{"id":544,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=o-leitor-fingido"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"o-leitor-fingido","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=o-leitor-fingido","title":{"rendered":"O leitor fingido"},"content":{"rendered":"<p><strong>O poeta \u00e9 um fingidor. O leitor tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Quando Fernando Pessoa, no poema j\u00e1 famoso, associa o poeta ao fingidor, est\u00e1 se referindo \u00e0 capacidade do poeta de imaginar sobre o que \u00e9 real (chega a fingir que \u00e9 dor a dor que deveras sente), quer dizer, de lidar com o artif\u00edcio (a arte) e ao mesmo tempo com a vida de cada dia. O leitor tamb\u00e9m vive nesse entrelugar, quando l\u00ea \u00e9 levado a imaginar e muitas vezes a viver de novo \u2013 sempre de um modo diferente \u2013 coisas que j\u00e1 viveu e que agora retornam, pela m\u00e1gica da literatura.<\/p>\n<p><strong>Em um dos ensaios, voc\u00ea coloca que o leitor \u00e9 um enigma. O autor tem como decifr\u00e1-lo?<\/strong><\/p>\n<p>O autor, enquanto escreve, convive com um leitor virtual, um leitor que n\u00e3o \u00e9 de carne e osso. O escritor precisa desse fantasma pra poder escrever, \u00e9 ele que o guia. Depois do livro pronto, vem o leitor real, que vai pegar o livro, vai gostar ou n\u00e3o, vai criar suas pr\u00f3prias interpreta\u00e7\u00f5es. O primeiro leitor o escritor consegue decifrar, caso contr\u00e1rio n\u00e3o conseguir\u00e1 escrever uma linha. Mas o outro, o real, esse n\u00e3o, esse \u00e9 pura inc\u00f3gnita.<\/p>\n<p><strong>Ler tamb\u00e9m \u00e9 inventar? Isso n\u00e3o provoca uma certa ciumeira no autor quando o leitor inventa algo inimagin\u00e1vel para quem escreveu?<\/strong><\/p>\n<p>Depende. Se esse algo inimagin\u00e1vel tiver a ver com a hist\u00f3ria, se for de fato uma leitura criativa e n\u00e3o um del\u00edrio do leitor, o escritor n\u00e3o tem por que sentir ci\u00fame, pelo contr\u00e1rio, deve se sentir realizado por ter conseguido despertar em algu\u00e9m o desejo de ser inventivo.<\/p>\n<p><strong>Citando Umberto Eco, voc\u00ea pontua que o s\u00e9culo passado mostrou haver uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica forte entre texto e autor. Mas n\u00e3o h\u00e1 quem ache que estabelece esse di\u00e1logo sem ter a devida compet\u00eancia para tanto? N\u00e3o h\u00e1 o &#8220;leitor&#8221; que n\u00e3o consegue &#8220;ler&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceu s\u00f3 no s\u00e9culo passado, acontece desde sempre, desde que se criou o primeiro texto e que este foi lido. Sobre a outra quest\u00e3o, \u00e9 importante sim que o leitor esteja preparado. E essa prepara\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 de natureza intelectual, embora isso tamb\u00e9m ajude bastante. O leitor precisa estar preparado para dialogar com o texto, para desconfiar dele e, sobretudo, criar junto com ele. O leitor que n\u00e3o consegue ler n\u00e3o \u00e9 apenas aquele que n\u00e3o consegue decodificar o texto mas aquele que quer tudo de m\u00e3o beijada, aquele que quer ser \u201cdoutrinado\u201d pelo texto. A\u00ed n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo.<br \/> <strong>Nas obras que voc\u00ea utiliza como exemplos h\u00e1 uma mir\u00edade de refer\u00eancias. O labir\u00edntico Jorge Luis Borges, o suspense de Edgar Allan Poe, a sensibilidade de Clarice. Como o leitor pode n\u00e3o se perder em, para continuar com o Eco, &#8220;bosques da fic\u00e7\u00e3o&#8221; t\u00e3o densos?