{"id":577,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=o-leitor-fingido"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"o-leitor-fingido","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=o-leitor-fingido","title":{"rendered":"O leitor fingido"},"content":{"rendered":"<p>Meu pai \u00e9 cientista e um entusiasta de livros e artigos de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. De fato, este tipo de publica\u00e7\u00e3o exerce um papel fundamental, pois se torna mediador entre o conhecimento produzido dentro das universidades e os interesses do p\u00fablico em geral.<\/p>\n<p>De certo modo, no caso da minha \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, sempre enxerguei a boa cr\u00edtica liter\u00e1ria como uma esp\u00e9cie de &#8220;divulgadora da literatura&#8221;. Claro, \u00e0 cr\u00edtica outras fun\u00e7\u00f5es cabem, contudo sempre procuro estudar e debater textos liter\u00e1rios tendo em mente este aspecto.<\/p>\n<p>Acredito que o <em>Leitor fingido<\/em>, escrito por Fl\u00e1vio Carneiro e que li este final de semana, entre um jogo e outro da Copa, tenha sido escrito com este prop\u00f3sito. Carneiro \u00e9 professor, cr\u00edtico liter\u00e1rio, escritor. Conheci-o este ano, aqui no Recife, durante os cursos promovidos pelo Ita\u00fa Cultural.<\/p>\n<p>Trata-se de um livro muito bom de ler e que nos apresenta diversos aspectos do debate sobre a leitura. Um dos acertos de Carneiro consiste em evidenciar na pr\u00f3pria escrita o ato de leitura. Na primeira parte do livro, por exemplo, &#8220;Atrav\u00e9s do espelho (e o que o leitor encontrou l\u00e1) &#8221;, temos um conjunto de considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas sobre leitura e autoria, intercaladas com trechos intimistas, na qual s\u00e3o praticadas misturas entre fic\u00e7\u00e3o-cr\u00f4nica-memorialismo. \u00c9 evidente o clima de intimidade que o livro deseja criar com aqueles que se prop\u00f5em a l\u00ea-lo e isto me agradou.<\/p>\n<p>A leveza do texto de Carneiro, contudo, \u00e0s vezes o vitima . Sim, estamos diante muito mais de um livro de &#8220;divulga\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria&#8221;, do que um tomo de teoria sobre a leitura e a escrita. Isto est\u00e1 claro e \u00e9 muito v\u00e1lido, como salientei. No entanto, em pelo menos dois pontos eu queria que o autor tivesse aprofundado. Primeiro, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o que Foucault possui do autor &#8211; como n\u00e3o concordo inteiramente com ela, gostaria de ter visto mais desenvolvimento sobre isso. N\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de explicitar a discord\u00e2ncia aqui, mas penso que h\u00e1 uma certa disposi\u00e7\u00e3o paran\u00f3ica nessa ideia de que o autor foi substitu\u00eddo por uma &#8220;fun\u00e7\u00e3o autor&#8221;. Ser\u00e1 mesmo? Talvez eu esteja caindo na ideologia &#8220;burguesa&#8221;, contudo ainda aposto que h\u00e1 algum tipo de individualidade poss\u00edvel, principalmente na escrita. Ou o pr\u00f3prio Foucault n\u00e3o seria um autor personal\u00edssimo?<\/p>\n<p>Na p\u00e1gina 61, Carneiro come\u00e7a a falar do que o leva a n\u00e3o gostar de um livro, mas encerra de forma curta demais. Acho que teria sido um t\u00f3pico bem bacana para se explorar. Penso, contudo, neste exato momento, que de certa forma a segunda parte do livro, na qual Carneiro l\u00ea uma s\u00e9rie de textos sob o foco de como metaforizam a leitura, continua esta discuss\u00e3o de valores, pois s\u00e3o apontados no texto elementos que os tornam t\u00e3o interessantes.<\/p>\n<p>Ainda na primeira parte, uma das  melhores coisas que aprendi foi sobre os <em>hypomnemata<\/em>:<\/p>\n<p>&#8220;Eram cadernos nos quais os fil\u00f3sofos anotavam suas leituras. Junto a considera\u00e7\u00f5es esparsas, envolvendo os mais variados temas e depoimentos pessoais sobre fatos presenciados durante o dia ou ouvidos de algu\u00e9m, eram registrados tamb\u00e9m fragmentos de obras, cita\u00e7\u00f5es&#8221; (p.62)<\/p>\n<p>Parecido com um blog, n\u00e3o? Isto me lembra um artigo de Ruffato que tamb\u00e9m li esses dias, no Rascunho, elogiando a cr\u00f4nica. Parece existir, o <em>Leitor fingido<\/em> nos mostra, a necessidade de uma experi\u00eancia com a linguagem que passe pelo campo do fragmento, da impress\u00e3o, do cotidiano; desta forma, temos mais uma ferramenta de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento de si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Na segunda e \u00faltima parte, &#8220;\u00c1lbum de retratos (o leitor em branco &amp; preto) &#8221;, mem\u00f3ria e ficcionalidade mais uma vez se misturam, desta vez \u00e0 cr\u00edtica liter\u00e1ria; Machado de Assis, Rubem Fonseca, Italo Calvino, Jorge Luis Borges e Jo\u00e3o Gilberto Noll s\u00e3o alguns dos escritores analisados por Carneiro. A ideia que costura todas as an\u00e1lises \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que o ato de leitura \u00e9 um dos mais importantes temas da literatura; n\u00e3o necessariamente no sentido da metafic\u00e7\u00e3o, como em Borges, Piglia, Bola\u00f1o, Osman e Vila-Matas (belo time, n\u00e3o?), por\u00e9m num sentido mais amplo. Desta maneira, percebemos uma das melhores contribui\u00e7\u00f5es que a literatura pode dar para a gente: a de ajudar a nos tornarmos melhores leitores das p\u00e1ginas abertas dentro do mundo.<\/p>\n<p>Aqui, um elogio e uma cr\u00edtica; primeiro, \u00e9 muito interessante que Carneiro pratique a releitura, um dos aspectos do ato de ler que foi elogiado na primeira parte. Desta forma, alguns textos s\u00e3o lidos duas vezes, em cap\u00edtulos alternados, revelando novos aspectos que a primeira an\u00e1lise n\u00e3o mostrou. No tocante \u00e0 ressalva, esta \u00e9 semelhante a da primeira parte: algumas terminam cedo demais e ficam muito ligeiras.<\/p>\n<p>Enfim, o livro de Carneiro me passou aquilo que acredito tenha sido sua voca\u00e7\u00e3o primeira: o prazer de ler; prazer ora delicado, ora perturbador.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-577","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}