{"id":591,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=a-arte-de-bater-um-escanteio"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"a-arte-de-bater-um-escanteio","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=a-arte-de-bater-um-escanteio","title":{"rendered":"A arte de bater um escanteio"},"content":{"rendered":"<p>A p\u00e1ginas tantas de <em>Passe de letra<\/em>, Fl\u00e1vio Carneiro chuta com efeito: &#8220;Um jogo \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica. Talvez algum dia algu\u00e9m venha a descobrir \u2013 a despeito de qualquer coer\u00eancia hist\u00f3rica \u2013 que o futebol foi uma inven\u00e7\u00e3o de Hoffman, Maupassant, Calvino, Cort\u00e1zar ou algum outro contador de hist\u00f3rias que giram em torno do sobrenatural&#8221;. Pode ser. Que hay brujas, las hay. Mas deixemos a \u00faltima palavra com o Sobrenatural de Almeida.<\/p>\n<p>Ao menos, a tese de Carneiro \u00e9 uma quest\u00e3o bem mais interessante que aquela outra, a qual volta e meia vem \u00e0 cancha: o Brasil, &#8220;pa\u00eds do futebol&#8221;, jamais conseguiu produzir um bom romance sobre o assunto. O que \u00e9 uma bobagem. A Argentina, a It\u00e1lia, a Alemanha, a Fran\u00e7a ou a Nig\u00e9ria por acaso realizaram essa proeza? E O medo do goleiro diante do p\u00eanalti, novela do austr\u00edaco Peter Handke, n\u00e3o \u00e9 bem sobre futebol.<\/p>\n<p>Aqui, como l\u00e1 fora, o que h\u00e1 s\u00e3o bons contos, alguns excelentes, em torno do tema \u2013 a\u00ed, sim, pode existir uma discuss\u00e3o al\u00e9m do papo de bar depois da pelada: por que o futebol se d\u00e1 melhor na narrativa curta? Pegue-se a antologia 22 contistas em campo, organizada por Fl\u00e1vio Moreira da Costa, que os exemplos abundam: &#8220;J\u00e1 podeis da p\u00e1tria filhos&#8221;, de Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro; &#8220;Abril, no Rio, em 1970&#8221;, de Rubem Fonseca; &#8220;Na boca do t\u00fanel&#8221;, de S\u00e9rgio Sant\u2019Anna; &#8220;Dia dos mortos&#8221;, de S\u00e9rgio Faraco; &#8220;Juan Polti, half-back&#8221;, do uruguaio Horacio Quiroga. E bem poderiam entrar mais dois: &#8220;Buda&#8221;, do chileno Roberto Bola\u00f1o, e &#8220;No tempo indeciso&#8221;, de Javier Mar\u00edas.<\/p>\n<p>O que se passa mais comumente em outros pa\u00edses \u2013 t\u00e3o apaixonados pelo futebol quanto o Brasil, ou at\u00e9 mais \u2013 \u00e9 que autores de prest\u00edgio n\u00e3o se furtam a escrever ami\u00fade sobre o esporte na imprensa, alguns deles assinando colunas semanais. S\u00e3o os casos do j\u00e1 citado Javier Mar\u00edas, do falecido Manuel V\u00e1zquez Montalb\u00e1n, de Enrique Vila-Matas, na Espanha; do mexicano Juan Villoro, cuja colet\u00e2nea de artigos Dios es redondo (que grande t\u00edtulo, hein?) merece urgente tradu\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s; do ingl\u00eas Nick &#8220;Arsenal&#8221; Hornby, entre outros.<\/p>\n<p>Nestas plagas baldias, em que pese a categoria de cronistas espec\u00edficos de futebol (Mario Filho, Nelson Rodrigues, Jo\u00e3o Saldanha, Armando Nogueira e, honrando as cores da rapaziada de hoje, Xico S\u00e1), h\u00e1 a contribui\u00e7\u00e3o ocasional de um Verissimo, de um Dapieve, de um Ruy Castro, de um Jo\u00e3o Ubaldo. Geralmente s\u00e3o pitacos brilhantes, mas pitacos poucos. Exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra, o nome de Jos\u00e9 Lins do Rego, que foi romancista e colunista di\u00e1rio de futebol, n\u00e3o necessariamente nessa ordem. Mas Z\u00e9 Lins era mais cronista doente do Flamengo.