{"id":585,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=memorias-de-um-vampiro"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"memorias-de-um-vampiro","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=memorias-de-um-vampiro","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de um Vampiro"},"content":{"rendered":"<p>O personagem do romance A Confiss\u00e3o, de Flavio Carneiro, lembra em muito Raskolnikov, personagem de Crime e Castigo, bem como o narrador de Mem\u00f3rias de Um Homem do Subsolo, de F. Dostoi\u00e9vski. Como Raskolnikov, o estudante assassino de Crime e Castigo, o personagem de A Confiss\u00e3o parece sofrer de um &#8220;excesso de consci\u00eancia&#8221;, se \u00e9 que a consci\u00eancia possa ser excessiva. Mas sabemos: crimes coletivos como guerras de exterm\u00ednio, holocausto e genoc\u00eddio s\u00e3o cometidos em nome da boa consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O personagem sem nome de Flavio Carneiro \u00e9 um homem do subsolo (embora seja adepto de freq\u00fcentar bibliotecas, mas por motivos pouco nobres). \u00c9 um vampiro em busca de do sentido da vida atrav\u00e9s da subjuga\u00e7\u00e3o e exerc\u00edcio de poder como instrumentos de prazer. Como Raskolnikov, e algu\u00e9m que, em nome da sobreviv\u00eancia dele mesmo, se coloca acima da moral e das leis. Os dois surgem como grandes ressentidos sociais. S\u00e3o prot\u00f3tipos da criatura humana que n\u00e3o consegue nem quer fazer nada, mas nutre \u00f3dio mortal pelos que fazem e conseguem atingir seus objetivos.<\/p>\n<p>Raskolnikov comete duplo assassinato. O personagem sem nome de Flavio perpetra um seq\u00fcestro. Sua narra\u00e7\u00e3o \u00e9 labir\u00edntica, em que o aparente desfecho \u00e9 abertura para outra hist\u00f3ria de um outsider (estrangeiro em si mesmo) buscando entender ou justificar seu ato criminoso.  Se Raskolnikov, dilacerado por id\u00e9ias e ideais de viver em uma sociedade perfeita, de onde os fracos e os incapazes s\u00e3o alijados (vistos como aleijados), o personagem de Flavio vive de livros, ou melhor, de roub\u00e1-los. Ou seja: freq\u00fcenta bibliotecas n\u00e3o para enriquecer os miolos, mas para tirar a Biafra da barriga. Vende o miolo dos livros (com capa e tudo) para comprar o miolo do p\u00e3o. Sua hist\u00f3ria configura a met\u00e1fora da viol\u00eancia gratuita como express\u00e3o de ressentimento social.<\/p>\n<p>O homem do subsolo pode ser o ressentido impotente, que em seu di\u00e1rio, faz um relato de seu \u00f3dio e fracasso. O homem que seq\u00fcestra a madame para obrig\u00e1-la a escutar a hist\u00f3ria de sua vida, feita s\u00f3 de mis\u00e9ria, n\u00e3o quer apenas falar de si. Antes, deseja que ela tamb\u00e9m fale. S\u00f3 assim pode ser espelho atrav\u00e9s do qual ele mesmo pode se ver. \u00c0 v\u00edtima cabe dar uma escuta for\u00e7ada ou constrangida, porque n\u00e3o escolhida. O seq\u00fcestrador quer mostrar \u00e0 mulher que tem um Si-Mesmo, \u00e9 uma pessoa, n\u00e3o um fantasma humano, rato fam\u00e9lico, que tem de fu\u00e7ar lixeiras para n\u00e3o morrer de fome. Ou que, para almo\u00e7ar, tem que vender algum livro que roubou no dia anterior, ou no mesmo dia. O faminto fan\u00e1tico por card\u00e1pios de restaurantes e nucas de mulheres. O medo que sente da vida \u00e9 o medo que imp\u00f5e \u00e0s suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Em uma alquimia delituosa, faz a arte da literatura se transformar em comida de sobreviv\u00eancia. Muitos escritores tamb\u00e9m tiveram que passar por isto: vender o miolo da cabe\u00e7a para roubar o miolo do p\u00e3o. Lima Barreto passou fome. Em seu di\u00e1rio \u00edntimo, registra: &#8220;Uma semana sem comer carne. Hoje comi uma empadinha. Que felicidade!