{"id":570,"date":"2026-09-22T11:43:03","date_gmt":"2026-09-22T11:43:03","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=experimento-cientifico"},"modified":"2026-09-22T11:43:03","modified_gmt":"2026-09-22T11:43:03","slug":"experimento-cientifico","status":"publish","type":"comentario","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?comentario=experimento-cientifico","title":{"rendered":"Experimento cient\u00edfico"},"content":{"rendered":"<p><b>A Ilha<\/b> \u00e9 a terceira obra da trilogia romanesca de Fl\u00e1vio Carneiro, que se inicia com <strong>O campeonato<\/strong> (2002, reeditada em 2009) e prossegue com <strong>A confiss\u00e3o<\/strong> (2006). A trilogia constitui uma esp\u00e9cie de experi\u00eancia liter\u00e1ria, por meio da qual o escritor efetiva um di\u00e1logo com tr\u00eas vertentes ficcionais de ineg\u00e1vel for\u00e7a na contemporaneidade: os g\u00eaneros policial e fant\u00e1stico, no primeiro e segundo volumes, respectivamente; e a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, no livro mais recente. Desse modo, o <em>tour de force<\/em> liter\u00e1rio \u00e9 conclu\u00eddo com uma obra que, se n\u00e3o deixa de ser uma experi\u00eancia liter\u00e1ria, tem como assunto fulcral uma experi\u00eancia cient\u00edfica; e que, para al\u00e9m disso, acaba por tratar deste tema fundamental que \u00e9 a experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p>A ilha que intitula o romance, vale dizer, \u00e9 o Rio de Janeiro &#8211; ou, mais precisamente, a c\u00f3pia de um peda\u00e7o da capital fluminense, que preserva diversas de suas paisagens caracter\u00edsticas: o Leme, a Lagoa, o morro de Santa Teresa. No \u00e2mbito da obra, trata-se do produto de um sofisticad\u00edssimo processo de pesquisas e inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, que envolve desde m\u00faltiplas formas de clonagem (da humana \u00e0 mineral) at\u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o artificial de antimat\u00e9ria. Trata-se, em outras palavras, de uma ilha replicada, habitada por clones humanos, cuidadosamente planejada para constituir uma esp\u00e9cie de realidade ut\u00f3pica, de modo a oferecer poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para os problemas de um planeta no qual a vida, em meados do s\u00e9culo 21, j\u00e1 se revelava invi\u00e1vel. Toda a hist\u00f3ria do empreendimento \u00e9 minuciosamente constru\u00edda pelo autor, que se dedicou a fabular avan\u00e7os cient\u00edficos talvez n\u00e3o t\u00e3o implaus\u00edveis &#8211; sobretudo se levarmos em conta que seu ponto de partida s\u00e3o feitos reais, como a pioneira cria\u00e7\u00e3o de vida sint\u00e9tica, em 2010, pelo bi\u00f3logo estadunidense Craig Venter. N\u00e3o obstante, conquanto a dimens\u00e3o propriamente cient\u00edfica da obra seja elaborada com min\u00facia, <strong>A ilha<\/strong> est\u00e1 longe de ser um livro composto apenas por exibi\u00e7\u00f5es de erudi\u00e7\u00e3o ou pedantismo; \u00e9 esta a obra de um autor que sabe como explorar habilmente os dilemas de seus personagens, para os quais as quest\u00f5es tecnol\u00f3gicas representam, com efeito, chaves capazes de explicar lancinantes dilemas existenciais.<\/p>\n<p>Bernardo, o jovem franciscano enamorado pela bel\u00edssima Clara, e Catarina, audaciosa adolescente, amiga de Bernardo &#8211; por quem, ali\u00e1s, nutre amb\u00edguos afetos -, s\u00e3o duas das figuras que acabam por se envolver na tarefa de explicar o que \u00e9 aquela ilha que habitam e que se torna subitamente o palco de estranhos acontecimentos. O primeiro ind\u00edcio s\u00e3o tr\u00eas garrafas que inesperadamente aparecem, trazendo tr\u00eas mapas similares (que apresentam, contudo, cruciais diferen\u00e7as entre si: a posi\u00e7\u00e3o em que neles surge representada a ilha, mais ou menos pr\u00f3xima de um continente figurado a certa dist\u00e2ncia; frases neles gravadas, na verdade vers\u00edculos do G\u00eanesis b\u00edblico). Os jovens, assim como Pepe &#8211; inventor e mestre de Bernardo e de Andador, o louco da ilha que tem como fiel acompanhante e \u00fanico ouvinte seu cachorro, Ramon -, acabar\u00e3o por conhecer o segredo da ilha, sua estranha origem e seu terr\u00edvel futuro; isso n\u00e3o significa, no entanto, que sejam capazes de mudar seus pr\u00f3prios destinos, insepar\u00e1veis daquele peda\u00e7o de terra flutuante. Com efeito, quanto mais as coisas se esclarecem, mais se torna claro qu\u00e3o desesperadora \u00e9 a sua situa\u00e7\u00e3o. As respostas, t\u00e3o buscadas, s\u00e3o ao fim simplesmente in\u00fateis &#8211; e n\u00e3o \u00e9 acidental que estejam encerradas numa obra de fic\u00e7\u00e3o, criada no \u00e2mbito de uma outra obra.<\/p>\n<p>De fato, \u00e9 atrav\u00e9s de um romance que os protagonistas de <strong>A ilha<\/strong> descobrem como e por que foram parar na condi\u00e7\u00e3o em que se encontram; um romance que, sob a m\u00e1scara da literatura, encerra verdades inconvenientes acerca de um projeto que leva as inova\u00e7\u00f5es cient\u00edficas a n\u00edveis assombrosos &#8211; e perigosos. &#8220;O que soa como tola fic\u00e7\u00e3o pode ser apenas o futuro, em vias de se tornar realidade&#8221;, lemos a certa altura. Nesse patente desprezo \u00e0 mat\u00e9ria ficcional, aguda den\u00fancia do pragmatismo contempor\u00e2neo, vislumbra-se o quanto Fl\u00e1vio Carneiro concebe sua pr\u00f3pria obra como uma admoesta\u00e7\u00e3o, cuja pertin\u00eancia \u00e9 indiscut\u00edvel. A literatura, apesar de suas &#8220;tolices&#8221;, diz mais sobre os homens do que sonha a v\u00e3 tecnocracia.<\/p>\n<p><strong>A ilha<\/strong> \u00e9, afinal, um livro tr\u00e1gico. E o que confere maior for\u00e7a a essa dimens\u00e3o do romance \u00e9 precisamente a leveza da narrativa, que habilmente joga com as expectativas do leitor. \u00c9 a hist\u00f3ria de homens que s\u00e3o v\u00edtimas de outros homens, cuja busca por solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas acaba por eliminar qualquer vest\u00edgio de humanismo, capazes de reduzir seus semelhantes a meros elementos de um experimento cient\u00edfico, eliminando-os sumariamente quando os resultados s\u00e3o alcan\u00e7ados. Na contram\u00e3o de tend\u00eancias reacion\u00e1rias que grassam na contemporaneidade, Fl\u00e1vio Carneiro faz essa den\u00fancia sem recorrer a apelos moralistas ou ao obscurantismo anticient\u00edfico; manejando os instrumentos de que disp\u00f5e &#8211; os liter\u00e1rios -, comp\u00f5e um romance que pode, sem favor, ser qualificado como uma pequena obra-prima.<\/p>\n","protected":false},"template":"","class_list":["post-570","comentario","type-comentario","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario\/570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/comentario"}],"about":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/comentario"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}