{"id":543,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=as-possiveis-relacoes-entre-escrever-e-ler"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"as-possiveis-relacoes-entre-escrever-e-ler","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=as-possiveis-relacoes-entre-escrever-e-ler","title":{"rendered":"As poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es entre escrever e ler"},"content":{"rendered":"<p><strong>Voc\u00ea costuma dizer que ler, assim como escrever, \u00e9 uma arte. Como funciona isso? Existem artistas amadores, nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Ler \u00e9 uma arte sim, embora diferente da arte de escrever. O produto final do artista escritor \u00e9 o livro, \u00e9 algo concreto, material. O produto final do artista leitor \u00e9 a leitura, a interpreta\u00e7\u00e3o do texto, ou seja, algo abstrato. Em ambos os casos, tanto na escrita quanto na leitura, \u00e9 fundamental ter muita imagina\u00e7\u00e3o. E h\u00e1, claro, artistas amadores quando se fala de leitura. \u00c9 a maioria, ali\u00e1s, aquele leitor que l\u00ea por prazer. E h\u00e1 os leitores profissionais, como o professor de literatura, por exemplo, ou o cr\u00edtico liter\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Quais as poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es entre escrever e ler?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o muitas. Escrevi toda a primeira parte do livro O Leitor Fingido e tamb\u00e9m muitos fragmentos da segunda justamente como resposta a essa pergunta. Talvez o que seja mais importante na rela\u00e7\u00e3o entre escrever e ler \u00e9 que s\u00e3o duas atividades ligadas diretamente \u00e0 capacidade do homem de lidar com a diferen\u00e7a. Quem n\u00e3o aceita a diferen\u00e7a n\u00e3o pode ser nem escritor nem leitor.<\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 o leitor fingido?<\/strong><\/p>\n<p>Eu, voc\u00ea. E \u00e9 tamb\u00e9m aquele leitor que acompanha todo o processo da escrita ficcional. Quando o leitor escreve, \u00e9 guiado sempre por uma imagem de leitor, um leitor que ele, escritor, finge existir para que a hist\u00f3ria possa ser escrita para ele, para este leitor fingido, ficcionalizado.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 preciso comparar para n\u00e3o perder o sentido das coisas, para n\u00e3o esquecer como \u00e9 relativa a dist\u00e2ncia das coisas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, aqui voc\u00ea se refere ao t\u00edtulo de um dos meus romances, A dist\u00e2ncia das coisas. O narrador, Pedro, um menino de 14 anos, acredita nisso, nessa afirma\u00e7\u00e3o que na verdade ele ouviu num filme (Minha vida de cachorro, de Lasse Halsstr\u00f6m). Isso tem a ver com o que eu disse na pergunta anterior, \u00e9 preciso lidar o tempo todo com a diferen\u00e7a, quer dizer, com a ideia de que tudo pode sempre ter uma outra leitura, que o mundo \u00e9 algo sempre em movimento, como diz o Pedro. Por isso ele diz que \u00e9 preciso comparar. E eu completaria: \u00e9 preciso comparar para que a gente n\u00e3o seja tragado pela mesmice, pelo pensamento autorit\u00e1rio, que busca apagar a diferen\u00e7a, diferen\u00e7a entre as coisas, os sentimentos, as pessoas.<\/p>\n<p><strong>Como surgiu a ideia de unir literatura e futebol?<\/strong><\/p>\n<p>No livro Passe de Letra conto essa hist\u00f3ria. Dos 11 aos 18 anos joguei futebol nas divis\u00f5es de base de times de Goi\u00e2nia, onde nasci. Aos 18 recebi um convite pra jogar no profissional do Guarani, de Campinas. Precisava decidir: ou seguir carreira como jogador ou dar vaz\u00e3o a outro sonho antigo: o de ser escritor e me mudar para o Rio de Janeiro. Acabei ficando com a segunda op\u00e7\u00e3o mas o futebol me acompanhou e acompanha at\u00e9 hoje. Ent\u00e3o fiquei pensando: por que gosto tanto dessas duas coisas t\u00e3o diferentes? E descobri que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o diferentes assim. Pelo contr\u00e1rio, futebol e literatura t\u00eam muito mais afinidades do que diferen\u00e7as. H\u00e1 alguns anos atr\u00e1s, o jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, me convidou pra assinar uma coluna. Resolvi ent\u00e3o que falaria sobre esse tema: futebol e literatura. Depois reuni essas cr\u00f4nicas e publiquei em livro, com o mesmo t\u00edtulo da coluna: Passe de Letra, lan\u00e7ado em 2009.