{"id":609,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=perguntas-secretas-de-uma-menina"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"perguntas-secretas-de-uma-menina","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=perguntas-secretas-de-uma-menina","title":{"rendered":"Perguntas secretas de uma menina"},"content":{"rendered":"<p>Quando se escreve por of\u00edcio, os textos, mesmos os de singela apar\u00eancia, guardam extraordin\u00e1rias provoca\u00e7\u00f5es. \u00c9 o caso de <i>Lalande<\/i>, de Fl\u00e1vio Carneiro, que, professor de literatura e escritor j\u00e1 premiado com o livro de contos <i>Da matriz ao beco e depois <\/i> (Rocco), ronda as leituras e as cidades com diligente cuidado, a exemplo de seu mestre Calvino.<\/p>\n<p><i>Lalande<\/i>, nome de resson\u00e2ncias sugestivas, uma cidade com popula\u00e7\u00e3o disciplinada, Pra\u00e7a do Sil\u00eancio, Trocadores de Palavras, Grandes Perguntadores, visitantes misteriosos, livros secretos e crian\u00e7as sabidas, \u00e9 o cen\u00e1rio da hist\u00f3ria de Xie Kitchin, menina educada pelo irm\u00e3o mais novo, um simples Jo\u00e3o, com quem descobre que &#8221; menina n\u00e3o chora&#8221;.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se trata de uma hist\u00f3ria \u00e0s avessas, tipo vampiro que n\u00e3o gosta de sangue ou drag\u00e3o bonzinho que n\u00e3o cospe fogo. Numa terra que nasce sem nome e onde n\u00e3o h\u00e1 espelho, tudo depende de um Criticante, figura vener\u00e1vel em toda casa para avaliar qualquer coisa, de dia ou de noite. Sua opini\u00e3o ou cr\u00edtica n\u00e3o admitem r\u00e9plicas e n\u00e3o ser\u00e1 acaso que na casa da menina ele se chame Noeros da Silva.<\/p>\n<p>Ao estilo m\u00e1gico de Marco Polo, Fl\u00e1vio inventa uma \u00e1gora invertida onde o povo se re\u00fane para ficar em sil\u00eancio e responder aos Grandes Perguntadores perguntas pr\u00e9vias de respostas previstas pelo manual, exceto uma pela qual se \u00e9 ou n\u00e3o admitido na pra\u00e7a, no dia da mudan\u00e7a. O que muda? Nada e muita coisa, dependendo de quem seja. Com Xie Kitchin, muda muito por conta de sua sinceridade desabrida. Descoberta como quem tem pensamento pr\u00f3prio, a menina fica autorizada pelo mais importantes dos Perguntadores a procurar o significado de Lalande.<\/p>\n<p>Onde? Ela vai aos livros, primeiro.<\/p>\n<p>Depois parte para a vila dos Trocadores de Palavras, que moram em casas de papel e guardam palavras em caixinhas para trocar com quem venha-lhes ao encontro. Sugestivo \u00e9 que a vila fica nos limites de Lalande; com eles se guardam as mem\u00f3rias que os homens da cidade n\u00e3o querem conservar.<\/p>\n<p>Por isto, al\u00e9m de Trocadores de Palavras, s\u00e3o Contadores de Hist\u00f3rias. Xie Kitchin fica sabendo que eles come\u00e7aram como inventadores de palavras, instigados pela leitura de um livro misterioso que uma mulher esquisita deixara no meio da Pra\u00e7a e que perturbou a uns e outros de modo que uns come\u00e7aram a escrever e outros a querer queimar livros. Todos proibidos de escrever, alguns permaneceram trocando palavras at\u00e9 se fazerem Grandes Perguntadores.<\/p>\n<p>Numa artimanha l\u00fadica e intertextual de grande sagacidade, enquanto se relata uma hist\u00f3ria de Kitchin, outra se desenha na trama do discurso: Alice, trocadora de palavras, toca de coelho, casa-flor, Brilhuz, animais sagrados, quatro elementos, grande viagem,  gavetas   de   guardar  o  mar,  mulher  esquisita, Lalande e&#8230; Clarice, perto do cora\u00e7\u00e3o selvagem. As meninas, lidas em separado, se fundem aos olhos do leitor experiente que entra no jogo da escritura.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio esbo\u00e7a, na companhia do excelente Rui de Oliveira, com suas imagens orientais delicadas e sugestivas de sonho e fant\u00e1stico, uma narrativa que s\u00f3 pertence por inteiro, a jovens leitores, por momentos. Ela instiga e demanda outras leituras; concede que se entreleia um texto que s\u00f3 est\u00e1 escrito entre o real e o imagin\u00e1rio, na pura fic\u00e7\u00e3o de quem inventa o mundo pela palavra, porque \u00e9 leitor.<\/p>\n<p>Escrevendo um livro premiado com infantil, Fl\u00e1vio Carneiro reconta uma trajet\u00f3ria de leituras cuja intertextualidade excita leitores de outras viagens. Belo exerc\u00edcio de escrever para uns e outros sem fazer concess\u00f5es f\u00e1ceis e sem complicar desnecessariamente.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-609","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}