{"id":541,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=quem-escreve-deve-ter-paciencia"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"quem-escreve-deve-ter-paciencia","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=quem-escreve-deve-ter-paciencia","title":{"rendered":"Quem escreve deve ter paci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fl\u00e1vio, o que levou voc\u00ea a escrever o <em>Leitor fingido? <\/em> Voc\u00ea acha que a figura do \u201cleitor\u201d continua em segundo plano nas reflex\u00f5es liter\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre achei que o of\u00edcio de escritor est\u00e1 diretamente relacionado a uma experi\u00eancia de leitura. N\u00e3o acredito em escritor que n\u00e3o l\u00ea. Nesse livro, quis falar um pouco disso, dessa dupla face da literatura: o escritor e o leitor.<\/p>\n<p><strong>No seu <em> Leitor fingido<\/em>, voc\u00ea faz uma interessante mistura entre cr\u00edtica liter\u00e1ria, fic\u00e7\u00e3o e escrita autobiogr\u00e1fica. Como e por que voc\u00ea chegou a esta forma de escrita para o livro?<\/strong><\/p>\n<p>Demorei muitos anos trabalhando no projeto do livro porque n\u00e3o sabia ainda como escrev\u00ea\u2014lo. At\u00e9 que optei por uma escrita h\u00edbrida, que misturasse fic\u00e7\u00e3o, ensaio e depoimento. A op\u00e7\u00e3o veio naturalmente e depois pensei comigo que tudo o que escrevi at\u00e9 hoje \u00e9 assim mesmo, essa escrita misturada. Nos meus ensaios, procuro usar t\u00e9cnicas narrativas, buscando prender a aten\u00e7\u00e3o do leitor, inclusive com estrat\u00e9gias de cria\u00e7\u00e3o de certo suspense, como o de sugerir certa interpreta\u00e7\u00e3o de determinado romance e ir revelando essa interpreta\u00e7\u00e3o aos poucos, deixando a surpresa para o final. Ricardo Piglia dizia isso, que a cr\u00edtica \u00e9 uma variante do g\u00eanero policial. Concordo com ele.<br \/> E em tudo o que escrevo est\u00e1, claro, minha pr\u00f3pria vida. O escritor escreve sempre sobre sua vida. N\u00e3o de forma expl\u00edcita, direta, mas pelo disfarce, pelo fingimento ficcional.<br \/> E a leitura tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de autobiografia. Se voc\u00ea quiser contar a algu\u00e9m partes da sua vida, mostre para esse algu\u00e9m os livros que voc\u00ea leu e as anota\u00e7\u00f5es que fez neles. Est\u00e1 tudo l\u00e1. Ent\u00e3o, se queria escrever um livro sobre leitura e escrita, achei que o melhor seria investir nessa proposta: a de um livro que fosse uma hist\u00f3ria de vida, da vida de um leitor.<\/p>\n<p><strong>Na p\u00e1gina 61, voc\u00ea come\u00e7a um racioc\u00ednio sobre aquilo que te leva a n\u00e3o gostar de um livro, contudo n\u00e3o chega a aprofundar este aspecto. Voc\u00ea poderia falar mais sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>O leitor deve, sim, fazer a distin\u00e7\u00e3o entre livros bons e ruins. O que n\u00e3o se pode \u00e9 ditar regras: esse livro todo mundo tem que achar \u00f3timo e esse todos devem jogar no lixo. Isso \u00e9 autoritarismo e j\u00e1 sabemos quais s\u00e3o os resultados, n\u00e3o \u00e9? Agora, um leitor deve saber escolher. Deve ter seus crit\u00e9rios de escolha.<br \/> No meu caso, n\u00e3o gosto de livro que subestime minha intelig\u00eancia. Se percebo que um romance est\u00e1 querendo me doutrinar, me dar uma li\u00e7\u00e3o de moral \u2013 a famosa \u201cmensagem\u201d \u2013, n\u00e3o continuo a ler.<br \/> Assim como o escritor deve saber quando precisa abandonar o que est\u00e1 escrevendo e partir para outra hist\u00f3ria, o leitor tamb\u00e9m deve saber quando abandonar um livro que est\u00e1 lendo. O que \u00e9 muito dif\u00edcil, sem d\u00favida. Tamb\u00e9m n\u00e3o gosto de livros que n\u00e3o me deixam imaginar, que explicam demais, que me tiram o prazer (detetivesco) da descoberta.