{"id":607,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=a-inquietacao-em-vocabulos-adequados"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"a-inquietacao-em-vocabulos-adequados","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=a-inquietacao-em-vocabulos-adequados","title":{"rendered":"A inquieta\u00e7\u00e3o em voc\u00e1bulos adequados"},"content":{"rendered":"<p><i>Ente o cristal e a chama<\/i> no subt\u00edtulo o que numa primeira inst\u00e2ncia o t\u00edtulo de capa, deliberadamente ou n\u00e3o, vela aos olhos de quem se depara com o texto: o objeto de reflex\u00e3o delimitado por Carneiro  (a leitura); a estrat\u00e9gia escolhida  para  abord\u00e1-lo (o  ensaio praticado em torno a um <i>corpus<\/i> de obras ficcionais que tematizam esse objeto em sua diversidade). Mas antes de percorrer os <i>Ensaios sobre o leitor<\/i> invocados no subt\u00edtulo somos convidados a trilhar um longo pref\u00e1cio que objetiva munir-nos de uma b\u00fassola te\u00f3rica. Marcando o norte, a id\u00e9ia de um v\u00ednculo indissol\u00favel entre leitura e escrita, id\u00e9ia que Carneiro se prop\u00f5e historiar sumariamente no contexto das teorias liter\u00e1rias contempor\u00e2neas, bem  como explorar  quanto a  suas consequ\u00eancias e eventuais limites.<\/p>\n<p>O (n\u00e3o)<i>Breve passeio pelos bosques da leitura <\/i>que d\u00e1 t\u00edtulo ao pref\u00e1cio come\u00e7a destacando o privil\u00e9gio concedido durante longo tempo \u00e0 rela\u00e7\u00e3o autor\/texto em detrimento da inst\u00e2ncia receptora &#8211; tra\u00e7o comum \u00e0 estil\u00edstica, ao formalismo russo, ao <i>new criticism <\/i>e ao estruturalismo. Partindo desse diagn\u00f3stico Carneiro revisa o processo de reabilita\u00e7\u00e3o do polo receptor empreendido por Hans Robert Jauss e por Umberto Eco, duas refer\u00eancias fortes embora n\u00e3o exclusivas do trabalho. &#8220;Maquin\u00e1ria pregui\u00e7osa&#8221; que solicita a colabora\u00e7\u00e3o do destinat\u00e1rio (<i>Lector in F\u00e1bula<\/i>) o texto v\u00ea-se integrado numa rela\u00e7\u00e3o voltada, gra\u00e7as a essa mudan\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quele que o recebe. Desse ponto de vista, a associa\u00e7\u00e3o entre leitura e <i>poiesis<\/i> postulada Jauss em finais dos anos 80 representa um passo a mais no sentido de se conceber ao leitor enquanto agente co-criador da obra.<\/p>\n<p>Condi\u00e7\u00e3o <i>sine qua non <\/i> dessa mudan\u00e7a de rumo \u00e9 a defla\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de autoria, fen\u00f4meno que pode ser considerado como parte integrante de um processo mais vasto (o da &#8220;dissolu\u00e7\u00e3o do sujeito&#8221;  em benef\u00edcio das &#8220;estruturas&#8221;, teorizado por Levy Strauss, Althuser, Barthes, Derrida) e que o cr\u00edtico examina de perto com o aux\u00edlio das teses foucaultianas. O deslocamento do autor da posi\u00e7\u00e3o de <i>dono<\/i> (ilus\u00f3rio) do discurso \u00e0 de elemento e <i>fun\u00e7\u00e3o<\/i> do mesmo (fun\u00e7\u00e3o institucional e vari\u00e1vel conforme a classe de textos, a \u00e9poca e a cultura) permite aventar a hip\u00f3tese do parcial desaparecimento do autor e da emerg\u00eancia de &#8220;brancos&#8221; ou de &#8220;espa\u00e7os vazios&#8221; a serem preenchidos por outra entidade, que Carneiro sugere denominar <i>fun\u00e7\u00e3o leitor. <\/i><\/p>\n<p>Apesar das precau\u00e7\u00f5es tomadas no sentido de evitar uma mera troca de pap\u00e9is (visto que &#8220;o esfacelamento do sujeito implica tamb\u00e9m o do leitor&#8221;) Carneiro v\u00ea-se obrigado retomar, nesse ponto, a pergunta pelos limites da autonomia da fun\u00e7\u00e3o leitor e de suas interpreta\u00e7\u00f5es. Deliberadamente a express\u00e3o evoca, mais uma vez, Umberto Eco. De fato, <i>Limites da interpreta\u00e7\u00e3o e Interpreta\u00e7\u00e3o e Superinterpreta\u00e7\u00e3o <\/i>fornecem a Carneiro as categorias   id\u00f4neas para p\u00f4r freios \u00e0 inventividade potencialmente ilimitada e aberrante do leitor. \u00c9, assim, no jogo entre a <i>intentio autoris <\/i>(dif\u00edcil de apreender) e a <i>intentio lectoris<\/i> (tamb\u00e9m fugidia) que desponta essa terceira entidade chamada <i>intentio operis<\/i>, inst\u00e2ncia reguladora que propicia um jogo libre e criativo, mas regrado, entre leitor e texto.