&#8221;. Como Julien Sorel, o seq\u00fcestrador de A Confiss\u00e3o \u00e9 o homem desafortunado e infeliz, em guerra com a sociedade. Raskolnikov mata a velha agiota e sua empregada em nome do ideal de uma sociedade culta e socialista. O personagem de A Confiss\u00e3o seq\u00fcestra para ser escutado. Ele comete o crime julgando-se com todo o direito de perpetr\u00e1-lo, uma vez que vive em uma sociedade que tudo perdoa, menos o fracasso.<\/p>\n<p>A fala-mon\u00f3logo de A Confiss\u00e3o busca colocar no mesmo balaio a culpa de v\u00edtimas e perpetradores, uma vez que tudo est\u00e1 conectado, tudo vive em rela\u00e7\u00e3o, como o personagem mesmo alega, na tentativa de explicar ou defender o seu ato. Sua vida e suas id\u00e9ias guardam estreita rela\u00e7\u00e3o com o flaneur de Baudelaire &#8211; para n\u00e3o falar com o homem do subterr\u00e2neo, de Dostoi\u00e9vski: &#8220;Andar a esmo pela cidade me dava uma sensa\u00e7\u00e3o parecida com alegria, eu me sentia bem ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes, \u00e0s vezes pelo simples prazer f\u00edsico de andar at\u00e9 os m\u00fasculos doerem&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>&#8221; (&#8230;) meu prazer maior, no entanto, ainda n\u00e3o disse, era ler card\u00e1pios de restaurantes&#8221;. Isto faz lembrar a cr\u00f4nica &#8220;Os olhos dos pobres&#8221;, de Charles Baudelaire, em seu Pequenos Poemas em Prosa. Nela vemos que os olhos dos pobres, postos nos que comem, fazem com que estes, comensais, se sintam em profunda culpa, e at\u00e9 percam o apetite. S\u00e3o olhos acusadores. Em A Confiss\u00e3o, temos a gentileza de um seq\u00fcestrador que \u00e9 ladr\u00e3o e leitor de livros. Em solid\u00e3o e mis\u00e9ria na cidade grande, comete um crime para ter um ouvido \u00e0 merc\u00ea de sua fala caudalosa. Algu\u00e9m por quem se apaixonou, n\u00e3o pela beleza, mas pelo refinamento social.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um criminoso que se permite querer ter modos e sentimentos delicados. Preocupa-se com a dor que deve estar sentindo o marido da mulher que seq\u00fcestrou. Afinal, ela tem fam\u00edlia, filhos. Ele, o seq\u00fcestrador, tem palavras de algu\u00e9m de gosto refinado &#8211; ao menos at\u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o que o levou a cometer o seq\u00fcestro: o momento epif\u00e2nico em que se soube capaz de degustar um bom vinho, sentindo sua qualidade no paladar que ele achava que n\u00e3o possu\u00eda. Delicado, por\u00e9m precavido: toma todos os cuidados para que sua v\u00edtima n\u00e3o possa fugir. Elas, em vez de se debaterem ou buscar uma fuga, ou ao menos gritar por socorro, parecem sucumbir \u00e0 sua l\u00e1bia, talvez possu\u00eddas pela s\u00edndrome de Estocolmo.