{"id":608,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=da-matriz-ao-beco-e-depois"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"da-matriz-ao-beco-e-depois","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=da-matriz-ao-beco-e-depois","title":{"rendered":"Da Matriz ao Beco e Depois"},"content":{"rendered":"<p>Um romance policial ou um livro de contos? Ou, ainda, a constru\u00e7\u00e3o &#8220;policial&#8221; da narrativa? A resposta depende do gosto do leitor: ing\u00eanuo, arguto, te\u00f3rico, obsessivo.<\/p>\n<p><i>Da matriz ao beco e depois, <\/i>de Fl\u00e1vio Carneiro, se organiza da seguinte maneira: dez contos que podem ser lidos em separado, cujas hist\u00f3rias se articulam perfeitamente, seja porque formam seja porque, n\u00e3o formando, engendram em n\u00f3s a id\u00e9ia de um todo. S\u00e3o passadas no Rio de Janeiro, entre o centro da cidade e a Pra\u00e7a da Bandeira, mais precisamente entre uma imagin\u00e1ria Rua da Matriz e o beco de mesmo nome.<\/p>\n<p>Nessa localidade liter\u00e1ria que d\u00e1 nome ao livro, moram ou trabalham quase todos os personagens dos contos: escritores, como o famoso Nelson Filho (autor da ep\u00edgrafe que abre o livro) e o an\u00f4nimo que o inventou, ou o profissional que vive de escrever hist\u00f3rias segundo o gosto do cliente e recebe uma estranha encomenda: escrever seu pr\u00f3prio epit\u00e1fio; suicidas, como D. Alice, encantoada dentro do apartamento por uma avalanche de cart\u00f5es-postais de um ex-amante abandonado, na verdade falsos cart\u00f5es, confeccionados cuidadosamente pelo porteiro do edif\u00edcio; ex\u00f3ticos pensadores, como Lib\u00e9rio, que se dedica \u00e0 pesquisa, inclassific\u00e1vel no rol das ci\u00eancias, sobre o &#8220;ponto vital&#8221; da pedra, pesquisa que o obriga a matar sua esposa, C\u00e1ssia, a qual, ali\u00e1s, costuma tranc\u00e1-lo em casa antes de sair para o trabalho; detetives, como Mandrake e Fonseca, cria\u00e7\u00f5es do escritor Nelson Filho, que assina o conto &#8220;Tardes de ver\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O livro de Fl\u00e1vio Carneiro sugere ao leitor uma esp\u00e9cie de fechamento &#8211; ao menos esta palavra se aproxima da sensa\u00e7\u00e3o que toma o leitor diante do texto &#8211; que \u00e9, na verdade, uma grande armadilha. Como quer que comecemos a recapitular os seus passos, por onde quer que involuntariamente nos insinuemos para reconstruir cada cena, no af\u00e3 de ter de todo o espet\u00e1culo uma vis\u00e3o global, a\u00ed somos vencidos duplamente. N\u00e3o conseguindo a tal panor\u00e2mica, o que sucede \u00e9 que somos, pelo menos nos instantes posteriores \u00e0 leitura, incapazes de nos distanciar do livro.<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\tAo inv\u00e9s da pretendida dist\u00e2ncia e da vis\u00e3o de conjunto, o livro s\u00f3 nos permite voltar a ele, retomando suas pegadas par\u00e1grafo a par\u00e1grafo, no esfor\u00e7o de buscar uma unidade que nos parece \u00f3bvia e que, no entanto, foge a cada investida. A este sofrimento chamamos prazer, e onde texto ri de n\u00f3s, no jogo de gato e rato, n\u00f3s o declaramos genial.<\/p>\n<p>Com tantas elucubra\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, pode parecer que o livro n\u00e3o passa de um quebra-cabe\u00e7as herm\u00e9tico e enfadonho. Muito ao contr\u00e1rio, al\u00e9m de extremamente bem-humorados, os contos s\u00e3o montados a partir de uma combina\u00e7\u00e3o de cenas comuns e cenas ins\u00f3litas &#8211; entre outras, a da jovem cantora que um belo dia aparece muda, sem voz, enquanto uma pequenina clave de sol vai se desenhando misteriosamente na palma da sua m\u00e3o, para desespero do marido, um escritor que n\u00e3o entende -, cujo resultado final \u00e9 uma narrativa envolvente, que certamente h\u00e1 de agradar tanto ao leitor comum como ao leitor culto.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-608","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}