{"id":537,"date":"2026-09-22T10:27:03","date_gmt":"2026-09-22T10:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=devagar-divagando"},"modified":"2026-09-22T10:27:03","modified_gmt":"2026-09-22T10:27:03","slug":"devagar-divagando","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?entrevista=devagar-divagando","title":{"rendered":"Devagar &#038; Divagando"},"content":{"rendered":"<p><strong>1 &#8211; Fl\u00e1vio, em seu trabalho de cria\u00e7\u00e3o, a ideia surge r\u00e1pida como a espontaneidade de uma crian\u00e7a, devagar como os passos de uma tartaruga, ou \u00e9 preciso ruminar muito tempo antes de p\u00f4r as palavras ou os desenhos no papel?<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de uma hist\u00f3ria costuma surgir do nada &#8211; ou a gente pensa que \u00e9 do nada -, de repente, quando menos se espera. Mas \u00e9 s\u00f3 a ideia, a semente da hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria mesmo, inteira, demora a tomar corpo. E coloc\u00e1-la no papel \u00e9 um processo mais lento ainda, que requer muitas p\u00e1ginas jogadas fora. \u00c9 um trabalho meticuloso, de reescrever mais do que escrever, de cortar e acrescentar, at\u00e9 que o texto final me agrade enquanto leitor. S\u00f3 mando para a editora a hist\u00f3ria que eu, como leitor, gostaria de ler. Por isso o teste final \u00e9 esse, o de responder &#8220;sim&#8221; \u00e0 pergunta que fa\u00e7o, com meu pr\u00f3prio texto nas m\u00e3os: eu gostaria de ler isso, se fosse de outro autor?<\/p>\n<p><strong>2 &#8211; No livro, o sonho e a imagina\u00e7\u00e3o t\u00eam papel de destaque nos personagens da tartaruga, da vaca e da menina. Para voc\u00ea, qual a import\u00e2ncia de sonhar, em especial quando crian\u00e7a? <\/strong><\/p>\n<p>Sonhar \u00e9 fundamental, para a crian\u00e7a e para o adulto. O sonho \u00e9 que faz voc\u00ea se sentir n\u00e3o apenas vivo mas com vontade de continuar vivendo. A crian\u00e7a representa o tempo inteiro, o que significa que, de algum modo, est\u00e1 sempre sonhando. Quando minha filha Maria, de 3 anos, me diz que sua boneca est\u00e1 muito cansada mas s\u00f3 dorme quando ela, Maria, lhe conta uma hist\u00f3ria, quando faz isso est\u00e1 sonhando, de um jeito muito particular, s\u00f3 seu. E minha fun\u00e7\u00e3o, como pai, \u00e9 n\u00e3o deixar que ela deixe de sonhar assim quando for crescendo e o mundo lhe parecer hostil em rela\u00e7\u00e3o aos sonhadores.<\/p>\n<p><strong>3 &#8211; A hist\u00f3ria guarda um segredo sobre o qu\u00ea de diferente da tartaruga Devagar e da vaca Divagando. Com as crian\u00e7as cada vez mais espertas, como manter o mist\u00e9rio e fugir do \u00f3bvio? <\/strong><\/p>\n<p>Acho que o autor nunca deve dizer tudo, deve sempre deixar espa\u00e7os vazios, que a imagina\u00e7\u00e3o do leitor vai preencher. E deve sempre apostar na intelig\u00eancia e na imagina\u00e7\u00e3o do leitor. Quando escrevo penso numa crian\u00e7a &#8211; e num adulto, mesmo em textos infantojuvenis penso no leitor adulto, que acharia prazeroso ler aquela hist\u00f3ria &#8211; que goste de imaginar. E o que o escritor faz \u00e9 isso, \u00e9 montar esse brinquedo chamado livro e dar de presente ao seu leitor, um brinquedo que s\u00f3 funciona quando acionado pela imagina\u00e7\u00e3o de quem quer brincar com ele. Agora, <em>como<\/em> fazer isso, como escrever esse texto-brinquedo vai depender de cada hist\u00f3ria. Cada uma pede um jeito de ser contada, cada hist\u00f3ria \u00e9 uma nova aventura da escrita, nunca \u00e9 igual \u00e0 anterior.<\/p>\n<p><strong>4 &#8211; Tendo experi\u00eancias com outros tipos de p\u00fablico &#8211; Carneiro \u00e9 escritor consolidado junto aos leitores adultos, escrever para crian\u00e7as \u00e9 mais dif\u00edcil? O que significa para voc\u00ea trabalhar com o p\u00fablico infantil? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 mais dif\u00edcil. Acho que a dificuldade \u00e9 a mesma, embora pare\u00e7a que n\u00e3o, que escrever para crian\u00e7as \u00e9 mais f\u00e1cil do que escrever para adultos. No meu caso, o prazer e a dificuldade s\u00e3o iguais. O mais dif\u00edcil \u00e9 sempre encontrar o tom do narrador. \u00c9 preciso encontrar algu\u00e9m certo para contar a hist\u00f3ria que voc\u00ea quer contar. N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, autor, que conta, voc\u00ea inventa algu\u00e9m para contar a sua hist\u00f3ria. E esse algu\u00e9m precisa ser convincente, precisa ser coerente consigo mesmo, com o seu jeito de narrar. J\u00e1 tive narradores bem diferentes entre si: um velho franciscano, um jovem louco por romances policiais, um sequestrador (que sequestra uma mulher apenas para lhe contar uma hist\u00f3ria), um menino de 14 anos que vai investigar o paradeiro da m\u00e3e, uma menina que conversa com seu despertador, at\u00e9 sereia j\u00e1 coloquei para contar uma hist\u00f3ria. E essa busca por uma voz narrativa, por algu\u00e9m que conte a hist\u00f3ria, existe tanto na fic\u00e7\u00e3o para adultos quando na infantojuvenil.<\/p>\n<p><strong>5 &#8211; O que achou do trabalho do Fl\u00e1vio Fargas, ilustrador do livro? <\/strong><\/p>\n<p>Achei sensacional o trabalho do Fargas. Conversamos muito durante todo o processo de ilustra\u00e7\u00e3o, ele me mandava esbo\u00e7os e a gente ia conversando sobre os desenhos. N\u00e3o acho que seja um texto f\u00e1cil de ilustrar porque a ambiguidade em torno da verdadeira natureza da vaca e da tartaruga s\u00f3 pode ser desfeita no final. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso que as ilustra\u00e7\u00f5es possam ser relidas de certa maneira. Quer dizer, depois que o leitor descobre quem de fato s\u00e3o Devagar e Divagando, ele pode querer rever as ilustra\u00e7\u00f5es, para descobrir se as pistas estavam ali. \u00c9 como num romance policial, n\u00e3o d\u00e1 para enganar o leitor, as pistas t\u00eam que estar ali, diante dos olhos dele, mas n\u00e3o muito evidentes, claro. O Fargas conseguiu esse efeito, as ilustra\u00e7\u00f5es mant\u00eam essa ambiguidade at\u00e9 o fim da hist\u00f3ria. Al\u00e9m de serem muito bonitas, com um tra\u00e7o muito original.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 &#8211; Fl\u00e1vio, em seu trabalho de cria\u00e7\u00e3o, a ideia surge r\u00e1pida como a espontaneidade de uma crian\u00e7a, devagar como os passos de uma tartaruga, ou \u00e9 preciso ruminar muito tempo antes de p\u00f4r as palavras ou os desenhos no papel? 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