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um vampiro de sensa\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es e sentimentos, e n\u00e3o quer apenas falar &#8211; tamb\u00e9m quer escutar sua v\u00edtima. Em sua fala, o homem fala do prazer que tem em estar em uma sala de cinema, como que devolvido ao \u00fatero, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da caverna. Relata o horror que sente, terminada a sess\u00e3o, em sair de novo \u00e0 realidade, tendo de &#8220;conviver com gente de verdade, com carros, ruas desertas, mans\u00f5es, madrugada, seq\u00fcestros&#8221;. Mesmo sendo uma pessoa que n\u00e3o vende seu tempo para ningu\u00e9m, j\u00e1 que \u00e9 desempregado cr\u00f4nico e opcional, n\u00e3o quer perder tempo&#8230; sabe o valor do tempo. E quem conhece o valor do tempo tamb\u00e9m sabe o valor do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O faminto v\u00ea como carrasco o churrasqueiro, a brandir seu enorme espeto de carnes sanguinolentas. Ver isto lhe d\u00f3i como um soco no est\u00f4mago. Como no poema &#8220;As bocas do tempo&#8221;, de Brasig\u00f3is Fel\u00edcio: &#8220;Cronos nos come em tudo o que comemos\/ comemos tempo a role\/ com farinha e azeite dend\u00ea\/ em tempo de roer e de ser corro\u00eddos\/ o consumidor \u00e9 consumido\/ Quando a barriga ronca, e dana a gemer\/ \u00e9 Cronos querendo comer\/ Comer carnes e legumes\/ devorar usos e costumes. \/ Comemos porque sofremos\/ou quando estamos infelizes\/ Afinal, \u00e9 preciso arrancar da precis\u00e3o\/a Biafra de n\u00e3o nos sentirmos vivos &#8220;.<\/p>\n<p>O personagem fala de sua ojeriza ao trabalho. Define o fato como op\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Ele v\u00ea com desprezo as pessoas que vendem as horas de seu tempo para ganhar dinheiro. Ele mesmo s\u00f3 faz isto quando est\u00e1 nas \u00faltimas. Prefere viver de bicos, como quem aceita e prefere existir em eterno risco. Em verdade, &#8211; defende-se &#8211; tinha uma certa \u00e9tica em seu &#8220;trabalho&#8221;. N\u00e3o se considera um ladr\u00e3o, no sentido comum da palavra, mas apenas algu\u00e9m que, em nome da extrema necessidade, contribui para que os livros mudem de endere\u00e7o. O que pode ser uma vantagem para eles, os livros, pois que, sendo postos a circular, podem encontrar novos leitores, indo parar em sebos nauseabundos. S\u00f3 assim podem sair da solid\u00e3o das bibliotecas de luxo, onde ningu\u00e9m vai.<\/p>\n<p>Meticuloso, em seu of\u00edcio, o personagem mantinha uma caderneta, onde anotava os lugares de onde surrupiava os exemplares &#8211; assim fazendo certa justi\u00e7a em seu of\u00edcio de transferidor de livros. A tristeza que sentiu ao constatar que n\u00e3o era um somellier, um en\u00f3logo, capaz de reconhecer a cepa de um vinho, saber at\u00e9 mesmo ano de safra e o lugar e temperatura onde foi colhido. Como Lima Barreto, que em sua fome cr\u00f4nica, enfrentando o preconceito, certo dia desabafou: &#8220;\u00c9 triste n\u00e3o ser branco!&#8221;, ele tamb\u00e9m poderia ter dito: &#8220;\u00c9 triste n\u00e3o ter bom gosto!&#8221;.  Naquela noite, diz \u00e0 seq\u00fcestrada &#8220;tive a constata\u00e7\u00e3o cruel, de que n\u00e3o tinha paladar, de que estava fadado a gostar para sempre de vinhos vagabundos, servidos em canecas engorduradas. Por isto bebia com raiva&#8221;. Como certos ricos que, por mais dinheiro que juntem, jamais ter\u00e3o refinamento e classe &#8211; ao dirigir seus autom\u00f3veis de luxo, sempre ser\u00e3o vistos como motoristas.