<\/p>\n<p>Ao ser referir aos <i>hypomnemata <\/i>citados por Foucault em <i>A escrita de si<\/i>, Carneiro comenta que esses cadernos de anota\u00e7\u00f5es podiam transformar-se eventualmente em &#8220;livros de vida&#8221;  e acrescenta: &#8220;N\u00e3o se tratava de simples auxiliares da mem\u00f3ria mas de um exerc\u00edcio, um ensaio cotidiano visando ao auto-conhecimento  pela observa\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o colocadas no papel, n\u00e3o como um tratado mas  como recortes, como <i>exerc\u00edcio regular de uma escrita fragmentada&#8221;. <\/i> Sem configurar um  &#8220;tratado&#8221;, o longo <i>Pref\u00e1cio <\/i> introdut\u00f3rio de <i>O cristal e a chama <\/i>visa definir com rigor conceitual instrumentos que possibilitem aproveitar melhor o passeio pela <i>escrita fragmentada <\/i> (por\u00e9m <i>regular<\/i>, sistem\u00e1tica, feita de idas e voltas, de obsessivos retornos desde de \u00e2ngulos complementares) que constitui a segunda parte do livro &#8211; n\u00e3o por acaso, intitulada <i>Caderno de leitura.<\/i> \u00c0 maneira dos <i>hypomnemata<\/i> em que os antigos constru\u00edam, aos poucos, uma &#8220;hist\u00f3ria pessoal&#8221; feita a partir da &#8220;hist\u00f3ria dos outros&#8221;, Carneiro nos prop\u00f5e, atrav\u00e9s dos trinta ensaios curtos que integram a segunda parte, um trajeto pessoal (uma mem\u00f3ria de suas leituras) montado (a montagem como procedimento \u00e9 outra refer\u00eancia constante do livro) com  uma galeria m\u00faltipla e v\u00e1ria de narrativas.<\/p>\n<p>O ponto de interse\u00e7\u00e3o de um <i>corpus<\/i> que congrega obras do s\u00e9culo XIX e do XX, das literaturas brasileira, hispano-americana, norte-americana e inglesa, \u00e9 dado pela omnipresen\u00e7a da leitura (de relatos impressos e orais, de palavras &#8220;soltas&#8221;, de imagens, de rostos, de partes do corpo, de ruas, de fragmentos de tecido, etc.) como  elemento disparador e condutor da trama, e pela omnipresen\u00e7a do(s) leitor(es) como personagem principal da mesma.<\/p>\n<p>A protagonista de <i>Felicidade clandestina<\/i>, de Clarice Lispector; Edgar Allan Poe, seus enigmas e sua tipologia de int\u00e9rpretes  (do Dupin e os policiais de <i>Os crimes da Rua Morgue <\/i> ao narrador de <i>O homem da multid\u00e3o<\/i>);  o personagem-leitor-v\u00edtima de <i>Continuidade dos parques,<\/i> de Julio Cort\u00e1zar, desenham, no cap\u00edtulo inicial dessa segunda parte, um primeiro mapa da leitura vista sucessivamente como jogo, <i>eros<\/i>, luta e disputa,  risco, sedu\u00e7\u00e3o, espera, inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como numa composi\u00e7\u00e3o musical, o mesmo tema \u00e9 retomado com varia\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as \u00e0s varia\u00e7\u00f5es que comporta a introdu\u00e7\u00e3o de um novo texto. Assim, o motivo da paix\u00e3o (er\u00f3tica e de saber) ressurge nos ensaios sobre <i>Aqueles c\u00e3es malditos de Arquelau<\/i>, de Pessoti,<i> Uns bra\u00e7os, <\/i>de Machado de Assis ou <i>A vidente, <\/i> do mesmo autor.  O olhar voltado para a decifra\u00e7\u00e3o dos signos da cidade, introduzido por meio da metr\u00f3pole londrina de Poe, \u00e9 revisitado atrav\u00e9s de <i>A arte de andar nas ruas de Rio de Janeiro, <\/i> de Fonseca, <i>Cidade de vidro, <\/i> de Auster, <i>O quieto animal da esquina, <\/i>de Noll. O narrador deste \u00faltimo romance, por sua vez, serve de contraponto aos leitores decifradores de Poe, ao leitor &#8220;modificado pela passagem do tempo&#8221;, tematizado gra\u00e7as ao conto de Cort\u00e1zar e, \u00e9 claro, ao <i>Pierre Menard <\/i>de Jorge Luis Borges. Da mesma forma, as rela\u00e7\u00f5es entre mem\u00f3ria\/\/leitura\/narrativa\/escrita s\u00e3o inquiridas em textos t\u00e3o distintos como <i>Colcha de retalhos, <\/i>de Lobato, <i>Funes o memorioso, <\/i>de Borges, <i>Farenheit 451<\/i>, de Bradbury.<\/p>\n<p>A certa altura &#8211; no fim do quinto cap\u00edtulo e no  cap\u00edtulo seis, mais precisamente nos ensaios intitulados <i>O leitor e o nome- <\/i> parece-me que \u00e9 testada, em ato, a hip\u00f3tese do v\u00ednculo indissol\u00favel entre leitura\/escrita, interpreta\u00e7\u00e3o\/inven\u00e7\u00e3o. Se, como sustenta o imagin\u00e1rio leitor da \u00faltima p\u00e1gina do livro (depois de reler o cap\u00edtulo IV de <i>Alice no pa\u00eds das maravilhas <\/i> com o intuito de decifrar o enigma da ep\u00edgrafe estampada em <i>As ru\u00ednas circulares <\/i>de Borges);  se, &#8220;Descobrir \u00e9 dar um nome&#8230; \u00c9 encontrar a palavra certa, o nome justo para dar forma \u00e0quilo que at\u00e9 ent\u00e3o era sensa\u00e7\u00e3o pura, fantasma. Descobrir \u00e9 como inventar um poema, uma hist\u00f3ria, nomear &#8230; dar um nome&#8221;, pode-se dizer que Fl\u00e1vio Carneiro <i>encontrou as palavras certas <\/i>para dar forma a suas inquieta\u00e7\u00f5es. Soube dar um nome (seu nome) a <i>Entre o cristal e a chama. <\/i><\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-607","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}