Flávio Carneiro Escritor · Crítico · Roteirista
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Machado de Assis: autor do século XXI?

Publicado no CD-Rom do X Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), em 2006, e disponível no site da associação.

Não é raro ouvir dizer que Machado de Assis, mais que um autor do século XIX, é um autor do século XX, de tal modo sua obra mostrou afinidades com a produção modernista, em especial a da primeira metade do século passado. Acredito que os precursores dessa linha de pensamento, e de certa forma os que a consolidaram, lançando a base para digressões futuras, foram Antonio Candido, Haroldo de Campos e João Alexandre Barbosa.

No ano de 1968, no já bastante citado “Esquema de Machado de Assis”, Antonio Candido afirma que podemos encontrar na ficção machadiana, sobretudo entre 1880 e 1900, “disfarçados por curiosos traços arcaizantes, alguns dos temas que seriam característicos da ficção do século XX.” (CANDIDO, 1995, p. 20)

A tese de Candido é a de que Machado teria sido reconhecido em vida como grande escritor não pelo que pudesse de fato interessar em sua obra, do ponto-de-vista de uma crítica literária mais amadurecida, e sim por algo que seria apenas uma tintura de superfície: sua erudição, sua elegância, seu estilo vazado numa linguagem castiça. Apenas no decorrer do século XX, em especial depois dos anos 40, segundo Candido, a crítica soube ler Machado como algo além de um escritor bem-comportado, de uma ironia fina mas sem maiores conseqüências para a problematização do status quo de uma casta intelectual movida pela retórica vazia e pela troca de gentilezas nos jornais e nos salões.

Para Antonio Candido, a obra machadiana apresentaria alguns traços que a ligariam a uma estética literária moderna. O primeiro deles seria o do tratamento da questão da identidade, que, em Machado, resulta na relativização dos limites entre razão e loucura. Haveria ainda o problema da relação entre o fato real e o fato imaginado – que irá nortear a ficção de Proust, por exemplo, e que ambos irão tratar a partir do tema do ciúme -, relação esta da qual resultaria uma questão ética, norteadora do existencialismo de Sartre e Camus: que sentido tem o ato?

Junto a esta questão viria outra, decorrente dela, que Candido define como o problema da aspiração à perfeição, à obra una, completa. Tal problema seria o fio condutor de diversos contos de Machado, em especial “Um homem célebre.” Como afirma o crítico paulista, a confusão entre fantasia e a realidade, a constatação de que a opinião alheia é o que talvez haja de mais autêntico em nós, a impossibilidade de definir com exatidão o que difere o justo do injusto, o certo do errado, tudo isso leva, em Machado, a uma relativização de conceitos que dá lugar ao sentimento do absurdo, base da obra de Gide e de Kafka.

Por fim, Candido aponta um outro tema, diferente destes e que, assumidamente, o atrai mais que os outros: a reificação das relações sociais. Ou, para usar de suas próprias palavras: “a transformação do homem em objeto do homem” (CANDIDO, 1995, p. 34), que está presente em seus romances e contos, como “A causa secreta”, por exemplo.

E conclui, reiterando sua proposta de leitura:

“não procuremos na sua obra uma coleção de apólogos nem uma galeria de tipos singulares. Procuremos sobretudo as situações ficcionais que ele inventou. Tanto aquelas onde os destinos e os acontecimentos se organizam segundo uma espécie de encantamento gratuito, quanto as outras, ricas de significado em sua aparente simplicidade, manifestando, com uma enganadora neutralidade de tom, os conflitos essenciais do homem consigo mesmo, com os outros homens, com as classes e os grupos.” 1

No início dos anos 1980, e menos preocupado com temas, ou “situações ficcionais”, do que com um modo específico de lidar com a economia da linguagem, temos o ensaio de Haroldo de Campos, “Arte Pobre, Tempo de Pobreza, Poesia Menos”.

