Flávio Carneiro Escritor · Crítico · Roteirista
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Páginas de espelho: notas sobre o duplo em Sérgio Sant’Anna

Publicado em Sérgio Sant'Anna: cartografia crítica. Org.: Giovanna Dealtry e Igor Ximenes Graciano. Brasília: Edições Carolina, 2022.

Na obra do escritor que sobe ao palco neste livro – justa homenagem –, o duplo ocupa lugar fundamental. Dos muitos contos, novelas, romances (alguns dos quais citados aqui, mais adiante) em que se dá essa presença, gostaria de destacar O voo da madrugada, de 2003. Comecemos por uma breve divagação sobre como, no conto que dá título ao volume, o duplo se articula com o fantástico. Se definir com precisão um gênero literário é algo difícil (alguns dirão que se trata de um exercício no reino do imponderável), em se tratando do fantástico a tarefa é um pouco mais complicada, em especial porque implica definir um conceito no seu cruzamento com outro, igualmente complexo, o de realidade, ou, ainda, realidade e imaginação, mediadas (ou criadas, dependendo de como as vejamos) pela linguagem, particularmente a literária ou, recortando mais ainda, a da prosa de ficção. Das várias possibilidades teóricas de trabalhar o conceito, a que mais se ajusta ao que pretendo anotar aqui – a respeito do duplo em Sérgio Sant’Anna – ainda é a clássica formulação de Todorov, em Introdução à literatura fantástica (2004). Para Todorov, o fantástico só existe na incerteza. Diante de um evento sobrenatural, o leitor hesita entre acreditar ou não no que lhe está sendo contado. Num mundo real, num planeta redondo, com leis próprias regendo a natureza e em que não há vampiros ou duendes ou zumbis, ocorre um evento que não pode ser explicado pela ciência. O leitor, então, pode entender aquilo de duas formas. Ou está diante de um evento imaginário e, assim, o mundo continua a ser como é, com suas leis próprias, ou aquilo de fato ocorreu, é tão real quanto um copo d’água ou uma folha em branco sobre a mesa do escritor, e então esse leitor há de crer que o mundo não é exatamente o que pensava. Quando a opção é pela primeira explicação possível para o acontecimento sobrenatural, estamos no campo do estranho, do que existe mas é raro de acontecer e não contraria a natureza tal qual a conhecemos. Se a opção é pela segunda, adentra-se o espaço do maravilhoso. Num ou noutro caso, saímos do fantástico. Segundo Todorov: “Cheguei quase a acreditar”: eis a fórmula que resume o espírito do fantástico. A fé absoluta como a incredulidade total nos levam para fora do fantástico; é a hesitação que lhe dá vida (…) A hesitação do leitor é pois a primeira condição do fantástico (2004, p. 36 e 37. Grifos do autor). É preciso entender que não se trata, aqui, do leitor real, este ou aquele, com suas crenças ou convicções várias, mas uma “’função’ de leitor, implícita no texto (do mesmo modo que nele acha-se implícita a noção do narrador)” (p. 37). A hesitação em torno da existência ou não do evento sobrenatural narrado não diz respeito, portanto, ao leitor de carne e osso, mas a marcas textuais. . São essas marcas que vemos espalhadas por todo o conto “O voo da madrugada”, que dá título ao livro, a começar pela opção de Sérgio Sant’Anna por um narrador em primeira pessoa. Se um narrador em primeira pessoa é sempre suspeito, por sua parcialidade, mais ainda quando se trata de um homem que, poucas horas antes do acontecimento sobrenatural (o primeiro deles, o segundo virá no final do conto) toma dois comprimidos para dormir, das amostras que carregava consigo (é auditor de um laboratório farmacêutico, em viagem de trabalho). Tenso, insone, hospedado no Hotel Viajante (fica a cargo do leitor inserir no conjunto dessas anotações alguma interpretação viável para o nome do hotel), ele desce, atravessa a portaria e vai viver – por poucos minutos, nos arredores do hotel, numa zona de prostituição (de crianças inclusive) – uma experiência que, não podendo ser chamada de traumática, estaria a caminho disso. Já no aeroporto, madrugada ainda, prestes a embarcar num voo não previsto em sua agenda – a pressa (a angústia) de sair do hotel e da cidade o levaram a buscar um voo especial –, é interpelado por uma velha vendedora de café (levava a cafeteira no ombro e é descrita pelo narrador como alguém que lembraria, se estivéssemos num conto de fadas, uma feiticeira ou algo do tipo), que lhe diz: “O senhor não tem medo de viajar com eles?”, complementando, pouco depois: “Ninguém sabe o que viaja com eles, meu filho” (p.16). Eles: os cadáveres de um acidente aéreo, acontecido poucos dias antes. O voo especial levava no bagageiro os restos mortais e, na cabine, alguns poucos parentes das vítimas. Outras marcas textuais vão construindo aos poucos o efeito