{"id":590,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=gol-de-letra"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"gol-de-letra","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=gol-de-letra","title":{"rendered":"Gol de letra"},"content":{"rendered":"<p>Quem pensa que entre o futebol e a literatura existe a mesma dist\u00e2ncia abismal que separa o campe\u00e3o do lanterninha do Campeonato Brasileiro (s\u00f3 para pisar nos nossos gramados), deve ler o livro <em>Passe de Letra \u2013 Futebol e Literatura<\/em><br \/>\n, do escritor goiano Fl\u00e1vio Carneiro.<\/p>\n<p>Com a polival\u00eancia de quem chuta com os dois p\u00e9s, na fic\u00e7\u00e3o e no esporte mais popular do planeta, o autor, que s\u00f3 n\u00e3o se profissionalizou no futebol porque a musa extra-campo falou mais alto, re\u00fane no livro um plantel de cr\u00f4nicas escritas entre 2007 e 2008, para o jornal de literatura Rascunho, de Curitiba. Com isso, se junta a um time que fez a boa tabelinha entre a bola e o livro, que inclui craques da estirpe de Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira e \u2013 para muitos leigos na alquimia entre as redes e as palavras \u2013 Albert Camus.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente de Camus, que tamb\u00e9m foi goleiro (quem quiser se aprofundar na rela\u00e7\u00e3o do autor de A peste com o futebol basta ler o romance inacabado O primeiro homem), a ep\u00edgrafe do livro de Fl\u00e1vio Carneiro:<em> \u201cO conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol\u201d<\/em>. Redonda verdade, afinal, sabe-se l\u00e1 o que se passa na cabe\u00e7a do atacante ou mesmo de um goleiro no momento, crucial e inapel\u00e1vel, da cobran\u00e7a de um p\u00eanalti em decis\u00e3o de Copa do Mundo, s\u00f3 para ficar no exemplo mais extremo?<\/p>\n<p>Ainda no primeiro tempo, Carneiro, que no in\u00edcio dos anos 70 foi campe\u00e3o goiano na categoria Tampinha (at\u00e9 12 anos), pelo emblem\u00e1tico Selefama Esporte Clube, empatando em 0\u00d70 com a equipe do poderoso Goi\u00e1s, demonstra que o jogo narrativo e a arte (nada f\u00e1cil) de empurrar com o p\u00e9 uma bola para dentro do gol podem formar uma afinada dupla de ataque e fazer tabelinhas inimagin\u00e1veis. Diz o autor na cr\u00f4nica \u201cFutebol &amp; Literatura\u201d:<\/p>\n<p>No futebol e na literatura as regras funcionam apenas para tornar poss\u00edvel a chegada do inusitado. Um bom romance \u00e9 aquele que voc\u00ea sabe como come\u00e7a, mas n\u00e3o sabe como vai terminar. Se j\u00e1 sabe, nem vale a pena ler. Um bom romance \u00e9 um a caixinha de surpresa. Uma partida de futebol \u00e9 a mesma coisa. , com a vantagem, do futebol, de que mesmo uma partida ruim \u00e9 imprevis\u00edvel, ao contr\u00e1rio de um romance .<\/p>\n<p>Se o leitor tamb\u00e9m joga futebol, com aquela certeza axiom\u00e1tica de que o campo \u00e9 um ringue de vale tudo e n\u00e3o comporta gestos desprendidos, deve ler a cr\u00f4nica \u201cO \u00faltimo jogo\u201d, em que um ponta direita se deixa, de prop\u00f3sito, apanhar de um lateral esquerdo,para que este, j\u00e1 desmoralizado durante a partida, n\u00e3o acabe ainda mais humilhado pela pr\u00f3pria torcida.