Flávio Carneiro Escritor · Crítico · Roteirista
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Contos esparsos

Desfile

Publicado na Revista Contexto, nº 3. Vitória: 1994.

Era quando eu mais gostava, sem dúvida. Três horas da tarde, lençol ficando branco no varal, sol ardendo nas pedras do alpendre, nós quatro irmãs fugidas de dentro da casa pro quintal, carregando debaixo do braço a trouxinha colorida: vestido de seda carmim, saia rosa rendada, paletó escuro do meu pai morto, blusa azul clara de cetim que mamãe ganhou e nunca vestiu, coitada. Maria, tão branca, ainda levava a sombrinha. E às vezes o colar de pérolas falsas, um luxo!, e os sapatos de verniz que um dia seriam meus mas agora não, mamãe dizia, além dos cintos mais queridos do meu pai, depois do acontecido servindo de estrias negras e marrons da parede no canto atrás do armário, guardados, roubados.

Maria, sempre primeira, minha irmã pequena, subindo afoita pelas pedras até se equilibrar no alto do muro e andar daquele seu modo caçula carregando sombrinha de flores coloridas sobre fundo amarelo,