{"id":573,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=jangada-de-areia"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"jangada-de-areia","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=jangada-de-areia","title":{"rendered":"Jangada de areia"},"content":{"rendered":"<p>Com <em>A Ilha<\/em>, o escritor goiano Fl\u00e1vio Carneiro fecha a sua Trilogia do Rio de Janeiro, iniciada com <em>A Confiss\u00e3o<\/em> (que resenhamos aqui em 15 de dezembro de 2007), tendo como segundo volume <em>O Campeonato<\/em>, de 2002.<\/p>\n<p>Um dos mais interessantes projetos da literatura brasileira da atualidade, a trilogia trabalha obras fronteiri\u00e7as entre o mainstream liter\u00e1rio nacional e a fic\u00e7\u00e3o popular de g\u00eanero: o primeiro livro se aproxima do horror sobrenatural, com uma hist\u00f3ria de um vampiro emocional carioca; o segundo dialoga com a fic\u00e7\u00e3o de crime; e, finalmente, A Ilha \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que evoca a nobre tradi\u00e7\u00e3o da utopia.<\/p>\n<p>No Brasil, a utopia e sua g\u00eamea do mal, a distopia, t\u00eam uma longa hist\u00f3ria. Na d\u00e9cada de 1920 tivemos um Ciclo de Panfletos Ut\u00f3picos que defendia a eugenia e a higieniza\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00f5es para o subdesenvolvimento tupiniquim. Cinquenta anos depois, o mainstream recrutou as duas irm\u00e3s para, veladamente, satirizar a ditadura militar e a tecnocracia que o acompanhava. Na primeira fase, nomes como Monteiro Lobato e Rodolpho Te\u00f3philo; e na segunda, Ruth Bueno, Chico Buarque, Andr\u00e9 Carneiro e Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Carneiro escapa das armadilhas desses dois momentos anteriores, j\u00e1 que evita ser prescritivo ou abertamente cr\u00edtico, num romance que dialoga com nada menos que <em>A Utopia<\/em> (1516), de Thomas More (1478-1535), tamb\u00e9m ambientado em uma ilha. Mas se trata de um di\u00e1logo discreto, conduzido de modo apenas alusivo. Tamb\u00e9m de maneira muito condizente com o projeto geral da trilogia, o livro convoca outros di\u00e1logos intertextuais: um trecho das praias do Rio de Janeiro, centrado em torno do Leme at\u00e9 o Morro de Santa Teresa e a Lagoa Rodrigo de Freitas, separa-se do continente e passa a vagar pelo Atl\u00e2ntico &#8211; como acontece com Portugal, em <em>A Jangada de Pedra<\/em> (1986), do nobelista Jos\u00e9 Saramago (1922-2010).<\/p>\n<p>Garrafas come\u00e7am a chegar \u00e0 praia, contendo em seu interior mapas artesanais. Por meio desses, alguns dos moradores v\u00e3o se dando conta de que a sua ilha pode estar se dirigindo de volta ao continente. Esses personagens &#8211; Bernardo e Clara, Pepe e Catarina, Andador e seu cachorro &#8211; se sentem intrigados pela possibilidade, e come\u00e7am a se perguntar como isso seria poss\u00edvel. A primeira hip\u00f3tese levantada seria a da deriva tect\u00f4nica, fen\u00f4meno natural que, cientificamente, nunca poderia explicar o deslocamento. Mais tarde, uma complexa teoria high-tech passa a tomar forma, envolvendo clonagem e uma tecnologia revolucion\u00e1ria que permitiria a recria\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria complexa. Ao mesmo tempo em que os dois casais (em especial) realizam a sua investiga\u00e7\u00e3o &#8211; a partir da sua sociedade low tech -, pessoas e depois constru\u00e7\u00f5es inteiras come\u00e7am a desaparecer da ilha.