<\/p>\n<p><strong> Desde muito tempo, a literatura tem como um dos seus temas preferidos discutir a si pr\u00f3pria. Penso, contudo, que na fic\u00e7\u00e3o moderna e contempor\u00e2nea, isto se acentuou. Quais as explica\u00e7\u00f5es para isso e que autores, cuja elemento da metafic\u00e7\u00e3o seja importante, voc\u00ea destaca? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica explica\u00e7\u00e3o para isso. O que penso, no caso brasileiro, \u00e9 que desde o s\u00e9culo XIX e durante quase todo o s\u00e9culo XX, a fic\u00e7\u00e3o brasileira quis se firmar como uma literatura nacional, brasileira. Isso foi importante mas custou aos escritores certa camisa-de-for\u00e7a: quem n\u00e3o escrevesse sobre o Brasil, sobre nossas terras, nossa cultura, era deixado \u00e0 margem pela cr\u00edtica e mesmo pelos leitores, na sua maioria. Este seria um dos motivos para a pouca proje\u00e7\u00e3o de autores brasileiros que escreveram literatura fant\u00e1stica, falando de lugares imagin\u00e1rios, com seres imagin\u00e1rios etc., como \u00e9 o caso do Murilo Rubi\u00e3o.<br \/>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, devido talvez a todo um processo de globaliza\u00e7\u00e3o da cultura, um pouco do peso de ter que escrever uma fic\u00e7\u00e3o sobre o Brasil tenha diminu\u00eddo, com os escritores se sentindo um pouco mais livres, com novas op\u00e7\u00f5es, inclusive do mesmo fant\u00e1stico, que hoje aparece como uma forte vertente da nossa fic\u00e7\u00e3o. E podendo optar tamb\u00e9m pela fic\u00e7\u00e3o voltada para si mesma, num jogo de metalinguagem. Nessa linha, eu destacaria autores como S\u00e9rgio Sant\u2019Anna, Silviano Santiago, Chico Buarque, Adriana Lunardi. Citar nomes \u00e9 sempre temer\u00e1rio, esses s\u00e3o os que me v\u00eam \u00e0 lembran\u00e7a agora mas h\u00e1 outros, sem d\u00favida.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua leitura de fic\u00e7\u00e3o brasileira hoje? \u00c9 poss\u00edvel tra\u00e7ar vertentes e caracter\u00edsticas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>O que te d\u00e1 mais prazer: praticar a cr\u00edtica liter\u00e1ria na imprensa e na internet, ou dentro da universidade? Voc\u00ea concorda com a leitura que muitos fazem de uma \u201ccrise\u201d da cr\u00edtica nestes dois lugares de atua\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Para falar a verdade, a cr\u00edtica que fa\u00e7o na imprensa, na internet ou na universidade segue o mesmo padr\u00e3o: seriedade na abordagem, com sustenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e de hist\u00f3ria liter\u00e1ria, e clareza de linguagem. E muito de imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso o que busco sempre. Pode ser que n\u00e3o tenha conseguido, s\u00f3 o leitor pode julgar, mas \u00e9 o que penso ser o melhor para mim, enquanto algu\u00e9m que tamb\u00e9m escreve sobre literatura.<br \/> N\u00e3o acho que haja uma crise da cr\u00edtica. Acho que as pessoas ainda est\u00e3o procurando ler uma forma de cr\u00edtica que n\u00e3o cabe mais, a do grande mestre, que diz o que se deve e o que n\u00e3o se deve ler. Quem procura esse t\u00edpico de cr\u00edtica vai se frustrar, como algu\u00e9m que procure o grande romance, o autor genial a servir de modelo. N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para isso no mundo em que vivemos.<br \/> Acredito que h\u00e1 cr\u00edticos ruins hoje, despreparados, mas tamb\u00e9m h\u00e1 cr\u00edticos muito bons, com uma nova vis\u00e3o do que seja a cr\u00edtica. Em todos os per\u00edodos de nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria houve a conviv\u00eancia de cr\u00edticos bons e ruins. Cabe ao leitor escolher o que ler, tamb\u00e9m em termos de cr\u00edtica liter\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 verdade que voc\u00ea foi jogador de futebol quando adolescente? Literatura e futebol combinam?