<\/p>\n<p>Agnes, aficcionada pelo vampirismo, entrega-se a ele, mesmo sabendo que ser\u00e1 a pr\u00f3xima v\u00edtima. Assim se faz c\u00famplice do homic\u00eddio que ir\u00e1 sofrer. Do ressentimento como motiva\u00e7\u00e3o de atos criminosos: Fala o seq\u00fcestrador: &#8220;Desnecess\u00e1rio dizer que nutria uma profunda, total, insuport\u00e1vel inveja de quem tinha aquilo que eu jamais conseguiria ter&#8230; invejava com todas as minhas for\u00e7as as pessoas que sabiam saborear vinhos finos&#8230;&#8221;. Vemos, a\u00ed, o fator inveja como gerador de feroz ressentimento (pg.9). Logo adiante, \u00e1 pg. 18, de novo a coincid\u00eancia com o conte\u00fado da cr\u00f4nica &#8220;Os olhos dos pobres&#8221;, de Baudelaire. O personagem se v\u00ea de fora do restaurante, vendo os felizes apaniguados da sorte, a se empanturrarem, l\u00e1 dentro, sob o conforto do ar refrigerado.<\/p>\n<p>\u00c9 mais que sabido: os olhos dos ricos s\u00e3o seletivos, fazem de tudo para n\u00e3o enxergar o mundo deplor\u00e1vel dos sem-tudo. Passam por eles e n\u00e3o v\u00eaem, quando s\u00e3o abordados, nos sem\u00e1foros, fecham os vidros, negam at\u00e9 responder aos pedidos, \u00e9 como se fossem invis\u00edveis as pessoas que as abordam. E s\u00e3o, mesmo. Como ficou provado em uma tese de doutorado, sobre a invisibilidade das pessoas que desempenham trabalhos humildes. Um servidor de uma universidade, conhecido por todos, fez uma experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Passou a circular pelos corredores da institui\u00e7\u00e3o com uniforme de zelador. Embora muito conhecido como varredor de lixo nunca mais foi visto. Tornou-se invis\u00edvel: &#8220;N\u00f3s nos olhamos por segundos, segundos apenas, e a senhora certamente n\u00e3o reparou no meu olhar de s\u00faplica, certamente nem notou, olhou simplesmente como se olha uma mancha na parede, um gato na cal\u00e7ada, uma bicicleta atravessando a rua, e depois esquece que viu a rachadura, a bicicleta, voltando a fazer o que fazia antes, sem se lembrar de nenhum registro do que viu&#8221;.<\/p>\n<p>O narrador\/personagem quer, atrav\u00e9s dos menores gestos, adentrar o pensamento e sentimentos da mulher que mant\u00e9m prisioneira. Vive no engano de pensar que o pensamento \u00e9 o \u00fanico instrumento capaz de veicular a verdade: &#8220;Eu queria saber o que a senhora estava pensando naquele momento ou, mais ainda, o que estava sentindo depois de ter depositado o copo sobre a mesa, de ter bebido o vinho; eu queria muito uma coisa, a senhora j\u00e1 quis muito uma coisa, muito mesmo, uma coisa?&#8221;. Eis um trecho de sua fala a revelar o quanto \u00e9 impositiva a ditadura do querer, e o sofrimento in\u00fatil do querer muito, do muito desejar ter ou realizar alguma coisa: a decep\u00e7\u00e3o, quando a coisa chega, (ou se nem chega|) \u00e9 inevit\u00e1vel. Assim como no mito da medusa, assim que um desejo \u00e9 alcan\u00e7ado, logo outro se levanta, coercitivo, ditatorial..<\/p>\n<p>Nas frases seguintes, novamente a quest\u00e3o do tempo \u00e9 colocada &#8211; sua efemeridade e urg\u00eancia, uma vez sabendo que o tempo nos salva ou nos mata: &#8220;Ent\u00e3o vai me compreender, eu queria muito uma coisa, e logo a senhora desviou o seu olhar e voltou a segurar a ta\u00e7a, e a levou outra vez aos l\u00e1bios, bebendo no m\u00e1ximo um gole de vinho, sem pressa, lentamente, como se o tempo n\u00e3o fosse precioso, como se nem existisse o tempo. Neste momento falei baixinho: me ensina, por favor!