{"id":601,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=uma-boa-jogada-literaria"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"uma-boa-jogada-literaria","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=uma-boa-jogada-literaria","title":{"rendered":"Uma boa jogada liter\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>A s\u00f3bria apar\u00eancia do \u00faltimo livro de Fl\u00e1vio Carneiro, <i>O campeonato<\/i>,<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t, quase pomposo, contrasta, de sa\u00edda, com a refer\u00eancia que vem abaixo do t\u00edtulo: romance policial. Ora bolas, romance policial deve ter cara de romance policial, peso (leve) de romance policial, dimens\u00e3o (reduzida) de romance policial. Romance policial deve ser feito para poder te acompanhar, seguir na condu\u00e7\u00e3o, ficar debaixo da carteira, at\u00e9 mesmo ir ao banheiro com voc\u00ea, se urgente for.<\/p>\n<p>Antigamente, romances policiais eram escritos por uma gente meio mal encarada ou por misteriosas velhotas, todos deviam fumar muito e beber um outro tanto. Mesmo Rubem Fonseca entra na literatura urbana que incorpora a viol\u00eancia como tema e ritmo da narrativa com a aura de quem fora delegado de pol\u00edcia. Esta \u00e9 a primeira dica de que n\u00e3o \u00e9 exatamente de um romance policial que se trata, ainda que, por paradoxal que possa parecer, n\u00e3o deixe de s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse o espa\u00e7o que o detetive Pepe Carvalho foi tomando na produ\u00e7\u00e3o do ensa\u00edsta, jornalista pol\u00edtico e poeta Manuel V\u00e1zques de Mont\u00e1lban, ocupando este interessante pensador cr\u00edtico tanto quanto Fidel Castro ou o Comandante Marcos, surgiu entre n\u00f3s o j\u00e1 famoso detetive Espinosa.<\/p>\n<p>O investigador de Copacabana passou a freq\u00fcentar o tempo de escrita que o sofisticado pensador Garc\u00eda-Roza costumava dedicar, nada mais nada menos, do que \u00e0 teoria da psican\u00e1lise. Um verdadeiro lorde da universidade encanta-se pela pr\u00e1tica da literatura policial e&#8230; d\u00e1 certo.<\/p>\n<p>A esta alturas s\u00f3 nos faltava mesmo um professor de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Literatura, doce, elegante e, pasmem os que n\u00e3o o conhecem, jovem, escrever um &#8220;romance policial&#8221;. E o livro ser publicado com cara de ensaio de teoria liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 porque est\u00e1 mesmo na hora de revermos as categorias classificat\u00f3rias. Ou ainda, assumirmos que a literatura tem m\u00faltiplas, infinitas, fun\u00e7\u00f5es, entre elas a de divertir.<\/p>\n<p>O autor de <i>O campeonato<\/i> tem dois gurus: o romancista, roteirista americano p\u00f3s-moderno e auto-referente Paul Auster, e Rubem Fonseca, autor do conto &#8220;O campeonato&#8221;, publicado em <i>Feliz ano novo<\/i>.<\/p>\n<p>A breve e forte narrativa se inicia assustadoramente: &#8220;Todos n\u00f3s, animais de sangue quente, sabemos que tudo vai acabar.<\/p>\n<p>No Hotel Aldebaran se realizava o campeonato (n\u00e3o oficial) de conjun\u00e7\u00e3o carnal&#8221;, para terminar com cinismo: &#8220;O Governo oficializou novamente os campeontatos. Ningu\u00e9m mais se emociona com ele, aqui no formigueiro.&#8221;<\/p>\n<p>Desta hist\u00f3ria e de seus leitores teria sa\u00eddo a id\u00e9ia de um campeonato de sexo expl\u00edcito, envolvendo pol\u00edticos corruptos, s\u00e1dicos e voyeurs, enrascada de primeira em que vai se meter o personagem Andr\u00e9, aprendiz de detetive.<\/p>\n<p>Toda a obra \u00e9 atravessada pela literatura, do fingimento assumido de um Jorge Luis Borges \u00e0 pr\u00e1tica da metaliteratura: &#8220;Isto n\u00e3o \u00e9 um romance, Andr\u00e9, n\u00e3o d\u00e1 para escolher nome de personagem.