<\/strong><\/p>\n<p>Dos onze aos dezoito anos joguei futebol, digamos, a s\u00e9rio. Disputei todas as categorias de base da minha \u00e9poca e fui campe\u00e3o estadual algumas vezes. Morava em Goi\u00e2nia e cheguei a jogar temporadas no antigo Est\u00e1dio Ol\u00edmpico e depois no moderno Serra Dourada. Aos dezoito anos, recebi um convite para me profissionalizar, pelo Guarani de Campinas, que havia sido campe\u00e3o brasileiro dois anos antes, em 1978. Mas acabei optando por me mudar para o Rio e seguir outro sonho, o de ser escritor.<br \/> H\u00e1 muitas afinidades entre literatura e futebol. A principal, eu acho, \u00e9 que em ambos o que manda \u00e9 o imponder\u00e1vel, a surpresa. Ningu\u00e9m sabe como um bom romance vai acabar, o mist\u00e9rio est\u00e1 em cada p\u00e1gina. Quanto ao futebol, h\u00e1 uma frase bastante conhecida e que define bem um dos motivos da paix\u00e3o por esse esporte: futebol \u00e9 uma caixinha de surpresas. E h\u00e1 jogadores que se parecem com personagens. H\u00e1 os l\u00edricos, como Garrincha, os \u00e9picos, feito o Pel\u00e9, os c\u00f4micos, como Dad\u00e1 Maravilha.<br \/> Futebol e literatura combinam muito. Falo disso no livro <em>Passe de Letra: literatura &amp; futebol<\/em>. \u00c9 uma reuni\u00e3o das cr\u00f4nicas que escrevi durante dois anos para o jornal de literatura Rascunho, de Curitiba.<\/p>\n<p><strong>Seus romances <em>O campeonato<\/em> e <em>A confiss\u00e3o<\/em> partem de tramas do romance policial. Como a literatura brasileira atual trata o tema \u201ccrime\u201d? <\/strong><\/p>\n<p>Nem toda fic\u00e7\u00e3o que tenha o crime como tema pode ser entendida como policial. Para ser um romance policial, \u00e9 preciso que haja um crime, um detetive, uma investiga\u00e7\u00e3o, ou, se n\u00e3o houver, que haja esses \u201cespa\u00e7os\u201d \u2013 \u00e0s vezes o \u201cespa\u00e7o\u201d do detetive \u00e9 preenchido pelo pr\u00f3prio leitor, por exemplo. Mas o crime pode ser tratado de outra forma, como mote para um romance de cr\u00edtica social, ou de depoimento ficcional de algu\u00e9m que mora numa favela ou que lida com o tr\u00e1fico noutro ambiente urbano.<br \/> Na literatura brasileira atual, essas vertentes convivem. A que mais me agrada \u00e9 a do policial. Vejo o romance policial como um formato privilegiado dentre os modos de se escrever fic\u00e7\u00e3o, aquele em que \u00e9 poss\u00edvel mesclar entretenimento e sofistica\u00e7\u00e3o, jogo intelectual e suspense.<br \/> Nos romances que voc\u00ea citou, minha preocupa\u00e7\u00e3o foi, como sempre, a de contar bem uma hist\u00f3ria, a de fazer com que o leitor quisesse seguir adiante, sem abandonar o livro. Quer dizer, procurei e procuro escrever aquilo que me agradaria enquanto leitor. Gosto de romances assim, que me prendem \u00e0 leitura, e que ao mesmo tempo me incluem no processo, me deixando espa\u00e7o para o imagin\u00e1rio. Foi isso o que pretendi fazer nesses romances, buscando uma hist\u00f3ria atraente e procurando deixar espa\u00e7o para que o leitor tamb\u00e9m pudesse participar do jogo, pensando e imaginando por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 algum tempo, entrevistei um editor brasileiro que criticava o fato do Estado brasileiro ser o maior comprador de livros do mercado editorial. Sabemos que um dos fil\u00f5es desse mercado \u00e9 a literatura infantil e juvenil. Enquanto escritor que tamb\u00e9m escreve para crian\u00e7as e jovens, como voc\u00ea analisa a atua\u00e7\u00e3o do Estado nesse setor?