{"id":542,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=a-importancia-do-leitor"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"a-importancia-do-leitor","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=a-importancia-do-leitor","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia do leitor"},"content":{"rendered":"<p><em>De que adianta que um livro seja escrito e publicado se n\u00e3o houver leitores? A trajet\u00f3ria de uma obra s\u00f3 se completa quando ela \u00e9 lida. No entanto, h\u00e1 quem n\u00e3o se importe com os leitores. Na tentativa de corrigir essa injusti\u00e7a, o escritor e cr\u00edtico liter\u00e1rio Fl\u00e1vio Carneiro faz do leitor o protagonista de seu mais recente livro, O leitor fingido, editado pela Rocco. Goiano de nascimento e carioca por op\u00e7\u00e3o, vivendo no Rio de Janeiro desde a d\u00e9cada de 1980, o autor vem publicando de maneira sistem\u00e1tica suas obras de fic\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m as n\u00e3o-fict\u00edcias. Entre seus escritos de maior destaque est\u00e3o os romances O Campeonato e A Confiss\u00e3o, o volume de ensaios No pa\u00eds do presente: fic\u00e7\u00e3o brasileira no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI e o livro de cr\u00f4nicas Passe de letra \u2013 Futebol e Literatura, uma colet\u00e2nea de textos originalmente publicados no jornal Rascunho, de Curitiba. Na entrevista a seguir, Fl\u00e1vio Carneiro fala sobre a literatura e seus leitores.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c9 comum vermos autores estrangeiros darem destaque a algum esporte em suas obras, como o cr\u00edquete inserido no romance Terras Baixas, de Joseph O\u2019Neill, para citar um exemplo recente. Apesar do nosso pa\u00eds ter uma rela\u00e7\u00e3o muito particular com o futebol, o esporte n\u00e3o est\u00e1 muito presente em nossa fic\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, apenas um romance, O para\u00edso \u00e9 bem bacana, de Andr\u00e9 Sant\u2019Anna e uma colet\u00e2nea de contos, 22 contistas em campo, organizada por Fl\u00e1vio Moreira da Costa, da qual voc\u00ea, inclusive, participou, tiveram algum destaque na m\u00eddia. A que se deve a falta de obras focadas no tema do esporte? Seria alguma esp\u00e9cie de preconceito?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acho que seja preconceito. \u00c9 uma pergunta dif\u00edcil de responder. Acho que o futebol, o jogo em si, \u00e9 t\u00e3o apaixonante que qualquer discurso em torno dele acaba parecendo menor. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o caso da literatura. N\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m filmes sobre o tema. No m\u00e1ximo temos ensaios antropol\u00f3gicos, e bons, mas textos de fic\u00e7\u00e3o temos poucos, realmente.<\/p>\n<p><strong><strong>Voc\u00ea tem acompanhado os autores contempor\u00e2neos brasileiros? O que tem achado da produ\u00e7\u00e3o nacional?<\/strong><\/strong><\/p>\n<p>Acompanhei essa produ\u00e7\u00e3o em parte dos anos 90, quando escrevi para o Jornal do Brasil e para o Globo sobre os lan\u00e7amentos. Depois publiquei um livro, No pa\u00eds do presente: fic\u00e7\u00e3o brasileira no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI (Rocco), com resenhas de livros lan\u00e7ados entre 2000 e 2004, mas depois disso tenho me dedicado mais ao meu pr\u00f3prio trabalho como ficcionista.<\/p>\n<p><strong>Se tornou lugar-comum dizer que a literatura brasileira \u00e9 herm\u00e9tica ou dif\u00edcil. Qual sua opini\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nada disso. A melhor literatura brasileira produzida hoje n\u00e3o \u00e9 herm\u00e9tica, dif\u00edcil ou coisa assim. Claro que boa parte da m\u00eddia privilegia autores que querem aparecer por conta de uma suposta transgress\u00e3o que nada tem de novidade e apenas mimetiza obras de uma vanguarda pra l\u00e1 de ultrapassada. Mas os melhores autores brasileiros de fic\u00e7\u00e3o, os novos e os consagrados, sabem que n\u00e3o \u00e9 assim que a coisa funciona, que \u00e9 preciso ser inventivo, original, mas ao mesmo tempo ser leg\u00edvel, quer dizer, ser compreendido pelo leitor comum. J\u00e1 passou essa hist\u00f3ria de vanguarda, choque etc., o que importa \u00e9 ser original e, ao mesmo tempo, ser lido tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>O leitor n\u00e3o seria tamb\u00e9m, com o perd\u00e3o do trocadilho, um \u201cfugido\u201d? Ao menos ao que parece, o leitor foge da literatura brasileira. O que