&#8221;<\/p>\n<p>A\u00ed vai colocada a solid\u00e3o e a exclus\u00e3o dos estrangeiros, dos exilados de sua p\u00e1tria e da felicidade, bem como a dos miser\u00e1veis, que t\u00eam de se contentar com a humildade de tirar retratos ao lado dos pol\u00edticos. Como nos diz o poeta Jos\u00e9 Godoy Garcia: &#8220;A humildade da prostituta que vai ao cinema, senta-se ao lado da mocinha, e se sente imunda&#8221;. Ou, tamanha \u00e9 a solid\u00e3o humana, que vem nos dizer o poeta Carlos Drummond de Andrade: &#8220;Chega um tempo em que n\u00e3o se diz mais\/ meu Deus\/ tempo de absoluta depura\u00e7\u00e3o.\/ Chega um tempo em que n\u00e3o se diz mais: meu amor\/ porque o amor resultou in\u00fatil.\/ E os olhos n\u00e3o choram\/ as m\u00e3os tecem apenas o rude trabalho\/ o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 seco&#8221;.<\/p>\n<p>Vemos, \u00e0 p\u00e1gina 20 de A Confiss\u00e3o, esp\u00e9cie de epifania a brotar da mente do personagem, em prece-pedido para ser ensinado a ter classe. Mas \u00e9 uma prece t\u00edmida, envergonhada, uma vez que confessa \u00e0 mulher seq\u00fcestrada: &#8220;Ningu\u00e9m ouviu, mas nem por isto deixou de ser uma prece, que nunca mais repeti, em momento algum, para ningu\u00e9m, nem para mim, foi s\u00f3 aquela vez&#8221;. A fala ag\u00f4nica, quase sem respiro, como de algu\u00e9m tem de desabafar, e o faz com agonia, temendo nunca mais ser capaz de faz\u00ea-lo. Neste momento epif\u00e2nico da prosa do personagem de Flavio Carneiro vemos a raiva reprimida do ressentido social a transformar-se em \u00eaxtase e submiss\u00e3o \u00e0 eleg\u00e2ncia e classe da mulher. Em ato falho, aponta para o ressentimento que nega, pois o v\u00ea como um sentimento inferior: &#8220;N\u00e3o, foi simplesmente uma verdade que atravessou o meu futuro&#8221;.<\/p>\n<p>Sim, n\u00e3o h\u00e1 como negar: h\u00e1 verdades e revela\u00e7\u00f5es que atravessam o futuro, podendo inclusive transformar nossa compreens\u00e3o do passado. E a verdade que atravessou o futuro do personagem, a partir de seu presente conflitado, \u00e9 esta: &#8220;Um dia vou matar essa mulher&#8221;. Aqui vemos respingos de um niilista, um revoltado, exclu\u00eddo social, do tipo Raskolnikov &#8211; assassino real ou em potencial, capaz de racionalizar, e at\u00e9 de tornar rom\u00e2ntico e libert\u00e1rio o seu gesto insano. Gesto desesperado e visceral, de algu\u00e9m que se acha com direito a aprisionar ou matar pessoas que considere in\u00fateis ou imprest\u00e1veis \u00e0 sociedade. Seq\u00fcestrar e matar, em nome de um ideal, uma cren\u00e7a, uma paix\u00e3o &#8211; eis o direito que a si mesmo concede o revoltado, o fan\u00e1tico, o revolucion\u00e1rio radical.<\/p>\n<p>Em lugar da raiva, a idolatria, a revelar o quanto as emo\u00e7\u00f5es podem misturar-se, serem filhas e irm\u00e3s umas das outras. N\u00e3o h\u00e1 nada mais perto do amor de apego, do amor equivocado, do que o \u00f3dio. &#8220;Quem sou eu para me julgar:&#8221; &#8211; eis a pergunta que se faz o seq\u00fcestrador, que assim se coloca acima de todo julgamento &#8211; acima das leis, portanto. Em sua vis\u00e3o, se ningu\u00e9m pode julgar ningu\u00e9m, todo ato \u00e9 l\u00edcito, por mais b\u00e1rbaro ou insano que seja. Um sentimento de solid\u00e3o ou onipot\u00eancia a ecoar a frase impactante deNietzsche: &#8220;Depois que Deus morreu tudo \u00e9 permitido!&#8221;.