<\/strong><br \/> <span class=\"marg\">Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complexa. O ideal seria que o livro infantil e juvenil tivesse seu lugar n\u00e3o apenas nas escolas mas tamb\u00e9m no cotidiano do leitor, que algu\u00e9m entrasse numa livraria e encontrasse n\u00e3o apenas poesia e romance para adultos mas tamb\u00e9m romance e poesia para crian\u00e7as e jovens. Desde que comecei a escrever livros infantis e juvenis, tive claro pra mim que n\u00e3o se pode fazer distin\u00e7\u00e3o de valor entre esse g\u00eanero e o outro, digamos s\u00f3 para adultos. Acredito que toda obra para crian\u00e7as deve agradar tamb\u00e9m ao adulto, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para a sua qualidade.<br \/> Infelizmente n\u00e3o \u00e9 assim que as coisas funcionam. Literatura infantil e juvenil ainda \u00e9 vista como uma forma sedutora de passar ensinamentos, de passar valores. Acho isso um grande, um grav\u00edssimo erro. Literatura n\u00e3o \u00e9 pedagogia. Aprendemos quando lemos um bom romance, mas um romance n\u00e3o deve querer ensinar nada. Se aprendemos \u00e9 porque o romance em si, com a hist\u00f3ria que nos contou, nos fez um pouco melhores do que \u00e9ramos antes da leitura.<br \/> O que acontece \u00e9 que, por pensar nessa literatura como mero suplemento did\u00e1tico, tanto o governo quanto a sociedade em geral decretam que lugar de livro para crian\u00e7as e jovens \u00e9 na escola, n\u00e3o nas livrarias e depois na casa do leitor. Um desastre isso.<\/span><br \/> <span class=\"marg\"><strong>Na sua oficina durante o A letra e a voz \u2013 Festival recifense de literatura, voc\u00ea falou um pouco sobre o tema \u201cvida liter\u00e1ria\u201d. A literatura, enquanto carreira, j\u00e1 \u00e9 algo vi\u00e1vel? Quais os caminhos para um escritor se profissionalizar?<\/strong><br \/> <span class=\"marg\">Viver de literatura no Brasil \u00e9 vi\u00e1vel sim. O dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel, \u00e9 viver de direitos autorais. O que o escritor ganha com a venda dos seus livros \u00e9 irris\u00f3rio, apenas 10% do valor do livro vai para o escritor. Num pa\u00eds que l\u00ea pouco e compra poucos livros, n\u00e3o d\u00e1 para viver disso.<br \/> Por isso a grande maioria dos escritores no Brasil tem outras profiss\u00f5es al\u00e9m da de escritor. \u00c9 professor na universidade, ou escreve para jornais e revistas, d\u00e1 palestras, cursos, oficinas.<br \/> Para um escritor se profissionalizar, em primeiro lugar \u00e9 preciso que escreva. Tem muita gente pensando primeiro na carreira, na exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e coisas do tipo. Est\u00e1 errado. Primeiro o escritor tem que escrever, tem que lutar com as palavras todo dia, como diria Drummond. N\u00e3o digo que o escritor n\u00e3o deva pensar em se profissionalizar. Se achar que \u00e9 importante ser um escritor profissional, deve sim buscar ser um profissional. Agora, para isso ele deve levar muito a s\u00e9rio o que faz, n\u00e3o achar que pode escrever uma coisinha aqui, outra ali, deve ler muito, deve se aprimorar, escrever, retocar, escrever, retocar, sem pressa. Isso \u00e9 importante: quem escreve deve ter paci\u00eancia, muita paci\u00eancia.<\/span><br \/> <span class=\"marg\"><strong>Voc\u00ea poderia falar um pouco do seu pr\u00f3ximo livro?<\/strong><br \/> <span class=\"marg\">\u00c9 um romance, o \u00faltimo do que chamei de Trilogia do Rio de Janeiro. Quis escrever 3 romances que tivessem o Rio como cen\u00e1rio e que de algum modo dialogassem com g\u00eaneros considerados menores, de puro entretenimento, normalmente rejeitados pela cr\u00edtica. O primeiro foi um policial, <em>O Campeonato<\/em>. O segundo um romance que se poderia chamar de literatura fant\u00e1stica, <em>A Confiss\u00e3o<\/em>. E o de agora, <em>A Ilha,<\/em> \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o cen\u00e1rio \u00e9 a cidade do Rio de Janeiro, num futuro distante. Estou terminando e ser\u00e1 lan\u00e7ado ano que vem.