{"id":22,"date":"2026-09-10T21:31:56","date_gmt":"2026-09-10T21:31:56","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?post_type=book&#038;p=22"},"modified":"2026-09-10T21:31:56","modified_gmt":"2026-09-10T21:31:56","slug":"o-leitor-fingido","status":"publish","type":"book","link":"https:\/\/escritorflaviocarneiro.jiap.com.br\/wp\/?book=o-leitor-fingido","title":{"rendered":"O Leitor Fingido"},"content":{"rendered":"<p>Ler, assim como escrever, \u00e9 uma arte. \u00c9 na rela\u00e7\u00e3o entre leitura e escrita que s\u00e3o forjados os grandes cl\u00e1ssicos da literatura, os elos inquebrant\u00e1veis entre leitor e autor. Rela\u00e7\u00f5es que surgem nas impress\u00f5es que o texto provoca no leitor e, por que n\u00e3o, que o leitor provoca no texto, nos in\u00fameros detalhes de uma trama policial, na for\u00e7a emocional de um poema ou um romance, na carga hist\u00f3rica e cr\u00edtica pol\u00edtica que est\u00e1 nas entrelinhas do mais simples par\u00e1grafo de um conto. O escritor Fl\u00e1vio Carneiro explora, e extrapola, todos estes aspectos em O leitor fingido.<\/p>\n<p>Dessa vez, Fl\u00e1vio se coloca do outro lado do papel para analisar a rela\u00e7\u00e3o com o texto a partir do ponto de vista do leitor. O livro \u00e9 dividido em duas partes. Ambas falam sobre leitura, mas Fl\u00e1vio Carneiro vai al\u00e9m da palavra escrita, falando tamb\u00e9m de outras linguagens, como a cinematogr\u00e1fica. A primeira parte,<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do espelho (e o que o leitor encontrou l\u00e1)<\/p>\n<p>&#8211; t\u00edtulo inspirado no livro de Lewis Carroll, comp\u00f5e-se de fragmentos diversos sobre o tema. S\u00e3o divaga\u00e7\u00f5es do autor das poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es entre escrever e ler. Tais considera\u00e7\u00f5es aparecem entremeadas por breves narrativas envolvendo um suposto leitor &#8211; o leitor fingido &#8211; a meio caminho entre a biografia e a fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da rela\u00e7\u00e3o que Fl\u00e1vio estabelece entre o fil\u00f3sofo romano S\u00eaneca e o cineasta russo Sergei Eisenstein. No texto, o autor identifica nos pensamentos de ambos algo mais do que a jun\u00e7\u00e3o de dois ou mais elementos distintos: no texto, das palavras; no caso do cinema a t\u00e9cnica da montagem, que n\u00e3o s\u00f3 uniria duas ou mais imagens mas, sim, criaria um novo elemento que vai transcender aquelas imagens que a formam.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Carneiro tamb\u00e9m bebe na obra<\/p>\n<p>A arte de ler<\/p>\n<p>, do escritor \u00c9mile Faguet, na qual o franc\u00eas diz que n\u00e3o h\u00e1 uma, mas in\u00fameras formas de ler. O autor defende ainda que se leia sempre devagar, n\u00e3o no sentido pregui\u00e7oso que se sugere, mas ler e reler, &quot;desconfiando&quot; do texto, como uma forma de se descobrir algo novo sempre a cada leitura e releitura. Esse ato de descoberta tamb\u00e9m ganha potencial por conta da complexa rela\u00e7\u00e3o entre autor e obra, na qual o autor n\u00e3o tem apenas um, mas v\u00e1rios &quot;eus&quot;, que est\u00e3o em constante metamorfose ao longo do texto, como defende Foucault.<\/p>\n<p>J\u00e1 a segunda parte do livro &#8211;<\/p>\n<p>\u00c1lbum de retratos (o leitor em branco &amp; branco)<\/p>\n<p>&#8211; mostra ensaios curtos sobre personagens leitores, tomados de contos e romances diversos. A ideia foi formar uma esp\u00e9cie de galeria (ou \u00e1lbum de retratos) de tipos de leitor, espelhados em personagens e obras da predile\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Carneiro.<\/p>\n<p>Em &quot;O leitor amoroso&quot;, por exemplo, Fl\u00e1vio toma por base o conto &quot;Felicidade clandestina&quot;, de Clarice Lispector, para analisar a rela\u00e7\u00e3o, quase er\u00f3tica, entre a menina que adorava ler, mas n\u00e3o tinha como comprar livros, e o livro que lhe \u00e9 oferecido em troca de sua sujei\u00e7\u00e3o a v\u00e1rias humilha\u00e7\u00f5es impostas pela menina gorda cujo pai \u00e9 dono de uma livraria. \u00c9 na rela\u00e7\u00e3o quase carnal, de paix\u00e3o entre a menina pobre e seu objeto de desejo que Carneiro desenvolve a reflex\u00e3o sobre o amor pela leitura.<\/p>\n<p>Em outro ensaio, &quot;O leitor e o prazer&quot;, o autor analisa a figura do detetive amador Dupin, de<\/p>\n<p>O crime da rua Morgue<\/p>\n<p>, de Edgar Allan Poe. O autor goiano credita \u00e0 habilidade \u00fanica que o personagem tem de ler e decifrar o que l\u00ea &#8211; e o prazer que isto lhe proporciona &#8211; ao sucesso nas descobertas dos mist\u00e9rios propostos por Poe em sua obra.<\/p>\n<p>O leitor fingido<\/p>\n<p>\u00e9 uma homenagem que Fl\u00e1vio Carneiro faz a um personagem que muitas vezes \u00e9 esquecido na literatura, mas \u00e9 o determinante para a perpetua\u00e7\u00e3o da escrita &#8211; seja ela em que linguagem for: o leitor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ler, assim como escrever, \u00e9 uma arte. \u00c9 na rela\u00e7\u00e3o entre leitura e escrita que s\u00e3o forjados os grandes cl\u00e1ssicos da literatura, os elos inquebrant\u00e1veis entre leitor e autor. 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