{"id":571,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=paisagens-cariocas-num-cenario-de-ficcao-cientifica"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"paisagens-cariocas-num-cenario-de-ficcao-cientifica","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=paisagens-cariocas-num-cenario-de-ficcao-cientifica","title":{"rendered":"Paisagens cariocas num cen\u00e1rio de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica"},"content":{"rendered":"<p>Com o romance <em>A ilha<\/em>, Fl\u00e1vio Carneiro completa a Trilogia do Rio de Janeiro. Depois de <em>O campeonato<\/em> (2002) e <em>A confiss\u00e3o<\/em> (2006), o escritor goiano radicado no Rio embarca numa fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Vem de um futuro primitivo o lugar do narrador, velho bibliotec\u00e1rio franciscano que tem o prazer de dar as m\u00e3os ao leitor em passeios por um peda\u00e7o de terra cercado de \u00e1gua por todos os lados, o de baixo inclusive.<\/p>\n<p>Na ilha flutuante, ouvimos a voz desse narrador, que as frases fazem reverberar de modo suavemente rouco. O texto tem uma delicadeza que lhe confere quase inexplic\u00e1vel simpatia (a da imagem idealizada de um frade, talvez). E, tal como uma despretensiosa c\u00e2mera cinematogr\u00e1fica, deposita o olhar levando em conta o tempo necess\u00e1rio para ver. Por isso, permite ao autor entrar por terrenos mais densos, a princ\u00edpio menos propensos \u00e0 compreens\u00e3o do dito leitor comum.<\/p>\n<p>O projeto liter\u00e1rio de Carneiro sup\u00f5e di\u00e1logos com g\u00eaneros consagrados junto ao p\u00fablico, sem jamais perder a tens\u00e3o da teoria. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil manter essa jun\u00e7\u00e3o no equil\u00edbrio da balan\u00e7a, seja no policial, no fant\u00e1stico ou na <em>science fiction<\/em>. O entretenimento tende a afastar os conceitos. Em sua constante e expl\u00edcita metanarrativa, <em>A ilha<\/em> abre uma brecha para esse encontro.<\/p>\n<p>O narrador \u00e9 um prestador de contas. Da janela que enquadra tudo do alto do convento, ele nos orienta. Sim, como um pan\u00f3ptico em que os presos s\u00e3o os habitantes da ilha e n\u00f3s, vigilantes leitores. Diz o que \u00e9 poss\u00edvel ver e ouvir. Lamenta n\u00e3o alcan\u00e7ar determinada conversa entre personagens. Onisci\u00eancia controlada. Falta-lhe \u00e0s vezes alguma ironia, sobram em outras ocasi\u00f5es cristianismo e didatismo, o que conv\u00e9m ao narrador sendo ele quem \u00e9, mas o que tamb\u00e9m irrita o leitor que n\u00e3o pretende sempre ser tutelado.<\/p>\n<p>H\u00e1 um embate entre presente e futuro, passado e presente, passado e futuro. O jogo de espelhos \u00e9 o do tempo da narrativa, assim como est\u00e1 entre os lugares da esperan\u00e7a dos personagens, que querem saber se o continente (o outro, afinal) existe ou n\u00e3o. Como boa praxe em toda sua obra, Fl\u00e1vio Carneiro ainda tematiza as no\u00e7\u00f5es e os significados da leitura, al\u00e9m, claro, da perspectiva de sua perman\u00eancia no passar das horas e dos dias.<\/p>\n<p>A ilha (em si) \u00e9 imagem de partes do Rio de Janeiro (Leblon, Leme, Lagoa e outras) reinventadas, descoladas do continente. \u201cL\u00e1 est\u00e1 a imensa pedra que chamamos de Arpoador, onde alguns dos ilh\u00e9us gostam de se reunir para ver o p\u00f4r do sol.\u201d Ou: \u201cN\u00e3o temos conosco a luneta de Pepe mas a janela nos concede uma compensa\u00e7\u00e3o ao franquear passagem a uma esquina do morro de Santa Teresa, permitindo uma imagem do bar onde homens e mulheres conversam sobre o mesmo assunto: outras pessoas sumiram.\u201d<\/p>\n<p>Cidade Ideal (em mai\u00fasculas), maravilhosa, sonho de harmonia e perfei\u00e7\u00e3o que apenas a ci\u00eancia dentro da literatura seria capaz de criar. Pr\u00e9dios n\u00e3o existem para desabar. Bueiros n\u00e3o explodem. N\u00e3o \u00e0 toa, h\u00e1 refer\u00eancias \u00e0 <em>Utopia<\/em> de S\u00e3o Thomas More, ao <em>Dom Quixote<\/em> de Miguel de Cervantes e \u00e0 <em>B\u00edblia<\/em>, particularmente ao <em>Livro do G\u00eanesis<\/em>. Imposs\u00edvel n\u00e3o pensar tamb\u00e9m no filme <em>O show de Truman.<\/em><\/p>\n<p>Para os f\u00e3s de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, Carneiro deixa algumas pegadas. Por exemplo: o autor de um romance dentro do romance (crucial para a trama, diga-se) se chama P. D. Deckart, refer\u00eancia direta a um personagem do escritor Philip K. Dick, amado por dez entre dez leitores do g\u00eanero. Para os mais cin\u00e9filos, a refer\u00eancia \u00e9 o filme<em> Blade Runner<\/em>. E n\u00e3o se pode esquecer que um livro de Aldous Huxley leva o mesmo t\u00edtulo, tamb\u00e9m girando em torno de uma sociedade ideal.<\/p>\n<p>Na ilha liter\u00e1ria de Fl\u00e1vio Carneiro reside a vontade de que o renascimento se d\u00ea com suavidade e, ao mesmo tempo, com bastante determina\u00e7\u00e3o. Sobretudo, me parece, o autor reivindica um lugar especial para o livro e a literatura, em que entram todos os Cruso\u00e9s loucos para fugir da realidade. Porque ela, realidade, teria naufragado nas m\u00e3os dos homens da racionalidade e da paix\u00e3o absolutas, de hoje e do porvir que j\u00e1 n\u00e3o soa t\u00e3o inveross\u00edmil.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-571","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/571","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}