<\/span><\/p>\n<p><\/span><\/span><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complexa. O ideal seria que o livro infantil e juvenil tivesse seu lugar n\u00e3o apenas nas escolas mas tamb\u00e9m no cotidiano do leitor, que algu\u00e9m entrasse numa livraria e encontrasse n\u00e3o apenas poesia e romance para adultos mas tamb\u00e9m romance e poesia para crian\u00e7as e jovens. Desde que comecei a escrever livros infantis e juvenis, tive claro pra mim que n\u00e3o se pode fazer distin\u00e7\u00e3o de valor entre esse g\u00eanero e o outro, digamos s\u00f3 para adultos. Acredito que toda obra para crian\u00e7as deve agradar tamb\u00e9m ao adulto, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para a sua qualidade.<br \/> Infelizmente n\u00e3o \u00e9 assim que as coisas funcionam. Literatura infantil e juvenil ainda \u00e9 vista como uma forma sedutora de passar ensinamentos, de passar valores. Acho isso um grande, um grav\u00edssimo erro. Literatura n\u00e3o \u00e9 pedagogia. Aprendemos quando lemos um bom romance, mas um romance n\u00e3o deve querer ensinar nada. Se aprendemos \u00e9 porque o romance em si, com a hist\u00f3ria que nos contou, nos fez um pouco melhores do que \u00e9ramos antes da leitura.<br \/> O que acontece \u00e9 que, por pensar nessa literatura como mero suplemento did\u00e1tico, tanto o governo quanto a sociedade em geral decretam que lugar de livro para crian\u00e7as e jovens \u00e9 na escola, n\u00e3o nas livrarias e depois na casa do leitor. Um desastre isso.<\/p>\n<p><strong>Na sua oficina durante o A letra e a voz \u2013 Festival recifense de literatura, voc\u00ea falou um pouco sobre o tema \u201cvida liter\u00e1ria\u201d. A literatura, enquanto carreira, j\u00e1 \u00e9 algo vi\u00e1vel? Quais os caminhos para um escritor se profissionalizar?<\/strong><br \/> <span class=\"marg\">Viver de literatura no Brasil \u00e9 vi\u00e1vel sim. O dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel, \u00e9 viver de direitos autorais. O que o escritor ganha com a venda dos seus livros \u00e9 irris\u00f3rio, apenas 10% do valor do livro vai para o escritor. Num pa\u00eds que l\u00ea pouco e compra poucos livros, n\u00e3o d\u00e1 para viver disso.<br \/> Por isso a grande maioria dos escritores no Brasil tem outras profiss\u00f5es al\u00e9m da de escritor. \u00c9 professor na universidade, ou escreve para jornais e revistas, d\u00e1 palestras, cursos, oficinas.<br \/> Para um escritor se profissionalizar, em primeiro lugar \u00e9 preciso que escreva. Tem muita gente pensando primeiro na carreira, na exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e coisas do tipo. Est\u00e1 errado. Primeiro o escritor tem que escrever, tem que lutar com as palavras todo dia, como diria Drummond. N\u00e3o digo que o escritor n\u00e3o deva pensar em se profissionalizar. Se achar que \u00e9 importante ser um escritor profissional, deve sim buscar ser um profissional. Agora, para isso ele deve levar muito a s\u00e9rio o que faz, n\u00e3o achar que pode escrever uma coisinha aqui, outra ali, deve ler muito, deve se aprimorar, escrever, retocar, escrever, retocar, sem pressa. Isso \u00e9 importante: quem escreve deve ter paci\u00eancia, muita paci\u00eancia.<\/span><br \/> <span class=\"marg\"><strong>Voc\u00ea poderia falar um pouco do seu pr\u00f3ximo livro?