fazer para conquist\u00e1-lo de volta? <\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o dif\u00edcil e na verdade a primeira a ser colocada. Afinal, para quem escrevemos? E n\u00e3o se trata apenas de conquistar o leitor para a literatura brasileira, mas o leitor pra literatura. J\u00e1 participei de alguns projetos de promo\u00e7\u00e3o da leitura no pa\u00eds e o que o posso dizer \u00e9 que se trata de um processo complicado, longo, e que deve envolver todos os setores da sociedade. Vivemos num pa\u00eds em que ainda h\u00e1 muitos analfabetos, os de verdade e os mais ou menos. E a\u00ed como pensar em estrat\u00e9gias pra conquistar o leitor? Que leitor? N\u00e3o vejo nenhum candidato \u00e0 presid\u00eancia tocando nesse assunto. Isso \u00e9 o mais lament\u00e1vel de tudo, esse absoluto sil\u00eancio dessas pessoas que nos pedem votos sobre o que realmente importa: ter uma sociedade leitora.<\/p>\n<p><strong>Ainda sobre esse assunto, como voc\u00ea v\u00ea a quase repulsa que parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira tem pelos livros? De quem \u00e9 a culpa, se \u00e9 que existe um culpado? Dos autores, do sistema educacional, dos leitores ou de todos?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, o leitor brasileiro, de um modo geral, l\u00ea hoje uma literatura de baixa qualidade. No s\u00e9culo XIX, l\u00edamos os folhetins de baixa qualidade liter\u00e1ria publicados na Europa, sobretudo na Fran\u00e7a, e traduzidos aqui. Os best-sellers de hoje se parecem com isso, s\u00e3o de uma baixa qualidade sem d\u00favida preocupante. Vivemos num pa\u00eds, j\u00e1 disse algu\u00e9m, em que ler um livro significa n\u00e3o ler outro. Quer dizer, \u00e9 preciso escolher, n\u00e3o d\u00e1 pra ficar com tudo. E temos escolhido mal, muito mal.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 comum que vejamos autores estrangeiros engajados politicamente ou defendendo alguma causa tanto em entrevistas e artigos quanto em seus livros de fic\u00e7\u00e3o. Para citar tr\u00eas exemplos conhecidos, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez e George Orwell escreveram dezenas \u2013 talvez centenas \u2013 de artigos pol\u00edticos e Mario Vargas Llosa chegou a ser cadidato \u00e0 presid\u00eancia do Peru. O que voc\u00ea acha dessa mistura entre arte, mais especificamente a literatura, e pol\u00edtica? O engajamento \u00e9 necess\u00e1rio ou \u00e9 melhor separar as coisas? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, o engajamento n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, a n\u00e3o ser no campo mesmo das rela\u00e7\u00f5es sociais. Como o escritor \u00e9 um cidad\u00e3o, como qualquer outro, seu engajamento pol\u00edtico pode ser importante, claro, mas apenas enquanto cidad\u00e3o. Para ser escritor o que vale \u00e9 escrever, e pronto. Veja o caso de autores como Borges, por exemplo, que politicamente era considerado um reacion\u00e1rio, pelo menos do ponto de vista da esquerda argentina, e como escritor foi genial. Outro caso \u00e9 o de Nelson Rodrigues, no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Para finalizar, uma pergunta leve: o que voc\u00ea est\u00e1 lendo no momento?<\/strong><\/p>\n<p>Fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, para ajudar no novo romance.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia adiantar alguma coisa sobre o livro? <\/strong><\/p>\n<p>Este romance \u00e9 o \u00faltimo de uma trilogia do Rio de Janeiro. A ideia foi escrever tr\u00eas romances que tivessem o Rio como cen\u00e1rio e que dialogassem com g\u00eaneros populares de romance. O primeiro foi um romance policial, O Campeonato. O segundo, A Confiss\u00e3o, \u00e9 um romance que pode ser classificado como fant\u00e1stico, g\u00eanero muito pouco cultivado entre n\u00f3s. E este agora, A Ilha, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A hist\u00f3ria se passa num futuro indeterminado e o Rio \u00e9 uma pequena ilha, isolada do resto do mundo. O romance \u00e9 narrado por um monge franciscano, que escreve a hist\u00f3ria sentado na biblioteca de um mosteiro. Pretendo terminar o livro at\u00e9 o final do ano, para publica\u00e7\u00e3o em 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De que adianta que um livro seja escrito e publicado se n\u00e3o houver leitores? A trajet\u00f3ria de uma obra s\u00f3 se completa quando ela \u00e9 lida. No entanto, h\u00e1 quem n\u00e3o se importe com os leitores. 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