Na crônica “O louco de Buenos Aires”, Flávio Carneiro descreve seu singular encontro com um patético torcedor do Boca Juniors que, uma vez por mês, vestia a camisa do arquirrival, o River Plate, e postava-se durante horas numa praça, em silêncio. El Loco, como era chamado, pacificamente permanecia, desde que não fosse provocado – o que poderia transformá-lo numa figura feroz, disposta a atacar (a pedradas!) o perturbador de seu incomum ritual. É possível entrever nesse louco uma alegoria para o tema de Passe de letra (Rocco, 2009), coletânea de crônicas que aborda menos o futebol como esporte do que a paixão pelo esporte britânico que veio encontrar, nos pés brasileiros, vários de seus maiores mestres; uma paixão que, de fato, não raro tangencia a loucura, e cujas múltiplas manifestações – a paixão por estar em campo, por assistir ao jogo, por torcer para um time – são registradas, com matizes literários, nos textos que constituem o volume. Obrigado, a certa altura da vida, a escolher a bola ou a palavra (ou seja: a optar por profissionalizar-se como jogador de futebol ou a investir na carreira de escritor), Flávio nem por isso deixou de cultivar as duas paixões; Passe de letra nasce precisamente dessa convergência. .
Embora esse não seja um livro destinado unicamente aos amantes da bola – há, por outro lado, diversos textos nos quais transparece uma especial preocupação em apresentar elementos futebolísticos aos que não estão com eles familiarizados -, os peladeiros e torcedores serão os que decerto compreenderão melhor a face boleira de Flávio, sua trajetória como ponta-direita do Selefama de Goiânia, seu encanto pelo peculiar fraseado futebolístico. Um dos mais inspirados momentos da obra é dedicado a uma figura que, sem dúvida nenhuma, apenas os que de fato acompanham o esporte conhecem bem: o narrador – não qualquer narrador, mas especificamente aquela voz que vem do radinho de pilha, definido por Flávio Carneiro como o responsável por construir a narrativa do jogo, concedendo-lhe a necessária inflexão para fazer da partida, no momento certo, uma tragédia ou uma comédia. .
Mas o autor é, inevitavelmente, também um torcedor – no caso, um apaixonado alvinegro, que dedica uma crônica inteira a dissertar sobre a experiência única de torcer pelo glorioso: “Se torcer para um time de futebol é sempre uma aventura”, afirma Flávio Carneiro, “torcer para o Botafogo é um pouco mais que isso”. Prova disso é a série de eventos listada na crônica que só poderiam, mesmo, ter acontecido com o Botafogo – como as ocasiões em que o time entrou em campo com camisas azuis, verdes ou amarelas; ou como o inacreditável jogo, no Campeonato Brasileiro de 2008, em que o time teve um jogador e o presidente presos em pleno gramado. Aliás, a paixão de Flávio talvez explique a única falha do livro: a ausência de menções ao America. O time mais lírico já nascido em terras cariocas é mencionado apenas uma vez, e ainda grafado com acento – ‘América’ (sic!) -, verdadeiro acinte à tradição rubra. Contudo, talvez haja algo de atávico nesse equívoco: uma das mais belas páginas da história americana foi escrita no campeonato de 1929, quando o escrete alvinegro contestou uma derrota sofrida para o America, por 1×0; disputado um novo jogo, a “Maravilha rubra” venceu o Botafogo pelo singelo placar de. 11×2. O resenhista, afinal, também é um torcedor. .
Entre a bola e a palavra