<\/strong><br \/> <span class=\"marg\">\u00c9 um romance, o \u00faltimo do que chamei de Trilogia do Rio de Janeiro. Quis escrever 3 romances que tivessem o Rio como cen\u00e1rio e que de algum modo dialogassem com g\u00eaneros considerados menores, de puro entretenimento, normalmente rejeitados pela cr\u00edtica. O primeiro foi um policial, <em>O Campeonato<\/em>. O segundo um romance que se poderia chamar de literatura fant\u00e1stica, <em>A Confiss\u00e3o<\/em>. E o de agora, <em>A Ilha,<\/em> \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o cen\u00e1rio \u00e9 a cidade do Rio de Janeiro, num futuro distante. Estou terminando e ser\u00e1 lan\u00e7ado ano que vem.<\/span><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p>Viver de literatura no Brasil \u00e9 vi\u00e1vel sim. O dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel, \u00e9 viver de direitos autorais. O que o escritor ganha com a venda dos seus livros \u00e9 irris\u00f3rio, apenas 10% do valor do livro vai para o escritor. Num pa\u00eds que l\u00ea pouco e compra poucos livros, n\u00e3o d\u00e1 para viver disso.<br \/> Por isso a grande maioria dos escritores no Brasil tem outras profiss\u00f5es al\u00e9m da de escritor. \u00c9 professor na universidade, ou escreve para jornais e revistas, d\u00e1 palestras, cursos, oficinas.<br \/> Para um escritor se profissionalizar, em primeiro lugar \u00e9 preciso que escreva. Tem muita gente pensando primeiro na carreira, na exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e coisas do tipo. Est\u00e1 errado. Primeiro o escritor tem que escrever, tem que lutar com as palavras todo dia, como diria Drummond. N\u00e3o digo que o escritor n\u00e3o deva pensar em se profissionalizar. Se achar que \u00e9 importante ser um escritor profissional, deve sim buscar ser um profissional. Agora, para isso ele deve levar muito a s\u00e9rio o que faz, n\u00e3o achar que pode escrever uma coisinha aqui, outra ali, deve ler muito, deve se aprimorar, escrever, retocar, escrever, retocar, sem pressa. Isso \u00e9 importante: quem escreve deve ter paci\u00eancia, muita paci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia falar um pouco do seu pr\u00f3ximo livro?<\/strong><br \/> <span class=\"marg\">\u00c9 um romance, o \u00faltimo do que chamei de Trilogia do Rio de Janeiro. Quis escrever 3 romances que tivessem o Rio como cen\u00e1rio e que de algum modo dialogassem com g\u00eaneros considerados menores, de puro entretenimento, normalmente rejeitados pela cr\u00edtica. O primeiro foi um policial, <em>O Campeonato<\/em>. O segundo um romance que se poderia chamar de literatura fant\u00e1stica, <em>A Confiss\u00e3o<\/em>. E o de agora, <em>A Ilha,<\/em> \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o cen\u00e1rio \u00e9 a cidade do Rio de Janeiro, num futuro distante. Estou terminando e ser\u00e1 lan\u00e7ado ano que vem.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00c9 um romance, o \u00faltimo do que chamei de Trilogia do Rio de Janeiro. Quis escrever 3 romances que tivessem o Rio como cen\u00e1rio e que de algum modo dialogassem com g\u00eaneros considerados menores, de puro entretenimento, normalmente rejeitados pela cr\u00edtica. O primeiro foi um policial, <em>O Campeonato<\/em>. O segundo um romance que se poderia chamar de literatura fant\u00e1stica, <em>A Confiss\u00e3o<\/em>. E o de agora, <em>A Ilha,<\/em> \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o cen\u00e1rio \u00e9 a cidade do Rio de Janeiro, num futuro distante. Estou terminando e ser\u00e1 lan\u00e7ado ano que vem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl\u00e1vio, o que levou voc\u00ea a escrever o Leitor fingido? Voc\u00ea acha que a figura do \u201cleitor\u201d continua em segundo plano nas reflex\u00f5es liter\u00e1rias? Sempre achei que o of\u00edcio de escritor est\u00e1 diretamente relacionado a uma experi\u00eancia de leitura. N\u00e3o acredito em escritor que n\u00e3o l\u00ea. 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