<\/p>\n<p>A fonte dessa teoria sobre a qual eles especulam \u00e9 um romance de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica chamado <em>O Projeto Genesis,<\/em> escrito por um certo P. D. Deckard &#8211; nome que traz o renomado autor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982) para o jogo intertextual de Carneiro. A exegese dessa obra de &#8220;Deckard&#8221; (hom\u00f4nimo do her\u00f3i de <em>O Ca\u00e7ador de Andr\u00f3ides<\/em>, livro inspirador do filme <em>Blade Runner<\/em>) \u00e9 que fornece as pistas que os casais de protagonistas investigam. O romance de Carneiro, por\u00e9m, n\u00e3o tem nada do clima de paranoia habitual em Dick, e a investiga\u00e7\u00e3o do que se passa na ilha n\u00e3o leva os protagonistas a situa\u00e7\u00f5es de perigo nem a descobertas que ameacem as suas identidades. Ao contr\u00e1rio, mesmo com os desaparecimentos, a vida na ilha segue mansa, e os protagonistas parecem t\u00e3o interessados um no outro quanto na resolu\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>O autor n\u00e3o caracteriza a vida ut\u00f3pica na ilha, seja em termos pol\u00edticos ou sociais. \u00c9 essa vida mansa praiana &#8211; amparada por uma prosa agrad\u00e1vel, impregnada de do\u00e7ura e calor humano &#8211; uma das poucas pistas que o leitor tem para compreender como funciona a alegoria no romance. A alegoria de <em>A Jangada de Pedra<\/em> remete a um sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o de Portugal, em rela\u00e7\u00e3o ao restante da Europa. Em <em>A Ilha<\/em>, parece sugerir que um certo esp\u00edrito carioca, rom\u00e2ntico, descomplicado e singelo, s\u00f3 poderia sobreviver com a sua separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica do resto do Brasil. Por isso, minha tend\u00eancia \u00e9 associar o teor do livro \u00e0 minha ideia de um &#8220;sonho brasileiro&#8221; de vida mansa pr\u00f3xima \u00e0 natureza, que estaria presente na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica brasileira desde, por exemplo, a novela ut\u00f3pica <em>Zanzal\u00e1<\/em> (1936) de Afonso Schmidt (1890-1964). E nesse mesmo sentido, \u00e9 interessante contrapor <em>A Ilha<\/em> ao romance tupinipunk de Fausto Fawcett, <em>Santa Clara Poltergeist<\/em> (1991), com seu relato dist\u00f3pico e desumanizado de Copacabana.<\/p>\n<p>Mas <em>A Ilha<\/em> n\u00e3o se resume \u00e0 evoca\u00e7\u00e3o de um sonho brasileiro que parece amea\u00e7ado &#8211; literalmente em desintegra\u00e7\u00e3o &#8211; pelo retorno a (ou advento de) uma realidade nacional que n\u00e3o lhe d\u00e1 amparo, mas traz nova inst\u00e2ncia do tipo de dramatiza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o autor\/leitor que Fl\u00e1vio Carneiro j\u00e1 havia favorecido em A Confiss\u00e3o. Desta vez, o narrador partilha do espa\u00e7o em que vivem os personagens, e aponta situa\u00e7\u00f5es e cenas a um &#8220;leitor&#8221; que \u00e0s vezes parece estar ao seu lado, olhando de longe ou de perto por uma janela metaf\u00f3rica que representa o foco narrativo. Ele pode estar organicamente ligado \u00e0s situa\u00e7\u00f5es do romance como um supervisor ou observador daquele grande experimento aludido nas teorias de Bernardo e Clara, Pepe e Catarina. Nos livros da Trilogia do Rio de Janeiro, Carneiro parece estar criando a sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica metaficcional.<\/p>\n<p>Livre de perip\u00e9cias e sem um enredo estrito, a narrativa de <em>A Ilha<\/em> caminha num espa\u00e7o de indetermina\u00e7\u00e3o entre afirma\u00e7\u00e3o e d\u00favida. Um projeto engenhoso e intrigante, um bom momento daquela tend\u00eancia dominante da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica feita no Brasil, que emprega as imagens do g\u00eanero com objetivos program\u00e1ticos e est\u00e9ticos pr\u00f3prios do mainstream liter\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-573","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/573","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}