{"id":598,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=o-craque-inventa-o-escritor"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"o-craque-inventa-o-escritor","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=o-craque-inventa-o-escritor","title":{"rendered":"O craque inventa o escritor"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o creio que seja raridade o fato de escritores talentosos se debru\u00e7arem sobre temas tidos como menos nobres, embora ainda se perceba o velho preconceito que separa \u00e1reas dos saber aparentemente d\u00edspares: falar de esporte e cultura, de futebol e arte pode parecer a muitos algo indevido. No entanto, podemos falar numa sele\u00e7\u00e3o de craques, escritores bons de bola que t\u00eam colaborado para que a paix\u00e3o nacional seja valorizada no que ela tem de imagin\u00e1rio, trazendo para o cotidiano das massas uma reflex\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e9tica.<\/p>\n<p>A bibliografia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pequena, com colet\u00e2neas como a rec\u00e9m-lan\u00e7ada por Fl\u00e1vio Moreira da Costa, <em>Vinte e dois contistas em campo<\/em>, cl\u00e1ssicos como as cr\u00f4nicas de Nelson Rodrigues, <em>A p\u00e1tria em chuteiras<\/em>, e garimpos editoriais como a reuni\u00e3o de textos de Carlos Drummond, <em>Quando \u00e9 dia de futebol<\/em>. E h\u00e1 outros tantos.<\/p>\n<p>Em meio aos recentes lan\u00e7amentos sobre o tema, desponta uma narrativa delicada, mas \u00e1gil e convincente para convocar e seduzir jovens leitores. Trata-se do livro de Fl\u00e1vio Carneiro, professor de literatura, cr\u00edtico e ensa\u00edsta, que dribla os r\u00f3tulos e uma vez mais escreve de um jeito que torna a leitura um exerc\u00edcio de afetos: <em>Prezado Ronaldo<\/em>, pequena colet\u00e2nea de cartas ao Fen\u00f4meno, enviadas por um menino de periferia, Artur (mais conhecido como Ping\u00fcim), jogador de futebol de um time infantil da segunda divis\u00e3o. Enquanto joga, estuda entre dois professores: o Aloprado, t\u00e9cnico do time e respons\u00e1vel pelas cenas mais hilariantes do texto; e seu Almeida, vizinho que funciona como pai, dono de uma biblioteca e que tem livros publicados.<\/p>\n<p>A narrativa se constr\u00f3i sobre um desejo duplo, que quer combinar &#8220;as ast\u00facias dos p\u00e9s com as m\u00e3os&#8221;, como diria Jo\u00e3o Cabral: o menino sonha em ser um novo Ronaldo, mas tamb\u00e9m um craque cronista esportivo, como Jo\u00e3o Saldanha e Nelson Rodrigues. Isto mesmo, Ping\u00fcim leu esses autores &#8211; para surpresa da professora da escola. E a paix\u00e3o de seu amigo e parceiro, Parede, por Raquel vai faz\u00ea-lo descobrir a poesia de Carlos Drummond de Andrade.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Carneiro toma o tom do adolescente e vai revelando sua estrat\u00e9gia de sedu\u00e7\u00e3o, com uma escrita pr\u00f3xima da oralidade, ao jeito de Lygia Bojunga, evitando as interrup\u00e7\u00f5es de par\u00e1grafos e travess\u00f5es, fazendo fluir o texto. Por outro lado, tamb\u00e9m vai revelando a estrat\u00e9gia de forma\u00e7\u00e3o do leitor e do escritor das cartas a Ronaldo. Em sala de aula, ele ouve e conta hist\u00f3rias inventadas; na casa do amigo mais velho, que sugere cartas aos destinat\u00e1rios mais variados como exerc\u00edcio para pensar e escrever, vai nascendo uma intimidade com as palavras, um olhar observador do mundo, um ver pelo imagin\u00e1rio que acaba por contagiar o Parede, jovem amigo, a se tornar, sem culpa, co-autor dos poemas do itabirano.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 um primor tamb\u00e9m para os adultos que se querem mediadores de leitura. N\u00e3o por acaso, Fl\u00e1vio Carneiro \u00e9 autor de um livro te\u00f3rico sobre leitura e leitores de papel, intitulado <em>Entre o cristal e a chama<\/em> (EdUerj), sem falar dos demais infantis, como <em>Lalande<\/em> e <em>O livro de Marco<\/em>. A estes, vem juntar-se o seu Ping\u00fcim.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-598","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}