<\/p>\n<p>O outsider cujo prazer \u00e9 confessar-se e falar de seu v\u00edcio apropria-se das emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es de suas v\u00edtimas. Em sua inconsist\u00eancia de Ser, julga poder tornar-se inteiro (ou ele-mesmo) apropriando-se do requinte e do refinamento das mulheres que aprisiona em sua teia. A fala do seq\u00fcestrador \u00e9 um elogio ao poder das sensa\u00e7\u00f5es (sensacionismo). Exalta momentos de sensa\u00e7\u00e3o pura: &#8220;Ent\u00e3o precisava ser algo muito importante o que me fazia apagar do pensamento todas essas coisas desagrad\u00e1veis, para dizer o m\u00ednimo, e eu n\u00e3o queria admitir que esse algo eram dois cent\u00edmetros de uma mulher que eu jamais vira antes&#8221;. Para o fetichista, ou o sensacionista, a coisa, objeto ou corpo que move e alucina e move o seu desejo at\u00e9 a loucura \u00e9 a coisa mais importante deste mundo. Nada pode superar o frenesi que tal vis\u00e3o (ou alucina\u00e7\u00e3o) provoca: &#8220;Aqueles dois cent\u00edmetros&#8221;, para o fetichista, podem se tornar mais vastos que toda a Cordilheira dos Andes, ou ser mais alto do que os Himalaias, mais extensa do que os Canyons dos Estados Unidos&#8230;<\/p>\n<p>Na p\u00e1gina 22: &#8220;Sua naturalidade me comoveu; me comoveu tanto que cheguei a sentir uma ternura imensa, como nunca sentira antes&#8221;. A ternura antes da viol\u00eancia&#8230; estranha mistura, a lembrar, de maneira invertida, os versos de Mario Faustino: &#8220;N\u00e3o conseguiu firmar o nobre pacto\/entre a dor do mundo e a alma pura\/tanta viol\u00eancia, mas tanta ternura\/&#8221;. A quest\u00e3o tr\u00e1gica, em que se debate o nosso tempo tr\u00e1gico e tecnocr\u00e1tico \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o end\u00eamica da viol\u00eancia, sem um m\u00ednimo de ternura que venha a tornar humanas as cidades, suas casas e ruas.<\/p>\n<p>&#8220;Talvez o ato de escovar os dentes me desse a ilus\u00e3o de ter jantado&#8221; (pg. 24). Imagem que remete a lembran\u00e7a \u00e0 imagem de Carlitos, em um filme de Chaplin: lambendo os cadar\u00e7os e os pregos de uma bota, como se fossem espinhas de peixe. No mesmo filme, ele, o eterno gauche, imagina uma gigantesca galinha, que ele e o outro faminto tentam agarrar em v\u00e3o. Tamb\u00e9m em A Confiss\u00e3o, temos a cena pat\u00e9tica doauto-engano: mas o escovar os dentes (com muita pasta) para anestesiar o est\u00f4mago, e ter a ilus\u00e3o de ter jantado, n\u00e3o abafa nem esconde os roncos da Biafra da barriga vazia de p\u00e3o e de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que neste mundo c\u00e3o, em que o homem se transformou em lobo do pr\u00f3prio homem, como em uma fotografia famosa, de um abutre a esperar que um menino africano morra, para fazer dele seu almo\u00e7o, os humanos n\u00e3o t\u00eam a mesma considera\u00e7\u00e3o: n\u00e3o esperam que as pessoas morram, para come\u00e7ar a devor\u00e1-las. Hoje se tornou ato totalmente normal, comer pessoas vivas, com v\u00edsceras e tripas (ou dividi-las em muitos peda\u00e7os, como o assassino esquartejador Mohammed de Goi\u00e2nia). N\u00e3o antes de devorar suas almas, que s\u00e3o a primeira vitalidade a ser consumida. O &#8220;n\u00e3o gostar de viajar de gra\u00e7a&#8221;, aludido \u00e1 pg. 24, sinaliza o outsider (estrangeiro em sua casa ou p\u00e1tria), a tentar preservar um m\u00ednimo de dignidade e auto-estima.