{"id":594,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=ignorancia-e-imortalidade"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"ignorancia-e-imortalidade","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=ignorancia-e-imortalidade","title":{"rendered":"Ignor\u00e2ncia e imortalidade"},"content":{"rendered":"<p>Ao escrever um romance sobre a mem\u00f3ria, Fl\u00e1vio Carneiro fez tamb\u00e9m uma profiss\u00e3o de f\u00e9 na arte de contar hist\u00f3rias. A confiss\u00e3o \u00e9 o mon\u00f3logo de um seq\u00fcestrador at\u00edpico que clama por aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 um resgate monet\u00e1rio em jogo. A seq\u00fcestrada e, conseq\u00fcentemente, o leitor s\u00f3 tomam conhecimento da demanda ao final da narrativa. E, nesse ponto, o pagamento j\u00e1 ter\u00e1 sido feito pelo pr\u00f3prio seq\u00fcestrador de maneira paradoxal: uma fic\u00e7\u00e3o sedutora, um texto que devolve em convincente narrativa as experi\u00eancias de ida e morte do narrador sem-nome.<\/p>\n<p>Colocado no lugar da seq\u00fcestrada e privado, assim, do direito de se pronunciar, o leitor \u00e9 convidado na primeira frase a ouvir: &#8220;A senhora me escute, por favor&#8221;. O que vem em seguida \u00e9 como um bildungsroman tardio: a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento de um jovem adulto. Apenas um detalhe, que o resenhista abre m\u00e3o de contar por inteiro para o livro n\u00e3o perder parte de sua gra\u00e7a: o ac\u00famulo de cultura se d\u00e1 ap\u00f3s a morte da parceira sexual da vez. Isto \u00e9, o narrador leva o caldo, mas algu\u00e9m sofre o \u00fanico fato inevit\u00e1vel da vida, seu fim.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito de Fl\u00e1vio Carneiro \u00e9 manter a respira\u00e7\u00e3o de frases e par\u00e1grafos por mais de 200 p\u00e1ginas sem deixar ao leitor o m\u00ednimo motivo para cansa\u00e7o. Esse narrador que vive para poder narrar recupera a paix\u00e3o pelo relato de modo carnal: &#8220;Vivi o passado e o presente de outras vidas, herdei delas o futuro apenas esbo\u00e7ado, dei forma a cada um desses futuros, acolhi a todos dentro de mim e com eles constru\u00ed castelos inimagin\u00e1veis.&#8221; Ora, A confiss\u00e3o \u00e9 um pedido para que n\u00e3o se deixe a literatura morrer, nem que para isso seja necess\u00e1rio prender o leitor a uma cadeira&#8230; Trata-se da narrativa desesperada de um homem incomum, um ladr\u00e3o barato de livros que descobre ter algo diferente do que seria normal. Ele mata o objeto de paix\u00e3o sem nunca ser incriminado. N\u00e3o h\u00e1 quaisquer vest\u00edgios de sangue, n\u00e3o h\u00e1 pistas a seguir, s\u00f3 existe a vida adiante, com um horizonte de expectativas ampliado.<\/p>\n<p>As personagens femininas que cruzam o caminho do narrador (sem se dar conta do perigo que correm) possuem resson\u00e2ncias liter\u00e1rias: Emma, In\u00eas, Alice, Agnes. Elas n\u00e3o t\u00eam medo &#8211; ou s\u00e3o conduzidas a esquec\u00ea-lo temporariamente. O narrador, aos poucos, tamb\u00e9m perde o temor de viver. \u00c0 medida que seu conhecimento das coisas aumenta, seu medo diminui. A vida parece mais f\u00e1cil quando se sabe, por exemplo, apreciar um vinho ou desfrutar das belezas naturais.<\/p>\n<p>A confiss\u00e3o coloca em pauta um tema important\u00edssimo para o homem contempor\u00e2neo, qual seja, a diferen\u00e7a entre a ignor\u00e2ncia, que o mant\u00e9m na passividade (facilmente manipul\u00e1vel, pois), e a educa\u00e7\u00e3o dos sentidos, que abre perspectivas surpreendentes e leva \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Fl\u00e1vio Carneiro, a experi\u00eancia de contar e ouvir hist\u00f3rias est\u00e1 entre as mais f\u00e9rteis para nos tirar da barb\u00e1rie &#8211; no Rio de Janeiro, em Lisboa ou nos cafund\u00f3s da China, lugares por onde passa seu curioso narrador &#8211; seq\u00fcestrador, sempre disposto a sugar algo do corpo das mulheres com o conseq\u00fcente enriquecimento de sua bagagem f\u00edsica e mental. Mem\u00f3ria, afinal, \u00e9 tudo o que temos. At\u00e9 que a morte nos separe.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-594","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/594","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}