<\/p>\n<p>No departamento de ensaios sobre futebol, onde antes vivia solit\u00e1rio O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho \u2013 que muitos t\u00eam e leem como um romance devido \u00e0 riqueza de hist\u00f3rias, personagens e principalmente ao estilo admir\u00e1vel do autor \u2013 surgiram boas novidades: Footballmania: uma hist\u00f3ria social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938), de Leonardo Affonso de M. Pereira; A dan\u00e7a dos deuses: futebol, sociedade, cultura, de Hil\u00e1rio Franco J\u00fanior; Veneno rem\u00e9dio: o futebol e o Brasil, de Jos\u00e9 Miguel Wisnik. De biografias, h\u00e1 o modelo Estrela solit\u00e1ria: um brasileiro chamado Garrincha, por Ruy Castro. Na simp\u00e1tica cole\u00e7\u00e3o Camisa 13, em que a trajet\u00f3ria de grandes clubes \u00e9 contada por torcedores n\u00e3o s\u00f3 ilustres mas sobretudo que manjam do assunto, o destaque \u00e9 Botafogo: entre o c\u00e9u e a gl\u00f3ria, de S\u00e9rgio Augusto.<\/p>\n<p>Eis agora um escritor \u2013 que quase se tornou jogador profissional \u2013 a lan\u00e7ar um livro no qual embara\u00e7a as linhas que ligam futebol e literatura. Passe de letra, de Fl\u00e1vio Carneiro, re\u00fane cr\u00f4nicas e artigos publicados, de 2007 a 2008, no jornal liter\u00e1rio Rascunho, do Paran\u00e1. A ep\u00edgrafe \u00e9 do goleiro Albert Camus: &#8220;O conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol&#8221;.<\/p>\n<p>No texto de abertura, estamos no in\u00edcio dos anos 70, em Goi\u00e2nia, mais especificamente num bairro chamado Fama, onde morava um certo Fausto, ex-jogador do Vila Nova, ponta-direita de chute fort\u00edssimo. Ele resolveu criar um time de futebol com os meninos do bairro e arredores, o Selefama Esporte Clube. Entre &#8220;os garotos mirrados, alguns passando fome, que nunca tinham cal\u00e7ado uma chuteira na vida&#8221;, estava o nosso Fl\u00e1vio Carneiro, que era mais da classe m\u00e9dia e acabou sendo o dono da camisa 7: &#8220;Sem d\u00favida um dos maiores orgulhos da minha vida&#8221;. Pois o Selefama levantou, na frente de equipes mais poderosas e estruturadas como Vila Nova, Goi\u00e1s, Goi\u00e2nia e Atl\u00e9tico-GO, a ta\u00e7a de campe\u00e3o goiano de tampinhas (categoria at\u00e9 12 anos) em 1973.<\/p>\n<p>Com tal incentivo, Fl\u00e1vio seguiu firme na ponta, apesar de algumas desilus\u00f5es \u2013 o dia em que n\u00e3o p\u00f4de tirar uma foto com Pel\u00e9 certamente a maior delas \u2013 at\u00e9 receber o convite, em 1980, para ser jogador de futebol profissional, atuando pelo Guarani, de Campinas, que dois anos antes tinha sido campe\u00e3o brasileiro. Mas, quase ao mesmo tempo, ganhou um importante concurso de contos. Precisava decidir entre uma coisa e outra, e ser r\u00e1pido. Venceu o sonho de ser escritor, e ele foi fazer vestibular para letras no Rio.<\/p>\n<p>Passe de letra \u00e9 obviamente o livro de um escritor que sabe cobrar escanteio, e n\u00e3o o de um ex-jogador que resolve contar suas experi\u00eancias. Autor dos romances <em>O campeonato<\/em> e <em>A confiss\u00e3o<\/em>, al\u00e9m dos ensaios de <em>No pa\u00eds do presente<\/em>, especificamente sobre futebol Carneiro escreveu a novela juvenil <em>Prezado Ronaldo<\/em>, o conto &#8220;Penalidade m\u00e1xima&#8221;, e o roteiro de um curta-metragem, <em>A noite do Capit\u00e3o<\/em>. Na colet\u00e2nea, uniu reminisc\u00eancias a sacadas, como a de comparar Garrincha ao lirismo e \u00e0 simplicidade da poesia de Drummond ou Bandeira. Em textos curiosos, que v\u00e3o agradar ao torcedor-leitor, revela as manias e supersti\u00e7\u00f5es de colegas (o tricolor Marcelo Moutinho, o rubro-negro Milton Hatoum, o alvinegro Fernando Molica, entre outros). Belo gol.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-591","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/591","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=591"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}