&#8221; Do glutonismo de Montalb\u00e1n, nas refei\u00e7\u00f5es e bebidas que se repetem a cada cap\u00edtulo, \u00e0 parceria com o &#8220;Gordo&#8221;, que pode tomar aspectos de Sherlock Holmes e o caro Watson ou tornar-se mesmo a solidariedade delirante de um Sancho Pan\u00e7a a seu Quixote, sem deixar de ter tamb\u00e9m certo tom de Gordo e Magro.<\/p>\n<p>Como em Garcia-Roza, a cidade torna-se um dos principais personagens da obra e passeia-se pelo Centro tanto quanto se passeou em &#8220;A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro&#8221;, um dos melhores contos da obra de Rubem Fonseca. Como j\u00e1 se flanava ao lado de Machado de Assis ou Lima Barreto.<\/p>\n<p>Nada \u00e9 gratuito em quem, como seu personagem, \u00e9 um man\u00edaco da leitura. Por interm\u00e9dio do personagem-narrador, Fl\u00e1vio Carneiro se mostra, antes de mais nada, como o grande e privilegiado leitor que \u00e9. Este \u00e9, tamb\u00e9m, o primeiro crime da narrativa: o crime de ler obsessivamente, que custa a Andr\u00e9 seu emprego, demitido da biblioteca onde trabalhava, por ter infringido a ordem de jamais ler no servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Desse modo, a leitura de <i>O campeonato<\/i> pode ser feita na clave da cria\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna e seu curioso recurso a cita\u00e7\u00f5es, como pela aprecia\u00e7\u00e3o da ironia com que, desde Cervantes e Flaubert, os autores mais sofisticados tratam os perigos que a literatura \u00e0s vezes oferece.<\/p>\n<p>Aqui, por\u00e9m, agradaria-me chamar aten\u00e7\u00e3o para um outro aspecto da obra de Fl\u00e1vio Carneiro, menos evidente \u00e0 primeira vista, seja pela eleg\u00e2ncia do volume, seja por sua apresenta\u00e7\u00e3o como romance policial. Refere-se, neste caso, \u00e0 recente obsess\u00e3o que vem me ocupando. \u00c9 curioso como, num pa\u00eds onde existe hoje, j\u00e1 configurado, um p\u00fablico leitor infantil e, sobretudo, onde se produz uma literatura para crian\u00e7as e adolescentes de t\u00e3o extraordin\u00e1ria qualidade, seres nascidos e criados em meio a livros os abandonem de forma t\u00e3o inabal\u00e1vel quando se tornam jovens adultos.<\/p>\n<p>Mais do que quest\u00e3o de tempo ou escala de prioridades no exerc\u00edcio de suas vidas trepidantes, trata-se mesmo de uma resist\u00eancia ou, no m\u00ednimo, de desinteresse mais absoluto. \u00c9 como se, quase subitamente, a literatura n\u00e3o lhes dissesse respeito. E n\u00e3o me venham dizer que a culpa \u00e9 da internet!<\/p>\n<p>A originalidade dessa obra do erudito Fl\u00e1vio Carneiro reside justamente no aspecto de jogo que oferece ao leitor. Gostaria de falar em fun\u00e7\u00e3o l\u00fadica se n\u00e3o tivesse medo de ser mal interpretadada e as sobranceiras zeladoras da qualidade est\u00e9tica se erguessem. Trata-se de um jogo daqueles em que a dificuldade e a complexidade dos lances poss\u00edveis aumenta a cada nova etapa, a cada partida.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es v\u00e3o-se acumulando numa ordena\u00e7\u00e3o curiosa porque originada da pr\u00f3pria leitura. Diferente do racioc\u00ednio tradicional de romance de detetive, onde parece sempre haver uma intelig\u00eancia por tr\u00e1s da autoria que desafia a perspic\u00e1cia do leitor. Nesse tipo de romance policial, quando o autor \u00e9 um Dashiel Hammet ou Agatha Christie, o jogo detetivesco \u00e9 realmente um exerc\u00edcio de l\u00f3gica, misturado a um pouco de malandragem.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 sempre alguma informa\u00e7\u00e3o de que o leitor n\u00e3o disp\u00f5e ou que est\u00e1 evidente demais para ser verdade. Estes s\u00e3o os bons. Os maus s\u00e3o os que funcionam como palavras cruzadas. Servem para exercitar a mem\u00f3ria e evocam um repert\u00f3rio codific\u00e1vel. Nada contra as palavras cruzadas, recomend\u00e1veis, como o Ginko Biloba. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que interessa hoje aos jovens. Por isso tamb\u00e9m n\u00e3o n\u00e3o leitores de policiais.<\/p>\n<p>\u00c9 ainda Montalb\u00e1n quem chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que numa sociedade carregada de tens\u00f5es, de rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e crime, de dupla moral, inventar e reinventar a realidade atrav\u00e9s de uma literatura do crime n\u00e3o \u00e9, for\u00e7osamente, afastar-se do rigor liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>O jogo que Fl\u00e1vio Carneiro prop\u00f5e lida com todos estes ingredientes, como o Banco Imobili\u00e1rio lidava com dinheiro na \u00e9poca em que exitia dinheiro de verdade. Ningu\u00e9m deixou de ler s\u00f3 poquer disputou partidas intermin\u00e1veis do jogo, nem ningu\u00e9m virou bandido porque jogou WAR, capaz de manter <i>aborrecentes<\/i> quietos por horas a fio. \u00c9 este encaixe de pe\u00e7as, \u00e0s vezes de forma mesmo pouco l\u00f3gica, que pode, de sa\u00edda, interessar a um dos ex-leitores que t\u00eam me preocupado.<\/p>\n<p>Outra atra\u00e7\u00e3o, talvez ainda curiosa, \u00e9 a juventude do narrador-detetive. Andr\u00e9 tenta sobreviver, atracado aos livros, \u00e0 s\u00fabita necessidade de ser adulto ap\u00f3s a morte dos pais e ao controle do irm\u00e3o-mais-velho-protetor-bem-sucedido. Vira detetive por pregui\u00e7a e desinteresse pela sociedade \u00e0 sua volta. Sem maiores revoltas, mas suficientemente anarquista para atrair o jovem leitor.<\/p>\n<p>Entre disputas meio machistas sobre futebol, v\u00e1rios chopes pelos bairros da cidade em companhia do excelente personagem que \u00e9 o Gordo (trabalha numa livraria mas n\u00e3o aborrece ningu\u00e9m com li\u00e7\u00f5es de literatura) e submetido ao dom\u00ednio escravista do tes\u00e3o a que n\u00e3o se consegue escapar antes de se completar 20 e poucos anos, nosso jovem vai se metendo em confus\u00e3o atr\u00e1s de confus\u00e3o. Afinal, no mundo dos estabelecidos na vida ningu\u00e9m presta e n\u00e3o se pode mesmo confiar em algu\u00e9m com mais de 30 anos.<\/p>\n<p>O jovem, a quem \u00e9 atribu\u00edda a tarefa de salvar um garoto que fora, talvez, seq\u00fcestrado, vomita na pia, sonha com a vizinha, gosta de pizza com Coca-Cola e bebe \u00e1gua no gargalo da garrafa da geladeira. &#8220;Fui at\u00e9 o quarto, vesti um moletom velho, calcei meias. Eu gostava de andar de meias, sem sapato, dentro de casa. Dava uma sensa\u00e7\u00e3o boa, meio abandono e aconchego ao mesmo tempo.&#8221;<\/p>\n<p>S\u00e3o essas fascinantes &#8220;atitudes&#8221; que confortam aqueles que ainda n\u00e3o chegaram \u00e0 fase da vida em que se percebe que algu\u00e9m vai precisar lavar aquelas malditas meias, a garrafa babada ou o banheiro vomitado.<\/p>\n<p>\u00c9 a simp\u00e1tica juventude do narrador, que passa por mulheres mais sedutoras que a Mulher-Gato e acaba nos bra\u00e7os de uma garota meio<i> hippie<\/i> de 15 anos e olhos azuis, que torna o detetive por correspond\u00eancia um condutor de jogos e, ao mesmo tempo, personagem capaz de produzir a indispens\u00e1vel identifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 de ser o Conselheiro Aires que vai despertar num jovem. Isso tudo n\u00e3o vai tirar ningu\u00e9m da leitura de Borges, Paul Auster, Machado de Assis, como Rubem Fonseca n\u00e3o tirou. Mas pode, quem sabe, levar alguns jovens at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>Um jogo complicado e trabalhoso, em ritmo de videogame e atravessado pelo humor talvez seja capaz de convencer jovens de que a felicidade pode estar no caminhar pelas ruas ao lado de uma jovem flautista e n\u00e3o em um avi\u00e3o a caminho de Miami, com d\u00f3lares na carteira.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-601","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/601","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}