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como se perder. Foram autores que fui lendo vida afora, em \u00e9pocas diferentes, com desejos diferentes e h\u00e1 lugar para todos, sem problemas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita na &#8220;arte de n\u00e3o ler&#8221;? At\u00e9 onde o instinto e n\u00e3o a t\u00e9cnica conta mais n\u00e3o s\u00f3 na escrita como na leitura?<\/strong><\/p>\n<p>No livro eu falo disso, da arte de n\u00e3o ler. A\u00ed eu pretendia sobretudo desmontar esse mito de que o bom leitor \u00e9 o que l\u00ea tudo. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. O bom leitor precisa saber escolher. Assim como um escritor n\u00e3o pode escrever tudo, j\u00e1 que seu of\u00edcio \u00e9 muito mais de cortar do que o de acrescentar \u2013 quem se lan\u00e7a a escrever tudo \u00e9 bem prov\u00e1vel que n\u00e3o consiga escrever nada \u2013, tamb\u00e9m o leitor deve exercitar o corte, at\u00e9 porque a vida \u00e9 curta e os livros s\u00e3o muitos.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 ler: paix\u00e3o, h\u00e1bito, pr\u00e1tica, exerc\u00edcio, voca\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso junto. E mais alguma coisa que n\u00e3o saberia definir.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia o leitor da internet, que muitas vezes n\u00e3o tem essa pr\u00e1tica fora dela? A rede ameniza ou agrava o problema do analfabetismo funcional?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um tema complexo, que n\u00e3o d\u00e1 pra analisar aqui. O que posso dizer, muito rapidamente, \u00e9 que a internet oferece ao leitor a diversidade, como nunca foi oferecido antes. Mas oferece tamb\u00e9m a mesmice, na mesma propor\u00e7\u00e3o. Cabe ao leitor, como disse, saber escolher o que ler. E essa escolha implica o risco, o perigo. Acho que o leitor que l\u00ea apenas na rede e n\u00e3o v\u00ea interesse nenhum fora dela est\u00e1 buscando n\u00e3o a diversidade mas a mesmice, quer dizer, a seguran\u00e7a de estar entre pares. A leitura n\u00e3o \u00e9 isso, \u00e9 uma aventura que pede coragem, ousadia, como a de, por exemplo, trocar um dia diante do monitor por uma tarde na biblioteca.<\/p>\n<p><strong>O escritor \u00e9 hoje muito mais confrontado pelo leitor do que antes, sobretudo em ambientes digitais. Isso \u00e9 bom ou \u00e9 ruim? \u00c9 inspirador ou intimidador?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se concordo. Houve v\u00e1rias \u00e9pocas de confronto, sobretudo quando se tratava de quest\u00f5es morais. Quantos escritores foram confrontados por leitores indignados com um personagem, uma cena que consideravam ofensivos, imorais? Hoje ele \u00e9 confrontado virtualmente mas houve \u00e9pocas em que isso era cara a cara. O confronto \u2013 ou, melhor dizendo, o encontro &#8211; n\u00e3o \u00e9 em si bom ou ruim. Pode ser maravilhoso, quando voc\u00ea encontra leitores que realmente leram seus livros e est\u00e3o querendo conversar sobre eles. E pode ser uma chatice sem tamanho se o leitor quiser falar mais dele mesmo do que de literatura.<\/p>\n<p><strong>O leitor sonha o mundo constru\u00eddo pelo autor. E o autor, ele sonha o leitor que ir\u00e1 l\u00ea-lo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, o escritor escreve movido por uma imagem de leitor. O escritor sonha seu leitor. E o leitor sonhado (ou fingido) \u00e9 a garantia de que o escritor vai conseguir chegar ao final do seu livro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poeta \u00e9 um fingidor. O leitor tamb\u00e9m? Sim. 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