Aqui, Haroldo estabelece que o “procedimento menos” (que ele irá definir ao longo do texto) teria uma data para o registro histórico de sua discussão: 1897, quando Sílvio Romero escreve sua crítica a Machado:

“O estilo de Machado de Assis, sem ter grande originalidade, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata de seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivaz, nem rútilo, nem grandioso, nem eloqüente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente do vocabulário e da frase. Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da palavra. Sente-se o esforço, a luta. ‘Ele gagueja no estilo, na palavra escrita, como fazem outros na palavra falada’, disse-me uma vez não sei que desabusado num momento de expansão, sem reparar talvez que dava-me destarte uma verdadeira e admirável notação crítica. Realmente, Machado de Assis repisa, repete, torce, retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que nos deixa a impressão dum perfeito tartamudear. Esse vezo, esse sestro, para muito espírito subserviente tomado por uma coisa conscienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humor, é apenas, repito, o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra.” 2

O texto de Silvio Romero estaria apontando, segundo Haroldo de Campos, para determinado paradigma: a valorização do estilo “abundante, corrente, colorido, marchetado” (adjetivos usados por Romero para exaltar a escrita de Rui Barbosa). Paradigma, este, que teria guiado grande parte de nossa cultura literária, em detrimento de um estilo mais exato, em que o excesso é tido não como aliado mas como declarado inimigo.

Ainda segundo Haroldo, o intencional tartamudear do estilo machadiano é uma estratégia voluntária de estabelecer o dialogismo bakthiniano, na medida em que diz e desdiz no mesmo passo, instaurando o tenso diálogo entre vozes, marca de seus contos e romances, como, por exemplo, Dom Casmurro:

“Há quem se contente em buscar em Dom Casmurro um raconto de adultério ou de suspeitas de adultério (…) Quem se lembrar que adulter vem de ‘ad + alter’, e pode significar também ‘alterado’, ‘falsificado’, ‘miscigenado’, ‘enxertado’ (formas de estranhamento do mesmo no outro), quem sabe concordará comigo que a personagem principal de Dom Casmurro (e, por sinal, a maior criação machadiana para a estética de nosso romance) não é Capitolina/Capitu, mas o capítulo: esse capítulo gaguejante, antecipador e antecipado, interrompido, suspenso, remorado, tão metonimicamente ressaltado pelo velho Machado em sua lógica da parte pelo todo, do efeito pela causa, como os olhos e os braços de Capitu.” 3

O estilo machadiano – feito de “lacunas e reiterações, de elipse e redundância, de baixa temperatura vocabular e alta temperatura informacional estética” (CAMPOS, 1992, p. 222) – andaria na contramão de nossa tradição literária, interessada antes numa “poesia mais”. A esta, Haroldo contrapõe a “poesia menos”, que teria tido em Machado seu primeiro representante, num fio que conduz em seguida a Oswald de Andrade e continua com Graciliano, Drummond e João Cabral, desembocando em Augusto de Campos e na poesia concreta.

Ao falar, explicitamente, de uma “certa linha rastreável de evolução”, ao colocar Machado de Assis entre alguns dos considerados cânones modernistas (cujo elo final seria a vanguarda concretista), Haroldo reitera, sob novo viés, a tese de Candido. Alçando o escritor do ambiente morno do final do século XIX – tão bem representado pelo próprio Silvio Romero – à festa da linguagem proposta e levada a cabo por diferentes gerações modernistas, o crítico reforça o coro dos que vêem Machado como autor do século XX.

Também pensando a partir de um pressuposto, a meu ver, questionável, o de “linha evolutiva”, João Alexandre Barbosa, em “A modernidade no romance”, elabora análise semelhante.

No início dos anos 1980, convidado a fazer, em função das comemorações de sessenta anos da Semana de 22, um balanço do que teria sido o romance brasileiro no século XX, João Alexandre alerta, logo de início, para o fato de que é necessário diferenciar moderno e modernismo:

“se o primeiro termo indicia um fenômeno de bases universais, apontando para tudo o que significou problematização de valores literários no amplo movimento das idéias pós-românticas, o segundo termo, confundindo-se, em alguns casos, com a própria idéia de vanguarda, já aponta para a retomada, num nível de intervenção cultural, dos desdobramentos do primeiro.” 4

Moderno, portanto, seria algo mais amplo, com desdobramentos nas diversas camadas da cultura, enquanto modernismo seria um fragmento desse todo, focado especificamente no campo estético. Há no modernismo, obviamente, algo do moderno, e este algo seria, segundo o crítico, a existência de certa insegurança, certa instabilidade no modo de articulação entre literatura e realidade. Põe-se em xeque a segurança com que românticos, realistas e naturalistas tratavam dessa articulação e instaura-se a desconfiança em relação ao que parecia certo.