvido que qualquer jogador tentasse bater um p\u00eanalti assim na Europa.<\/p>\n<p><strong>E a sele\u00e7\u00e3o brasileira? <\/strong><\/p>\n<p>Jogo de sele\u00e7\u00e3o \u00e9 chato de ver, sempre foi, pelo menos pra mim. \u00c9 sempre um time que n\u00e3o treina junto, n\u00e3o joga toda semana, voc\u00ea n\u00e3o se envolve com ele. Mesmo em Copa do Mundo, s\u00f3 come\u00e7a a ficar bom de ver depois daquela primeira fase. E por qu\u00ea? Porque o time j\u00e1 se conhece mais e voc\u00ea j\u00e1 se envolveu um pouco mais com ele, j\u00e1 viu alguns jogos seguidos. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 porque a sele\u00e7\u00e3o atual \u00e9 feita s\u00f3 de &#8220;estrangeiros&#8221; que \u00e9 chata de ver, faz parte da pr\u00f3pria natureza desse tipo de time. Agora, quando se escolhe um t\u00e9cnico para a sele\u00e7\u00e3o, essa sele\u00e7\u00e3o obviamente vai ter uma cara, um jeito, mesmo que seja depois de dois ou tr\u00eas anos de trabalho. E essa a\u00ed n\u00e3o me parece ter uma cara muito boa n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Qual a melhor partida de futebol que voc\u00ea viu? O maior time? O maior jogador? O gol mais bonito? <\/strong><\/p>\n<p>Um Goi\u00e1s x Santos de algum ano de que n\u00e3o me lembro. Foi pelo Campeonato Brasileiro, na sua vers\u00e3o antiga. Aconteceu na Vila Belmiro, e o Pel\u00e9 estava jogando. Eu estava torcendo pelo Goi\u00e1s, s\u00f3 mesmo por ser goiano, puro bairrismo. O Santos fez 4 a 1 e achou que o jogo estava ganho. O Goi\u00e1s jogou muito e empatou o jogo no \u00faltimo minuto, com gol de Lucinho. Final: 4 a 4. O maior time: a sele\u00e7\u00e3o brasileira de 82 (apesar do Serginho Chulapa). Quanto ao melhor jogador, cheguei a ver alguns jogos do Pel\u00e9, j\u00e1 no final da carreira, e do pessoal de 70, como o G\u00e9rson e Rivelino, que eram geniais, mas quem acompanhei mais tempo mesmo e era sem d\u00favida um craque foi o Zico. O gol mais bonito: o do Juninho, do Botafogo, contra o Americano, pela Copa do Brasil, na semana passada.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sabe cobrar escanteio? <\/strong><br \/> <span class=\"marg\">Sei. Mas prefiro estar dentro da \u00e1rea pra tentar o gol de cabe\u00e7a.<\/span> <\/p>\n<p>Sei. Mas prefiro estar dentro da \u00e1rea pra tentar o gol de cabe\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste bate-papo de arquibancada, suscitado pelo seu livro Passe de letra \u2013 que ter\u00e1 noite de aut\u00f3grafos quarta-feira, a partir das 19h, na livraria Pref\u00e1cio, em Botafogo \u2013 Fl\u00e1vio Carneiro fala de quest\u00f5es ligadas \u00e0 literatura e ao futebol. Por que n\u00e3o h\u00e1 no Brasil um grande romance sobre futebol? 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