de hesitação a que se refere Todorov, dentre elas o fato de, já a bordo, o narrador saborear um vinho de razoável qualidade (o consumo de álcool pouco antes do advento do sobrenatural: elemento comum aos narradores de ficções fantásticas). Quando, então, já pela metade do conto, surge a mulher misteriosa, jovem, vestida de preto, elegante e bonita, que desponta do nada e vai sentar-se ao lado do narrador, com quem vive um idílio breve e quase romântico, sumindo nas brumas do sono do homem pouco depois, a ambiguidade já está montada meticulosamente. É o próprio narrador, aliás, que num gesto metaficcional, característico da obra de Sérgio Sant’Anna, anuncia ao leitor o que ele talvez não tivesse percebido ainda: Mas quem era ela: o inconcebível? Uma das mortas do acidente que subiu da morgue improvisada no avião e veio estar comigo? (…) o que dizer, então, aos mais desconfiados, entre os quais me julgo com direito a incluir-me? Que não passou tudo de um sonho? E os que gostam de interpretar os sonhos segundo os cânones, apontarão que aquela jovem mulher não foi mais do que a manifestação do meu abandono; dos meus desejos recalcados no Hotel Viajante e sua pecaminosa periferia. Além disso, a peculiaridade daquele voo, a vizinhança dos mortos, teria se insinuado no sonho, talvez com alguma contribuição da preta velha no aeroporto (…) Uma alucinação, dirão os céticos, levando em conta, ainda mais, que misturara aos comprimidos tomados no hotel o vinho servido a bordo. Sim, uma alucinação, tudo é possível, talvez naquele estágio intermediário entre a vigília e o sono (…) Um fantasma – e de carne e osso –, rirão os escarnecedores, e, diante do que vivi em seguida, serei capaz de rir com eles, embora por motivos muito outros. (p. 24 e 25) O gesto autorreferente, do autor com a própria escrita, do narrador com a própria narração, quebra o que seria o “efeito do fantástico” (ainda Todorov) e, ao mesmo tempo, abre uma outra porta de leitura. A hesitação do leitor em torno do acontecimento sobrenatural, a que se refere Todorov e que seria a condição de existência do gênero, surge no conto de Sérgio Sant’Anna não apenas como marca do fantástico, mas como deixa para a entrada do duplo. . Pelo elemento sobrenatural – o surgimento (e tudo o que se segue a ele) da mulher no voo da madrugada – ou pela hesitação criada pelo texto em torno desse mesmo elemento (teria acontecido ou não?), o tema do duplo começa a surgir no texto como uma força que conduzirá o relato até o final. Ou, na verdade, talvez nesse momento o leitor apenas se dê conta de que o duplo, sutilmente, já caminhava em silêncio pelo texto desde o início e só agora, pela emersão do sobrenatural, tenha dado as caras de forma mais evidente, servindo como estratégia para que o autor, ardilosamente, pudesse preparar o desfecho do seu conto, em que o narrador vai se encontrar consigo mesmo, no próprio quarto, como se fosse um outro que estivesse em casa, enquanto esse eu (quem?) viajava para uma cidade distante. A estratégia, então, seria a de encaminhar o leitor para um evento sobrenatural, fazendo-o acreditar que, como nas histórias tradicionais do gênero, estaria ali o clímax do conto e sua razão de ser – como se todo o conto tivesse sido escrito para terminar no encontro do narrador com a mulher misteriosa, fantasma – e de repente, numa reviravolta, o conto partisse para uma segunda parte, esta sim a que de fato interessa e que, a contrapelo, obnubilada pelo autor, já estaria se anunciando desde as primeiras páginas. A se acreditar nessa estratégia, não seria por acaso que o narrador interrompe vez ou outra sua narrativa para divagações como essa: “os sentimentos humanos são sempre partidos no mínimo em dois, e, se há homens dignos, são apenas seres que conseguem vedar seus compartimentos secretos” (p. 14). Ou ainda, assim que o avião alça voo: “Comprazia-me que o avião fosse diminutos pontos luminosos e piscantes no espaço e chegava a dividir-me em dois, para, na fantasia, igual a um menino, contemplá-lo do solo, imaginando-me em seu bojo.” (p. 17) Divagações, reforço, que surgem na narrativa antes do evento sobrenatural. Quando finalmente desembarca em São Paulo, o narrador procura pela mulher no saguão do aeroporto, na sala de espera especial para os parentes (transformada em sala de velório), consulta no guichê da empresa aérea a lista de passageiros (mais tarde irá a redações de jornais verificar obituários, fotos, qualquer pista que o levasse a rever a jovem daquela madrugada). Em vão. Toma um táxi e retorna ao seu apartamento, num velho prédio que dá fundos para outros. No apartamento às escuras, sente uma presença. E eis que o conto caminha para o epílogo, quando o narrador vê a si mesmo, com um sorriso irônico (talvez):