<\/p>\n<p>Nos come\u00e7os do cap\u00edtulo o protagonista se revela flaneur, dandi sem dinheiro, sem len\u00e7o e sem documento: &#8220;o sol nas bancas de revistas\/ me enche de alegria e pregui\u00e7a\/ quem l\u00ea tanta not\u00edcia&#8230;\/&#8221;. Assim vai o flaneur, pelas ruas da cidade, &#8220;nada no bolso ou nas m\u00e3os&#8221;, como na can\u00e7\u00e3o de Caetano Veloso. &#8220;Andar \u00e0 toa pela cidade me dava uma sensa\u00e7\u00e3o parecida com alegria. Eu me sentia bem, ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes&#8230;\/&#8221;. O simples prazer mental e f\u00edsico de andar pelas ruas at\u00e9 os m\u00fasculos doerem \u00e9 atitude t\u00edpica do flaneur, vagamundo requintado e pobre, nas ruas trepidantes da metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>E enquanto anda, vai sabendo de not\u00edcias repetidas, a lembrar a vertigem e o absurdo de um mundo que se despeda\u00e7a. De fato, h\u00e1 not\u00edcias demais na aldeia global, vidas de todas as m\u00eddias, e todas parecidas ou repetidas. Assim, se uma pessoa quiser economizar tempo, basta saber de uma para ver que j\u00e1 sabe de todas. Segue o protagonista: &#8220;Depois de chegar no meu quarto, na pens\u00e3o, tirar a cal\u00e7a e sapatos no ch\u00e3o, colocar os p\u00e9s para cima, encostados na parede, e ficar deitado, olhando o teto, sem fazer nada, sentindo o pequeno conforto de estar vivo&#8221;. Aqui temos o vivente urban\u00f3ide que se contenta com o m\u00ednimo essencial \u00e1 sobreviv\u00eancia. Sendo um misantropo ou AS (anti-social), diz que evitava as pessoas, como se fosse um bicho do mato. Em sua busca para recuperar um tempo que n\u00e3o foi vivido (portanto, n\u00e3o pode ser perdido) ele segue nos trilhos do conhecido &#8211; como todas as outras pessoas, faz um esfor\u00e7o in\u00fatil e absurdo, como o cachorro a tentar abocanhar o pr\u00f3prio rabo.<\/p>\n<p>Ele sabe, no entanto, que &#8220;As coisas est\u00e3o interligadas, sabemos disto, n\u00e3o sabemos?&#8221; (Pg. 36). Assim, s\u00f3 revendo o antes do antes podemos reconhecer o que veio depois, mas que veio de muita coisa mais &#8211; que o devir, quando vem, j\u00e1 \u00e9 presente, e n\u00e3o mais mera miragem da mente. Estranha teoria do seq\u00fcestrador: &#8220;Se algu\u00e9m morre, todos, os vivos, e os que j\u00e1 morreram, t\u00eam uma parcela de culpa naquela morte&#8221;. E como, em seu entender, todos s\u00e3o culpados por tudo de ruim que acontece no mundo, n\u00e3o h\u00e1 inoc\u00eancia em nenhuma parte da terra habitada pelo Homem. Com este racioc\u00ednio, o seq\u00fcestrador transfere \u00e0 mulher a culpa pelo crime de que \u00e9 v\u00edtima.<\/p>\n<p>Em sua autodefesa, alega n\u00e3o existirem motivos para o temerem, como se diz que devemos temer o Homem de um livro s\u00f3. Ele \u00e9 homem de muitos livros, portanto, t\u00e3o inocente e sem periculosidade quanto as pessoas de livro nenhum. Pois se o perigo destes \u00e9 a ignor\u00e2ncia, perigosos, de fato, s\u00e3o os que se tornam fan\u00e1ticos do \u00fanico livro que adoram! Ele, no entanto, diz pertencer a outra galeria: a do homem de muitos livros, mas estes n\u00e3o o pertencem, nem por eles \u00e9 pertencido. Sua rela\u00e7\u00e3o com os livros que rouba \u00e9 de total desapego, pois sabe que &#8220;o futuro \u00e9 s\u00f3 desvios&#8221;. Ele parece saber do princ\u00edpio da incerteza &#8211; talvez tenha lido um aforismo de Her\u00e1clito, para quem nesta vida tudo muda, s\u00f3 a mudan\u00e7a n\u00e3o muda.