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 mais coisas entre o c\u00e9u e a pequena \u00e1rea do que sup\u00f5e a nossa v\u00e3 filosofia?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. O futebol, como a literatura, \u00e9 imprevis\u00edvel. Uma das express\u00f5es mais conhecidas dos boleiros em geral \u00e9: futebol \u00e9 uma caixinha de surpresas. Um romance tamb\u00e9m \u00e9, n\u00e3o acha? Um bom romance ningu\u00e9m sabe como vai acabar. Um jogo tamb\u00e9m \u00e9 assim. Ali\u00e1s, nisso o futebol leva vantagem sobre a literatura. Um romance ruim n\u00e3o \u00e9 surpreendente, voc\u00ea sabe exatamente o que vai encontrar na pr\u00f3xima p\u00e1gina, os mesmos clich\u00eas de sempre. J\u00e1 um jogo de futebol, mesmo ruim, pode guardar uma surpresa, nem que seja para os 44 minutos do segundo tempo.<\/p>\n<p><strong>Das suas atividades, qual a que te d\u00e1 mais prazer?<\/strong><\/p>\n<p>Escrever fic\u00e7\u00e3o. E \u00e9 tamb\u00e9m a que me d\u00e1 mais trabalho. Escrever \u00e9 muito bom quando tudo est\u00e1 dando certo e muito angustiante quando a hist\u00f3ria empaca, n\u00e3o anda, ou quando voc\u00ea j\u00e1 escreveu metade de um livro e descobre que n\u00e3o era aquilo que voc\u00ea queria escrever e precisa pensar o que fazer: se tentar consertar ou se abandonar o j\u00e1 escrito e partir pra outra.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem facilidade para falar com o p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que sim. Nos encontros com leitores, como esses do \u00f3timo projeto Viagem Liter\u00e1ria, de que j\u00e1 participei duas vezes (em 2009 e agora), tenho tido sempre boas conversas com o p\u00fablico, que \u00e9 bastante variado: crian\u00e7as, adolescentes, adultos, professores, alunos e outros profissionais. Tenho participado de v\u00e1rias feiras liter\u00e1rias pa\u00eds afora e me sinto bem \u00e0 vontade com o p\u00fablico. Sou professor de literatura na universidade (UERJ) h\u00e1 mais de 20 anos e essa experi\u00eancia certamente ajuda nesses momentos. Gosto muito desse encontro com os leitores reais. Quando estou escrevendo um romance, meu contato \u00e9 sempre com um leitor imagin\u00e1rio, o leitor fingido. Depois que o livro est\u00e1 publicado, \u00e9 uma grande alegria conviver, mesmo que por uma ou duas horas, com leitores de carne e osso. Esses encontros rejuvenescem o escritor, d\u00e3o a ele mais vontade de continuar escrevendo. Pelo menos \u00e9 o que acontece comigo.<\/p>\n<p><strong>Como a literatura brasileira \u00e9 vista atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 um certo preconceito da parte do leitor comum, o leitor que n\u00e3o l\u00ea profissionalmente mas por prazer, divertimento. Esse mesmo preconceito existiu e existe ainda com o cinema brasileiro por exemplo. \u00c9 um erro, claro. Tanto o cinema quanto a literatura no Brasil est\u00e3o atravessando momentos muito bons. No caso da literatura, publiquei um livro em 2005 chamado No pa\u00eds do presente: fic\u00e7\u00e3o brasileira no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, em que comento 65 obras de fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea de boa qualidade. E esse fato, o de que se produz hoje uma boa literatura brasileira, come\u00e7a a ser reconhecido no exterior. Tem aumentado bastante o n\u00famero de obras brasileiras publicadas no exterior e n\u00e3o por acaso o Brasil foi escolhido como pa\u00eds homenageado na pr\u00f3xima feira de Frankfurt, na Alemanha, uma das mais importantes e tradicionais do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea costuma dizer que ler, assim como escrever, \u00e9 uma arte. Como funciona isso? Existem artistas amadores, nesse sentido? Ler \u00e9 uma arte sim, embora diferente da arte de escrever. O produto final do artista escritor \u00e9 o livro, \u00e9 algo concreto, material. 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