<\/p>\n<p>Pananan\u2026.nanammmm\u2026pananan\u2026 Os saudosistas ter\u00e3o direito a v\u00eddeo-tape na cr\u00f4nica \u201cCanal 100\u201d sobre o telejornal esportivo, criado por Carlos Niemeyer e exibido antes das sess\u00f5es de cinema. Em \u201cHist\u00f3rias poss\u00edveis\u201d, Fl\u00e1vio Carneiro elenca uma s\u00e9rie de jogadas que renderiam um bom enredo, a come\u00e7ar pelo drama do goleiro Barbosa, apontado como o respons\u00e1vel pela derrota do Brasil, por 2\u00d71, frente ao Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracan\u00e3 abarrotado por um p\u00fablico de quase 200 mil torcedores. E conta um epis\u00f3dio que muitos marmanjos metidos a enciclopedistas do futebol desconhecem: n\u00e3o foi contra o Vasco da Gama, mas sim diante do modesto Botafogo da Para\u00edba que Pel\u00e9 fez o seu mil\u00e9simo gol. Segundo o autor de <em>Passe de letra<\/em><br \/>\n, houve um erro de c\u00e1lculo, pois, o p\u00eanalti que o goleiro Andrada n\u00e3o pegou (ou por pouco n\u00e3o pegou, como preferem os vasca\u00ednos, o que d\u00e1 mesmo placar) foi, na verdade, o gol de n\u00famero 999 do Rei Pel\u00e9.<\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica \u201cO Narrador\u201d, Fl\u00e1vio Carneiro al\u00e7a os locutores de futebol ao status do cl\u00e1ssico contador de hist\u00f3rias do ensaio hom\u00f4nimo de Walter Benjamin, s\u00f3 que alojados numa cabine de r\u00e1dio ou de TV, e n\u00e3o ao p\u00e9 de uma fogueira, rodeados de uma plat\u00e9ia atenta, como os antigos contadores de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Professor de literatura e roteirista, radicado no Rio de Janeiro, Fl\u00e1vio Carneiro tipifica os personagens reais do futebol, de acordo com as tradicionais categoriais da literatura: \u00e9pico (Pel\u00e9), tr\u00e1gico (Barbosa), l\u00edrico (Garrincha) e c\u00f4mico (Dad\u00e1 Maravilha). Conta ainda casos pitorescos como o do lend\u00e1rio Nen\u00e9m Prancha, roupeiro e depois t\u00e9cnico do Botafogo (o clube de cora\u00e7\u00e3o do cronista), na d\u00e9cada de 1950, autor de frases antol\u00f3gicas como \u201co p\u00eanalti \u00e9 t\u00e3o importante que devia ser cobrado pelo presidente do clube\u201d, \u201cse concentra\u00e7\u00e3o ganhasse jogo, o time do pres\u00eddio n\u00e3o perdia uma\u201d e (defini\u00e7\u00e3o precisa como um lan\u00e7amento de G\u00e9rson) \u201cjogador \u00e9 o Didi, que joga como quem chupa laranja\u201d. Poderia incluir uma do (l\u00edrico ou c\u00f4mico?) Baiaco, eterno craque do Bahia, que ao ser indagado como ficaria o tricolor baiano sem a presen\u00e7a dele em campo, teria respondido: \u201cO Bahia joga bem comigo ou semigo.<\/p>\n<p>Mas paremos por aqui, porque j\u00e1 estamos nos descontos. Fiquem com o passe de letra nesta partida l\u00edtero-futebol\u00edstica de FCFC (Fl\u00e1vio Carneiro Futebol Clube).<\/p>\n<p>Apito final: Durante a 9\u00aa Bienal do Livro da Bahia, autor dessa resenha participou de um \u201cbate-bola\u201d sobre futebol, na Arena Jovem, ao lado de Fl\u00e1vio Carneiro e do comentarista esportivo Oscar Paris. Foi um baba divertido ou uma pelada animada como quiserem.<\/p>\n<p>Elieser Cesar \u00e9 jornalista e escritor, autor de <em>O azar do goleiro<\/em> (Contexto), dentre outros livros, e mora em Salvador.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-590","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}