<\/p>\n<p>Mede o valor de um livro que rouba pelo n\u00famero de refei\u00e7\u00f5es (ou dias de aluguel) que pode pagar. E parece n\u00e3o estar distante de preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas: roubar dinheiro que est\u00e1 dentro de um livro raro \u00e9 pior do que roubar o pr\u00f3prio livro, deixando o dinheiro dentro de uma obra med\u00edocre? Ao menos este seria um roubo \u00e9tico, e culturalmente correto&#8230; em sinal de rever\u00eancia e respeito \u00e0 literatura \u00e9 que o fez hesitar em roubar n\u00e3o s\u00f3 o dinheiro, mas tamb\u00e9m o livro raro, em que estava escondido. O personagem adota a estrat\u00e9gia do p\u00e2nico: imaginar o pior que lhe aconteceria o que de pior pode acontecer a uma pessoa &#8211; assim, se escapasse do que imaginara, j\u00e1 estaria no lucro.<\/p>\n<p>Em seguida, fala dos medos mais comuns, reais ou imaginados, que a mente humana cria, em seu v\u00edcio de construir o inferno interior em que quase todos vivem. A transforma\u00e7\u00e3o crucial por que passa d\u00e1-se quando sente a alegria de se descobrir um ser dotado de paladar capaz de sentir o valor das comidas e bebidas requintadas. O \u00eaxtase de ter dinheiro no bolso, (coisa que n\u00e3o sentem os que sempre o t\u00eam com fartura &#8211; Pg. 51): &#8220;Era como se eu tivesse deixado a lata de lixo de um passado que de modo algum me agradava, como se a pens\u00e3o, a fome, o dono do sebo, o velho meu vizinho e todas as aporrinha\u00e7\u00f5es do mundo fizessem agora parte da vida de outra pessoa&#8221;.<\/p>\n<p>Mais adiante, intrigado sobre a circunst\u00e2ncia misteriosa da morte de Emma, admite ter consigo uma for\u00e7a mortal e mort\u00edfera, que leva as pessoas \u00e0 morte, t\u00e3o logo tenham com ele uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima: &#8220;Mas, raciocine comigo: se Agnes sabia de tudo, sabia tamb\u00e9m que ter uma rela\u00e7\u00e3o sexual comigo significava a sua morte&#8221;. Aqui fala o que se sabe vampiro da energia an\u00edmica das pessoas com quem se relaciona: &#8220;(&#8230;) n\u00e3o sabia o que havia acontecido entre mim e Emma, de onde viera aquela minha capacidade, v\u00e1 l\u00e1, de sugar de uma mulher o que ela possu\u00eda de mais valioso para mim&#8221;. Vampiro consciente de sua for\u00e7a destrutiva, suga das mulheres por quem se apaixona, suga o que h\u00e1 de mais precioso para si: a energia da vida, que no entanto n\u00e3o sabe cultivar nem conservar.<\/p>\n<p>Seu engano \u00e9 supor que possa se encontrar a partir de seu desencontro essencial. N\u00e3o alcan\u00e7ar\u00e1 a unidade por meio da fragmenta\u00e7\u00e3o de sua mente atormentada. Sendo interiormente um tumulto incoerente, n\u00e3o reidrata sua alma mumificada ao vampirizar suas v\u00edtimas. A morte que a que as destina n\u00e3o lhe devolve a vida que j\u00e1 n\u00e3o vibra em si. No final de seu longo mon\u00f3logo o outsider (estrangeiro em si mesmo) desiste de ser ou parecer her\u00f3i. Percebe a inutilidade e mesmo a impossibilidade disto. Volta a aceitar-se como homem comum e sem h\u00e1bitos requintados. O que equivale a dizer que renuncia a idealizar e romantizar a vida, at\u00e9 as raias do del\u00edrio e da loucura. Renuncia \u00e0 ansiedade que o fazia querer algu\u00e9m que n\u00e3o ele mesmo. Ao faz\u00ea-lo, renuncia tamb\u00e9m ao medo, que sabe ser o caos em si &#8211; inferno atualizado. Como o Coringa, do filme Batman, poderia dizer: &#8220;O que n\u00e3o nos mata nos torna estranhos&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-585","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}